O perigoso autodiagnóstico
Internet ajuda a informar, mas não substitui a consulta e o exame clínico na definição do diagnóstico e do tratamento
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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A Copa do Mundo é um espetáculo que envolve técnica e criatividade. Seleções bem treinadas podem até ganhar, mas não provocam tanto entusiasmo quanto aquelas que brilham pelo futebol arte. Durante um jogo, a centelha da genialidade costuma fazer e a diferença. Assim também ocorre com a medicina. Avaliações técnicas e padronizadas afastam o raciocínio clínico, do diagnóstico. Se por um lado a internet trata a doença, o bom médico deve tratar o paciente que tem a doença.
É evidente que a internet é uma excelente fonte de informação. Apesar de não substituir a consulta, ela pode ser uma aliada para complementar avaliações médicas.
O autodiagnóstico impulsionado pelas redes sociais e inteligência artificial representa um grave risco à saúde pública. Esse comportamento leva a erros de avaliação, a camuflagem de doenças e ao aumento perigoso da automedicação.
A informação online é frequentemente descontextualizada. Sintomas comuns a doenças simples podem ser interpretados como quadros graves, enquanto doenças reais podem ser ignoradas. Tentar tratar uma condição com base em pesquisas na web pode mascarar a verdadeira origem do problema, atrasando intervenções médicas cruciais.
Pacientes que já acreditam ter uma doença específica relatam ao médico apenas os sintomas que confirmam a sua crença, o que prejudica a avaliação clínica completa. Parte dessas pessoas recorre à automedicação, ocultando esta prática do médico.
Embora aplicativos verifiquem sintomas ou leiam exames, eles apenas apontam possibilidades, não substituem a avaliação clínica de um médico, podendo gerar diagnósticos ou tratamentos errados.
A inteligência artificial, por exemplo, não realiza um exame físico detalhado e desconhece, do paciente, o histórico médico completo.
O autodiagnóstico pode apresentar mais riscos do que benefícios, especialmente para aqueles que utilizam informações limitadas de redes sociais, amigos ou fontes não confiáveis, para definir sua saúde mental.
Assim como a tecnologia e as redes sociais facilitaram o acesso e o compartilhamento de informações sobre saúde, também facilitaram a disseminação de informações errôneas e concepções equivocadas sobre diagnósticos médicos.
Mesmo que pareça prático, buscar a causa de um sintoma no Google ou na inteligência artificial pode levar a conclusões erradas e prejudiciais.
Essas ferramentas constroem respostas com base em padrões de linguagem. Os resultados variam muito e vão desde causas inofensivas até doenças graves. Isso pode provocar tanto descuido quanto pânico desnecessário.
O diagnóstico envolve julgamento clínico e isso a inteligência artificial não tem. Ferramentas digitais não substituem o olhar clínico, o exame físico e a escuta qualificada, que envolvem relação humana e interpretação contextual.
Muitas vezes, de maneira equivocada, o paciente prefere a facilidade da informação, que o tranquiliza, do que a complexidade da incerteza, que o incomoda.
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.