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Nossos micróbios de estimação

28/09/2021 09:21:15 min. de leitura

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Foto: Antonio Moreira/AT
Utilizando a matemática para entender o movimento dos corpos celestes, Galileu sentiu que havia aprendido a língua que Deus usou para criar o universo.

Sonhando descobrir as ferramentas na qual Deus criou a vida, em junho de 2000, a ciência celebrou a conclusão do mapeamento do genoma humano.

Recentemente, foi lançado o Projeto Microbioma, quando pela primeira vez se teve a percepção clara de que os seres humanos são na verdade “superorganismos”, abrigando espécies vivendo em inteligente interação.
Bactérias, vírus, protozoários e fungos formam um notável ecossistema dentro do nosso corpo.

Vivemos para a existência desses microrganismos, e não o contrário. Na verdade, não temos esse ecossistema; ele é que nos tem.

Boca, nariz, pele, genitais e, majoritariamente, trato intestinal integram a moradia desses hospedeiros, que podem atuar como patógenos ou comensais.

As relações dentro dessa comunidade são complexas e sua harmonia é essencial para a manutenção da saúde de um indivíduo, uma vez que alterações no Microbioma já foram relacionados a desequilíbrios intestinais, mudanças no sistema imune e até danos na sanidade mental.

O leite materno é essencial para a formação do sistema imune de recém-nascidos, uma vez que carregam compostos envolvidos no desenvolvimento das comunidades microbianas que formarão o ecossistema intestinal inicial do bebê.  

O tipo de parto pode estar associado a distúrbios metabólicos e imunológicos em recém-nascidos. No parto por cesariana foi constatado um aumento dessas alterações, comparado ao parto normal. Quando um bebê nasce por cesariana, ele adquire um Microbioma diferente dos que nascem por parto normal.

Enquanto os bebês que nasceram pela via natural apresentam maior contato com a microbiota vaginal da mãe, os que nasceram por cesárea têm contato com a microbiota da pele, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de doenças.

Processos metabólicos das comunidades microbianas intestinais permitem que sejamos capazes de digerir carboidratos e proteínas, assim como absorver seus nutrientes. Além disso, elas estão relacionadas à proteção contra toxinas e patógenos externos.

Baixa diversidade no Microbioma intestinal está associada à obesidade, assim como alteração na abundância de determinados microrganismos locais já foi associada a pacientes com depressão emocional.

Ainda há muito para ser elucidado sobre esses habitantes do corpo humano, para que sejam usados no combate de doenças. No entanto, alguns tratamentos já são realizados de forma frequente em hospitais, abrindo caminho para as novas descobertas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o médico de Adolf Hitler, Theodor Gilbert Morell, prescreveu cepas da flora intestinal retiradas de um saudável sargento que havia lutado na guerra, para seu famoso paciente. Satisfeito, o Führer relatou melhora dos sintomas da Síndrome do Intestino Irritável.

Mistério é a parte do conhecimento ainda não conhecido.

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista