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Doutor João Responde

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Colunista

Dr. João Evangelista

Riscos da polifarmácia em idosos

| 20/10/2020, 08:54 08:54 h | Atualizado em 20/10/2020, 08:57

Assim que entrou no consultório, um senhor de idade avançada respondeu ao meu cumprimento, dizendo: “Desculpe-me, doutor, mas eu não te escuto, não te vejo e não te entendo”.

Depois disso, o acompanhante, antes mesmo de informar seus sintomas, mostrou-me uma caixa de sapato repleta de medicamentos, dizendo que ele vinha tomando dezenas de remédios, há anos.

O envelhecimento pode vir acompanhado de condições que necessitam o uso de fármacos, como comprometimento cognitivo, alterações do humor, incontinência, desnutrição, quedas, tonturas, distúrbios da marcha, perturbações do sono, hipertensão arterial sistêmica, problemas articulares, entre tantas outras “síndromes geriátricas”. Aliado a isso, uma importante condição frequentemente encontrada no idoso é a iatrogenia, danos resultantes de procedimentos médicos.

Em função da presença de várias comorbidades em pacientes idosos, todo tratamento deve ser iniciado, modificado ou suspenso, de forma lenta e gradual, com reavaliações, até alcançar o objetivo final.

Gerontes consomem muito remédios, sendo susceptíveis a complicações. Além disso, as alterações fisiológicas inerentes ao envelhecimento implicam em risco elevado de interações medicamentosas.

A diminuição da superfície absortiva da mucosa do aparelho digestivo, a vascularização sanguínea reduzida e a perda de massa muscular podem alterar a distribuição de drogas nos tecidos.

O uso de vários medicamentos, ingeridos ao mesmo tempo, aumenta a possibilidade de iatrogenia. A polifarmácia traz consigo riscos, como erros de prescrição, dificuldade de aceitação pelo paciente, reações adversas e interações entre fármacos. Por serem vulneráveis a complicações, iatrogenias são mais graves em pessoas longevas.

Virtualmente, toda intervenção médica expõe o paciente a algum risco. Situações como instabilidade, imobilidade, incontinência e comprometimento intelectual somam-se a esse risco.

Uma dor tratada com opioide causa constipação, sendo aliviada com laxante. Uma tontura debelada com antivertiginoso, leva ao parkinsonismo, sendo combatido com levodopa, levando a alucinações, que acabam sendo sanadas com neurolépticos. Para combater um mal, geram-se outros males provocados não pela doença, mas pelos inúmeros fármacos.

Convém sempre verificar se qualquer sintoma do idoso não é atribuível a algum medicamento que ele esteja fazendo uso.

Nenhum médico gosta de intervir em prescrições de colegas, mas o processo de retirada de medicamentos iatrogênicos é vital para alcançar a cura do paciente. A desprescrição é tão importante quanto à prescrição de remédios. Tais condutas também dependem da participação do paciente ou do responsável por ele.

Drogas amortizam o sofrimento, mas diminuem a energia necessária para sair dele. Remédios não devem trocar vida por existência.

Em se tratando de paciente idoso, na vigência de polifarmácia, deve-se considerar que muitas vezes o “menos poderá valer mais”.

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