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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Colunista

Parar a tempo

| 02/02/2020, 05:38 05:38 h | Atualizado em 02/02/2020, 16:39

“Você tem que ser capaz de parar a tempo”, disse Pablo Picasso, em 1932, sobre o segredo do ofício de escultor (o que ele era também, e magnífico). Como saber que uma obra está acabada? Não há um alarme sonoro que avise que chegamos ao limite, ainda mais em se tratando de arte.

Um texto pode se prolongar e sofrer diversas revisões, um filme pode ser editado e reeditado tantas vezes quanto necessário. A arte é inquieta, está sempre sujeita a transformações de última hora e a inúmeras tentativas de aperfeiçoamento.

Acrescentam-se cores, imagens, acordes, ao gosto do autor, que tem que ter muito autocontrole para dizer a si mesmo: basta. Ele precisa abandonar o que está fazendo e declarar o trabalho pronto. Não é uma despedida fácil.

Parar a tempo – a tempo de quê? A tempo de apresentar aos outros algo que faça sentido, e não uma demência completa. A tempo de preservar a ideia original, não avançar a ponto de destruir o conceito que se pretendia.

A tempo de manter a integridade da obra. A eternidade da obra. Sua genialidade, se ela a tiver.

Invejo quem escreve um texto de um fôlego só. Sou artesã: escrevo, reescrevo, faço uma faxina meticulosa em cada frase e só me dou por vencida quando já não consigo manter os olhos abertos. Tchau, texto, vai com Deus.

Dias depois, quando ele é publicado nos jornais, descubro uma palavra sobrando ou uma vírgula faltando e não me perdoo pela desatenção. Aí lembro que essa cobrança vem acontecendo há 25 anos e que a obsessão é prima-irmã da paranoia. Relaxa, mulher.

Como saber se 10 pinceladas a mais modificaria o sorriso da Mona Lisa, tornando-a ainda mais enigmática? Como saber se o corte de dois parágrafos deixaria um conto de Dalton Trevisan ainda mais preciso?

Pergunta inútil. Para quem está do outro lado do balcão, nada parece faltar ou sobrar: consome-se o que foi entregue. Só quem sabe onde poderia ter chegado é o próprio autor, e até isso é uma ilusão, porque ele não tem como prever que futuro teriam suas insistências. Prefiro acreditar que ele parou a tempo.

Vale para tudo. Parar a tempo uma discussão antes que acabe em pancadaria. Parar a tempo uma relação desgastada, antes que ambos comecem a se odiar. Parar de ser engraçadinho no Twitter a tempo de não entrar para a história como um boçal.

Vale até para a hora de preparar o almoço: segure a ansiedade, não vá salgar demais o molho, exagerar na pimenta. Dê sua obra como acabada. Sua noite como encerrada. Seu casamento como concluído.

“Até que a morte os separe” é romântico apenas para alguns casais sortudos – para tantos outros, é preguiça de decidir. Terceirizar sua liberdade pra morte? Francamente.

Saibamos parar a tempo. De falar. De forçar. De beber. De postar. Todo vexame advém da falta de timing.

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