O desconfiado paranoico
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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Somos bombardeados diariamente com informações desagradáveis. Notícias sobre guerras, violência, crimes, corrupção e doenças fazem parte desse cotidiano. Com isso, pensamentos pessimistas costumam rondar nossas mentes.
A persistência de devaneios ruins acaba gerando pane no sistema nervoso central, que termina por confundir desconfiança com paranoia.
Ao contrário da preocupação, via de regra passageira, o transtorno paranoico se caracteriza por um estado constante de ansiedade em resposta a determinado medo.
Como resultado, surge um quadro de hipervigilância, levando a vítima a estar sempre atenta a tudo e a todos. Pensamentos paranoicos dão origem a crenças falsas que aumentam o temor.
Esses padrões de pensamentos não têm base na realidade, mas são fervorosamente alimentados pela pessoa paranoica. Existem momentos que beiram a insanidade, especialmente quando a pessoa vivencia experiências negativas ou entra em contato com notícias danosas.
Felizmente, após flutuarem durante algum tempo na mente, instigando especulações e fantasias trágicas, esses preocupantes pensamentos acabam desaparecendo. O problema é quando esses momentos se tornam corriqueiros e persistentes, gerando comportamentos incomuns e decisões insensatas.
Desconfiando de quem não conhece, o paranoico pode tentar se esconder do objeto de sua desconfiança, ou confrontá-lo com agressividade, como se quisesse destruí-lo.
Esse comportamento antissocial causa o afastamento de amigos, familiares e colegas de trabalho, o que acaba confirmando os medos da pessoa paranoica de não poder confiar em ninguém. Além da ansiedade, o paranoico sente profundo cansaço físico. Estando sempre preocupado com alguma coisa, ele não consegue relaxar, fazendo com que o estresse comprometa sua saúde.
Teorias psicossociais, fatores genéticos, bioquímicos e neuropatológicos tentam explicar a causa da paranoia. Neoplasias, infecções graves e depressão emocional também estão relacionados com surtos paranoicos.
Muitas vezes, a coerência socorre o paranoico e ilumina o desconfiado. Existem pessoas ruins. Algumas situações podem realmente acabar mal. Acontecimentos hediondos costumam acontecer. Eventos traumáticos podem ter sido responsáveis pela gênese da mente assustada e enraivecida de ambos perfis psicológicos.
No passado de cada pessoa, pode ter havido uma experiência de decepção. Alguém que deveria ter sido gentil e não foi; um lugar que deveria ter sido seguro e se transformou em um local de horror; alguém esperado que não apareceu. Por ter sido tão traumático, o indivíduo pegou essa experiência e a imaginou como aplicável em todos os cenários da experiência humana.
Reagimos, assustados, não porque alguém realmente esteja nos seguindo, mas porque, lá atrás, alguém nos decepcionou e éramos jovens e frágeis demais para aprender a dar a perspectiva adequada a eventos negativos.
A desconfiança cautelosa é saudável. O absoluto pertence à patologia.
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.