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Imagem ilustrativa da capa de fundo do colunista Martha Medeiros

Martha Medeiros

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Martha Medeiros

A viagem que não fiz

24/01/2021 08:58:35 min. de leitura

Fazia 7 graus naquela sexta-feira de junho e a roupa que eu havia separado para embarcar não era quente o suficiente. Despertei às cinco e meia da manhã e precisava estar no aeroporto às 6. Vesti o jeans, a camisa, as botas e a jaqueta de couro, enfiei a mochila no ombro e fui pegar a mala que já esperava fechada na sala.

Chamei o Uber. Ainda estava escuro quando ele estacionou em frente ao prédio. Gosto de voos internacionais diurnos, aproveito para ver filmes, ler, fazer anotações, mas nenhuma dessas tentativas prosperou.

Não consegui passar das primeiras cenas de um blockbuster com Will Smith. Tampouco me concentrava na leitura: ao chegar na terceira página, tinha que voltar ao início do livro. Desisti. Fiquei pensando na vida e olhando fotos dela no celular.

Não gosto de manter a cortina da janela do avião fechada durante o dia, mas não abri para não perturbar o sono do sujeito ao lado. Resolvi dar uma cochilada também e acabei apagando.

Ao aterrissar em Paris, minha camisa estava amarfanhada e os pés inchados. Me arrependi de não ter ido ao banheiro antes, mas o sujeito ao lado roncava e não havia como passar por cima das pernas dele. Toquei em meus cabelos, preguiça de pegar um pente. Abri a janela e vi que chuviscava.

O avião custou a abrir as portas. Os passageiros demoraram a desembarcar. Havia uma fila muito longa na imigração, outros aviões haviam aterrissado no mesmo horário, mais de uma hora em pé até alcançar o guichê e apresentar meu passaporte.

Fiquei com medo de que minha mala já não estivesse na esteira e em lugar nenhum, mas ela estava lá, rodopiando sozinha. Peguei-a e corri para o banheiro mais próximo, distante uns 60 metros. Abri o zíper quase tarde demais, foi por um triz.

O combinado era nos encontrarmos no hotel, onde ela passaria uns dias comigo – não teria exigido que ela me aguardasse no Charles de Gaulle com a noite avançada.

Peguei um táxi com um senegalês na direção. O tráfego estava livre e percorremos os 30 km do aeroporto à cidade com relativa rapidez. Quando chegamos, ele me ajudou com a mala. Deixei o troco, ele achou pouco. Meu coração saía pela boca.

Me aproximei do balcão do check in sem olhar para os lados. Ela já teria se registrado e talvez até pegado no sono. Boa noite, cumprimentei com meu francês parcimonioso. Bonsoir, madame, o concierge respondeu. Foi quando escutei: “Mãe”.

Assim começaria a viagem que eu deveria ter feito em junho de 2020 e não fiz. Não vejo minha filha há exato um ano. Enquanto a saudade aumenta, a imaginação me leva até a França, onde ela vive: eu a abraço forte no hall de um hotel, sem saber onde largar minha jaqueta e minha ansiedade, e o resto do roteiro eu crio um pouco a cada dia, a fim de dar algum proveito a este tempo que não passa.