O Brasil perdeu. Será?
Crônica em primeira pessoa relembra como a Copa reacendeu pertencimento, memória e afeto, mesmo sem o título
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Antes de qualquer coisa, preciso fazer uma declaração importante: eu sou flamenguista. Então, convenhamos, sofrer com futebol não faz muito parte da minha rotina. A piada está feita. Agora podemos conversar.
Quando a Seleção Brasileira perde uma Copa do Mundo, parece que nasce um técnico em cada esquina. Todo mundo sabe o que deveria ter sido feito. Faltou isso, sobrou aquilo, a escalação estava errada, o treinador demorou para mexer no time. E, claro, sempre existe alguém que vira o grande culpado da história.
Mas perder faz parte da vida.
Aliás, desconfio de quem diz que só ganha. Não conheço ninguém que tenha atravessado a vida colecionando apenas vitórias. A gente perde oportunidades, perde pessoas, perde dinheiro, perde tempo e, às vezes, perde até a coragem. Faz parte do pacote de estar vivo.
Mas a pergunta que ficou martelando na minha cabeça foi outra: será que o Brasil perdeu mesmo?
Porque existe uma coisa curiosa na Copa do Mundo. De quatro em quatro anos, acontece um fenômeno que eu gostaria de ver mais vezes. O brasileiro simplesmente vira brasileiro.
Não importa em quem votou. Não importa a religião, a profissão, o bairro onde mora ou a conta bancária. A camisa é a mesma. A expectativa é a mesma. Todo mundo acha que entende de futebol, grita para a televisão como se o técnico fosse ouvir e sofre por pessoas que, muitas vezes, nunca viu de perto.
E, de repente, pertencemos.
Talvez seja esse o maior presente que uma Copa nos dê: lembrar que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos. Em um tempo em que tudo parece nos separar, existe um campeonato capaz de nos reunir na sala de casa, no bar da esquina, na empresa e até na calçada para assistir ao mesmo jogo.
Este ano eu gostei de ver as bandeirinhas voltando às ruas. Gostei de ver gente decorando a varanda, organizando churrasco, comprando camisa verde e amarela simplesmente porque era Copa. Mas o que mais me emocionou foi ver meus filhos vivendo isso.
Eu vivi essa expectativa quando era criança. Agora, eram eles esperando o dia do jogo, perguntando os horários, torcendo, vibrando e descobrindo o que significa fazer parte dessa pequena tradição brasileira. Naquele momento, percebi que a Copa não é apenas sobre futebol. Ela também é sobre memória, identidade e afeto.
É claro que eu queria o hexa. Todo brasileiro queria. E também é claro que aqueles jogadores são profissionais muito bem remunerados para fazer o que fazem. Mas a vida nunca prometeu que esforço seria garantia de vitória.
Isso vale para o esporte, para uma empresa, para um casamento, para um projeto e para qualquer sonho que a gente coloque de pé. Às vezes, fazemos tudo certo e, ainda assim, o resultado não vem. Isso dói, mas também ensina.
Talvez o nosso erro seja acreditar que o único prêmio possível está no final da caminhada.
Enquanto esperávamos pelos jogos, nós nos reunimos mais. Conversamos mais. Rimos mais. Criamos lembranças. Vestimos uma mesma camisa sem precisar explicar por quê. Por alguns dias, o verde e o amarelo voltaram a significar apenas Brasil. E confesso que fazia tempo que eu não via isso com tanta força.
Talvez a taça não tenha vindo. Mas ela também não levou embora aquilo que construímos durante o caminho.
A vida tem muito disso. Ficamos olhando para o pote de ouro no fim do arco-íris e esquecemos que o encanto sempre esteve nas cores que nos acompanharam até chegar lá.
No fim das contas, talvez o Brasil não tenha conquistado o título. Mas, por algumas semanas, conquistou algo igualmente valioso: a lembrança de que, apesar de todas as diferenças, ainda somos capazes de torcer, sonhar e nos reconhecer como um único povo.
E, sinceramente, em tempos como os nossos, isso já é uma bela vitória.
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