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Imagem ilustrativa da capa de fundo do colunista Martha Medeiros

Martha Medeiros

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Martha Medeiros

Sorte na vida

29/11/2020 13:23:40 min. de leitura

A minha querida amiga Leila Ferreira, escritora, tem uma frase ótima: “Às vezes, os melhores fins de semana caem numa terça-feira”. Dito e feito: numa terça dessas, fiquei de papo com Nelson Motta (ele no Rio, eu em Porto Alegre), gravando nossa participação no Festival Saber Viver, que irá ao ar pelo YouTube em breve. E claro que falamos sobre sorte, assunto de sua recém-lançada biografia, e que eu também já tive muita. Exemplo: através do meu trabalho, acabei chegando perto de quem sempre fui fã.

Costuma-se dizer que a sorte vem colada a quem se esforça. É verdade, mas com ressalvas: tem gente que nem assim garante seu lugar ao sol. É só pensar neste 2020 em que veio uma pandemia e bagunçou tudo. Nada é absoluto, nem mesmo a sorte.

Claro que há sortes pontuais: ganhar um dinheiro na loteria, perder um voo que caiu, ou não perder e sentar ao lado de um Chico Buarque louco para conversar.

São sortes que acontecem uma vez ou outra, mas não garantem uma biografia continuamente bem recheada.

Para ter a sensação permanente de que a vida flui sem obstáculos, é preciso a sorte de ser leve. A sorte de não ser paranoico. A sorte de perceber grandeza nas miudezas.

A sorte de reconhecer a extrema importância dos afetos mais íntimos, antes que eles partam. A sorte de achar graça na vida. A sorte de se comover com música.

A sorte de gostar de ler livros profundos, geniais, incômodos. A sorte de estar aberto para todo tipo de amor. A sorte de gostar de ficar só, que é o que nos salva do convívio forçado com pessoas chatas.

A sorte de gostar de gente interessante, mais do que de gente influente. A sorte de não se entregar a expectativas mirabolantes, de ver o lado bom daquilo que deu errado, de não fazer drama por qualquer bobagem (se doer, doer mesmo, transforme em poesia).

A sorte de perceber a elegância que há na inteligência, mais do que em grifes. A sorte de gostar de viajar, de ir ao encontro de temperaturas mínimas e máximas, de cenários do tipo “me belisca”, de enrascadas que serão divertidas, de comidas estranhas e de estrangeiros com quem será impossível conversar, a não ser por mímica.

A sorte de ter coragem. A sorte de sempre criar uma atmosfera boa ao seu redor. A sorte de lidar com o caos sem sofrer demais.

A sorte da delicadeza e da humildade quando não se está em evidência, e principalmente quando se está. A sorte de não se agarrar à vida de forma agressiva ou petulante, mas de gostar dela de um jeito tão sincero que a faça retribuir, gostando muito de você também.

Boa sorte a todos que a merecerem neste domingo em que a biografia de tanta gente irá mudar – a de alguns eleitos e, se tudo der certo, a de milhares de eleitores.