O espelho
Comentários sobre o futebol, os clubes e os craques do esporte mais popular do planeta
Gilmar Ferreira
Gilmar Ferreira é jornalista esportivo com passagem por veículos como O Dia, Jornal do Brasil, Lance! e Extra. Reconhecido por sua apuração e análises sobre futebol, foi também comentarista da Rádio Globo. Atualmente, é colunista do jornal Tribuna e do Tribuna Online, onde escreve sobre clubes, bastidores e o cenário do futebol brasileiro.
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Didier Deschamps chegou ontem, nos 2 a 0 que a seleção francesa impôs sobre a de Marrocos, à sua 20ª vitória em 25 confrontos em Copas do Mundo. Um cartel invejável, com só duas derrotas e três empates, que começou a ser construído no torneio disputado no Brasil, em 2014. Foi o início do trabalho de renovação da geração vice-campeã mundial em 2006, na Alemanha, herdada de Raymond Domenech. Hoje, quem assiste ao conjunto de Mbappé, Dembélé, Olise, Doué e cia em ação percebe claramente que não é só talento, há organização e estratégia.
E é neste trabalho que a CBF se espelha para fazer uma melhor participação no Mundial de 2030. O ex-volante, capitão do time campeão do mundo em 1998 naquela vitória sobre a própria Seleção Brasileira, tem 56 gols a favor e 19 contra nestes 25 jogos disputados – média de 14 marcados por edição e 2,2 por jogo, contra 19 sofridos, média de apenas quatro por torneio e 0,76 por jogo. E já preparando uma nova safra de jogadores com idade entre 20 e 24 anos, com tempo para jogar, no mínimo, mais duas edições da Copa do Mundo.
É claro que há por trás do trabalho de Deschamps um trabalho estrutural, de mapeamento de filhos e netos de imigrantes, nascidos na França.
Ainda assim, na atual edição disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, são mais de 70 jogadores servindo seleções africanas, em especial. A Argélia inscreveu 13 deles, o Haiti, 12, e a República Democrática do Congo, 11. Mas tinha “francês” no time de Senegal, da Tunísia, da Costa do Marfim e também de Marrocos, que acabou não aguentando a força do atual vice-campeão do mundo, favorito ao título.
Por mais cruel que tenha sido as eliminações do Brasil nas duas últimas Copas, caindo em 2018 para a Bélgica e em 2022 para a Croácia, o modelo empregado pela CBF em 2016, dando a Tite dois ciclos de trabalho, praticamente, completos não deveria ter sido abandonado.
Porque com a implantação das Datas-Fifa, restringindo a obrigatoriedade da cessão pelos clubes, ficou difícil reunir os mais talentosos jogadores; e com a estratégia da Uefa ao criar várias competições de seleções do continente, ficaram difíceis os amistosos com seleções europeias.
Defender a troca de comando na seleção, com o pouco tempo de trabalho dado a Ancelotti é das maiores besteiras para o momento. Momento, aliás, seguido por escolas tradicionais, que decidiram investir em treinadores que construíram a carreira conquistando os principais títulos europeus, como Jorge Jesus em Portugal, Jurgen Kopp na Alemanha, e o próprio Thomas Tuchel na Inglaterra, que no sábado (11) enfrenta a Noruega, que tomou a vaga do Brasil nas quartas-de-final. A Seleção Brasileira já não precisa mais de treinador – nem de espelho.
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