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Doutor João Responde

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Colunista

Dr. João Evangelista

Morte é realidade da vida

null | 28/12/2021, 10:20 10:20 h | Atualizado em 28/12/2021, 10:20

Desde o primeiro sopro até o último suspiro, convivemos com a incômoda presença da morte. A “vida é de morte”, trememos diante dessa fragilidade.

Médicos criam intimidade com a finitude. No início de sua formação, o acadêmico examina o corpo que outrora hospedou a vida. Mais tarde, ele deverá fazer de tudo para que essa chama não abandone o paciente.

Morte é realidade da vida. O reconhecimento desse fato físico nos adverte para viver. Sendo o medo de morrer tão permanente, parte da energia vital é utilizada na tarefa de negar a morte. A angústia frente ao nada faz o ser humano lutar para transcender a morte, embora a solidão existencial insista em nos lembrar que somos finitos. O ato de morrer segue sendo uma experiência humana solitária.

Saúde e instinto de sobrevivência são ferramentas de proteção e amor à vida. Ainda assim, questionamos o fato de que, se temos que morrer e nada é eterno, qual o sentido de viver? 

Ainda que respostas sejam encontradas na espiritualidade, ela não pode responder à questão individual do sentido pessoal da vida.

A morte ensina muito sobre a vida. Saúde é um troféu almejado pelo doente e reverenciado pelo médico. Entretanto, medicina não envolve apenas doenças. Muitas vezes, a dúvida é mais angustiante que a dor do paciente. A pior forma de lidar com o sofrimento é negando sua existência. 

Morrer é um momento sagrado, talvez mais que o próprio nascimento. Falar sobre a morte não é trazê-la para perto de nós, mas dar uma chance de sentir como estamos vivendo.

Quando começa o curso de medicina, o acadêmico considera o doente como um receptáculo de doenças. As patologias estudadas a partir do corpo do morto possibilitam o pensamento de que a enfermidade leva à morte, e a vida seria a consequência da eliminação de todos os sintomas dessa enfermidade.  

Os fatores envolvidos na formação do médico são responsáveis por essa maneira de empregar sua atividade em busca da cura, como se fosse a única alternativa possível. 

Agindo de maneira técnica, o aprendiz de médico reduz os cuidados à busca da cura, desconsiderando que a morte é um processo da própria vida.

Tudo se passa como se ele aprendesse a discorrer sobre doenças para esquecer o fato definitivo da morte, afinal morrer não é nada saudável. 

Mais tarde, munido de perdas diante da morte, o médico se angustia. A angústia mostra para ele a sua fria impessoalidade, clamando por um questionamento sobre o universo pessoal desse profissional. Por isso, ao contrário do que se pensa, o médico se sente estranho diante da morte. 

Essa estranheza, vivida por ele, frente à morte, se dá não só através da sua condição de mortal, mas, junto com ela, pela ausência de reflexões acerca da finitude, uma vez que a morte é tida como algo indesejado e que deve ser silenciada, resultando no temor em pensar sobre ela. 

A vida é um livro sem índice. Entretanto, mesmo diante do desconhecido encontrado em suas páginas, vale a pena viver.

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