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Imagem ilustrativa da capa de fundo do colunista Martha Medeiros

Martha Medeiros

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Martha Medeiros

Flower Power

28/03/2021 09:33:09 min. de leitura

Imagem ilustrativa da imagem Flower Power
Em meio ao desespero pandêmico, foi baixado um decreto autorizando supermercados gaúchos a venderem apenas produtos essenciais – o que fosse supérfluo deveria ser coberto por um plástico ou qualquer outra coisa que impedisse o acesso dos fregueses. Entre os supérfluos, estavam equipamentos de áudio e vídeo, eletrodomésticos, presentes, artigos de decoração e flores.

Junte 10 pessoas (hipoteticamente, por favor) e pergunte o que é essencial a elas, e você escutará 10 respostas diferentes.

Gestantes, veganos, freiras, nutricionistas, executivos, diabéticos, modelos – cada um elegerá o seu fundamental, seja alimento ou objeto.

Isso sem citar o que nos é indispensável ao espírito: amor, fé, amigos, sol, arte – o verdadeiro império dos sentidos, sem os quais nem vale a pena levantar da cama de manhã.

Este longo preâmbulo é para dizer que costumo comprar flores no super e só não fiquei nervosa com o novo decreto porque dias antes havia investido em orquídeas e elas duram bastante.

Não sei como estão as coisas hoje. Os protocolos mudam tão rápido que talvez as floriculturas estejam abertas enquanto você lê este texto, e os supermercados estejam novamente comercializando astromélias, antúrios, margaridas.

Não podemos comê-las, não são produtos de limpeza nem contribuem para a higiene pessoal, então seriam essenciais por quê?

Não pergunte a quem prescinde delas. Pergunte a quem, como eu, rastreia com o olhar qualquer ambiente, não em busca de um Van Gogh na parede, mas de um girassol junto à janela.

Nasci nos anos 1960, fui adolescente nos 1970, tenho com o flower power uma relação de paz e amor que vai além das frases de camiseta.

Nunca morei em casa, sempre em apartamento, e na falta de um jardim, trazia da rua qualquer pequena espécie que tivesse pétala, caule, cor.

Quando fui morar sozinha, aos 20 e poucos, o dinheiro era contado, e entre leite e flor, comprava flor, nem que fosse uma violeta.

Nunca tive nenhuma inclinação para a botânica, nem muito natureba eu sou, mas não lembro de nenhum momento em que as flores não me tivessem sido essenciais como representação de vida, de apreço ao belo, ao simples, à consciência dos ciclos: murchar e florescer, uma constância.

Compreendo perfeitamente a importância delas num cemitério.

Os anos de paz e amor terminaram. Estamos vivendo num mundo doente, raivoso, violento. Nunca foi tão necessário contra-atacar com o alaranjado de uma gérbera, com uma azaleia cor de fúcsia, com o perfume de uma dama-da-noite, com um lírio branco e sua elegância, com buquês que declaram paixões, que pedem desculpas, que celebram aniversários, com flores valentes que nascem em meio às lajotas das calçadas ou entre as pedras de um muro e que, silenciosamente, imploram: basta.