Cinquentões levam vida de adolescente
Redação jornal A Tribuna
Gerar renda, organizar compromissos, assumir despesas e lidar com contratempos são responsabilidades que devem ser assumidas pelos adultos. Ou, pelo menos, deveriam ser.
Apesar disso, não é raro encontrar por aí casos de filhos que chegam aos 40 e até aos 50 anos sem assumir uma postura ativa com a própria vida. Geralmente continuam vivendo com os pais, sem nem ajudar nas despesas da casa. São os chamados “adultescentes”.
A psicóloga e terapeuta do sistema familiar Cássia Rodrigues afirma que é cada vez mais comum receber pais em seu consultório reclamando dos “filhos que não deram certo”. Por isso, é importante mudar posturas para que novas gerações sejam diferentes.
Ela explica que as classificações etárias foram atualizadas e a adolescência passou a terminar aos 25 anos. Já a juventude vai até os 40, quando tem início a fase adulta.
“A adolescência foi prolongada porque as pessoas já não se casam mais tão cedo. Na juventude é quando a pessoa deve começar a trabalhar e iniciar a construção de um novo lar”, explica.
Cássia Rodrigues acrescenta que, enquanto adulto, a pessoa deve se responsabilizar pela própria vida sem dependência financeira ou afetiva dos pais.
“O processo de amadurecimento deve começar na infância. A criança é totalmente dependente, porém a autonomia deve ser trabalhada com o avançar da idade”, reforça a psicóloga e psicoterapeuta Débora Monteiro Coelho.
“Os pais devem soltar o filho aos poucos, permitindo – e ajudando – que faça mais coisas por conta própria. Assim, ele sente que pode andar sozinho e caminhar para cuidar da própria vida”, diz Débora.
Quando o amadurecimento não ocorre naturalmente, o processo deve ser trabalhado em filhos e pais, frequentemente contando com ajuda profissional.
O amadurecimento do filho e sua saída de casa também podem ser desafios para muitos pais, que têm desenvolvido a Síndrome do Ninho Vazio, observa o psicólogo Alexandre Vieira Brito. É quando os pais sofrem de forma exagerada com a saída do filho de casa.
“Os pais devem criar o filho para enfrentar o mundo. Nem sempre eles têm facilidade de ver o filho crescendo. Ele pode ter 30 anos, que os pais ainda o veem como uma criança. Isso soa bonito, mas infantiliza o adulto”, avalia Alexandre Brito.
Perfil dos cinquentões
- Acomodados no conforto do lar dos pais.
- dificuldade em assumir responsabilidades.
- Têm dependência financeira e afetiva.
- Usam desculpas baseadas em fatos para justificar sua postura, como dificuldade em conseguir emprego ou estar estudando, mas que se prolonga demais.
Perfil dos pais
- Superprotetores.
- Buscam “compensar” os filhos por alguma culpa que sentem.
- Têm dificuldade em enxergar os filhos como adultos.
- na hora de educar, adotaram uma postura muito autoritária ou muito liberalista.
- Muitos ainda sofrem com a ideia de ter a casa vazia.
Análise
“O ideal é que a mudança de comportamento venha da própria pessoa”
Aline Hessel
Psicóloga
“Vários fatores podem provocar essa postura, como a cultura em que a pessoa está inserida, a questão socioeconômica, a possibilidade de diagnósticos não dados corretamente na infância (como Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e a educação da família, que não trabalhou desde a primeira infância a autonomia e a responsabilidade com afeto e acolhimento.
Por mais que essas pessoas tenham ganhos com essa postura, elas também sofrem pela dificuldade em obter conquistas. Elas percebem seus amigos progredindo na vida, tendo uma profissão, construindo uma família, adquirindo um carro ou uma casa... Elas veem os outros tendo responsabilidades e também proveitos.
O ideal é que a mudança venha da própria pessoa. Caso não venha, é fundamental uma postura dos pais em auxiliar o filho a buscar autonomia.
Pais e filhos que têm possibilidade devem buscar ajuda. Para o filho, o psicólogo ajuda a identificar os fatores que contribuem para a permanência nessa condição de criança e auxilia na busca de alternativas para mudar a atitude.
Para os pais, a ajuda é para entenderem o que fazem que corrobora essa situação e como eles podem contribuir para o desenvolvimento saudável dos filhos.”
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AT em Família,por Redação jornal A Tribuna