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Carlos Nejar

Carlos Nejar

Colunista

Interpretação

| 15/08/2021, 16:25 16:25 h | Atualizado em 15/08/2021, 16:26

O que é da razão ou da criação humana se interpreta. O que é de Deus, é revelado. Mas sempre há um mistério Nele, que é encoberto.

O profético alcança o Espírito e Ele, o futuro. Mas somente Deus é futuro e definitivo. Interpretamos os sinais da natureza, interpretamos os sonhos, interpretamos um texto literário ou filosófico, a ciência é interpretável.

Recordo-me de quando adolescente, caminhando pelas trilhas de Gramado, onde passava a infância no pampa, gostava de tentar interpretar as folhas que caíam das árvores, como se as árvores caíssem das folhas, ou as árvores voassem com os pássaros.

E era estranho que cada folha guardava a sua identidade, nenhuma se parecia com outra, como os troncos não são iguais.

E o tempo passa, como nós passamos. Para Borges, o escritor argentino e para o próprio Eclesiastes, bem antes, nós somos como sombra que passa, porque somos tempo, mesmo que creiamos inventar o tempo, na medida em que ele nos inventa.

E apenas existe no poético, o profético, se a vida é revelada. Vêm-me os versos de um poeta francês, François Villon, que anotou numa de suas baladas: “onde estão as neves de antanho?”

Ainda que todas as neves se pareçam, o seu espetáculo é impressionante. Eu o assisti, certa vez, viajando por uma estrada da Espanha, a caminho de Sevilha, com as rodas do automóvel resvalando, com precisão de correntes para a segurança.

E na minha memória, esta neve irrompe com suas camadas, como o tempo é tantas vezes a neve que se apaga.

E tantas vezes é o coração que degela o esquecimento. Ou até o esquecimento que modela ou amplia a glória.

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