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Imagem ilustrativa da capa de fundo do colunista Martha Medeiros

Martha Medeiros

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Martha Medeiros

Nosso caso de amor impossível

13/12/2020 15:46:36 min. de leitura

No começo, era apenas uma intuição de que tínhamos pontos em comum. Então, à medida que fui sabendo mais a respeito dele, confirmei que, de fato, havia sido uma falta de sorte nossos caminhos nunca terem se cruzado. Os 26 anos que separam nossas datas de nascimento jamais impediriam nosso amor: apesar da diferença significativa, a paixão não faz contas, acreditamos ambos.

Temos outras afinidades. Ele não foi um garoto prodígio, nem eu o gênio da escola. Ele era fascinado pelas estrelas de Hollywood, eu uma encantada pelos artistas de novela. Ambos amaram o cinema desde a primeira projeção de suas vidas.

Ele não devorou todos os clássicos literários, eu menos ainda. Ele não se abala com fracassos ou com sucessos, e não dou muita trela para isso também. Ele não é de turma, festa, shopping, agito; sou menos bicho do mato que ele, mas compartilho essa queda pela quietude.

Ele não acha divertido se hospedar na casa de ninguém, eu evito o que posso. O lugar que ele mais gosta é seu apartamento; eu gosto tanto do meu que sentirei saudades de 2020 quando acabar essa pandemia.

Ele realiza seu trabalho de forma produtiva e objetiva, a fim de não perder sua reserva para o jantar; também nunca entendi a razão de se fazer hora extra, meu lazer é sagrado. Mesmo deixando de faturar mais? “Sim”. Você acaba de ouvir nós dois dando a mesma resposta.

Mas ele não gosta de dirigir carros e eu adoro; ele não gosta de rock e eu me assanho diante de uma guitarra; ele é considerado estranho e eu pareço normal; as suas tiradas cômicas são brilhantes e as minhas, inexistentes; ele tem um caso de amor com Nova Iorque desde moleque e eu só fui me apaixonar pela cidade seis anos atrás.
É, almas gêmeas não existem, concordamos mais uma vez, e meu coração dispara.

Ora, por que me torturo? Ele nunca saberá sobre a minha existência, nem supõe que assisti a todos os seus filmes, que li todos os livros sobre sua vida e que Mia Farrow não teria a menor chance de ser minha amiga no Facebook.

Lendo a autobiografia que ele recém lançou, ficaram claras as razões de ele ter sido inocentado das acusações de pedofilia que sofreu no início dos anos 90, e isso me deixou mais à vontade para seguir prestigiando sua trajetória sem me sentir pressionada a “cancelá-lo”.

Ainda que todas as versões, de todas as histórias do mundo, tragam verdades e inverdades, continuo respeitando plenamente este mestre do cinema que duas semanas atrás completou 85 anos tentando não se deixar levar pela mágoa, enquanto lida com a dificuldade de escalar novos elencos – ficou para trás o tempo em que atores e atrizes davam um braço para receber um telefonema seu.

Soon-Yi, continue fazendo Woody Allen feliz ou terá que se entender comigo.