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Sons emitidos por chimpanzés lembram nossa gramática, afirma estudo

Cientistas ainda não conseguiram atribuir significados às "frases" dos primatas, mas o trabalho é um primeiro passo importante para entender os elos entre as capacidades de comunicação dos outros grandes símios e a origem da linguagem humana

Agência Folhapress | 28/05/2022 16:57 h

Agora deve vir o trabalho mais difícil e lento: mostrar que essas características podem corresponder a uma gama de sentidos que os bichos são capazes de compreender.
Agora deve vir o trabalho mais difícil e lento: mostrar que essas características podem corresponder a uma gama de sentidos que os bichos são capazes de compreender. |  Foto: Reprodução/Pixabay.
 

A combinação de sons emitidos por chimpanzés na natureza parece seguir uma ordem que tem semelhanças com a gramática da nossa espécie, afirma um novo estudo publicado por pesquisadores europeus.

Os cientistas ainda não conseguiram atribuir significados às "frases" dos primatas, mas o trabalho é um primeiro passo importante para entender os elos entre as capacidades de comunicação dos outros grandes símios e a origem da linguagem humana.

Os dados sobre o tema acabam de sair na revista especializada Communications Biology. Coordenado por Cédric Girard-Buttoz, do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod, na França, o trabalho se baseou na análise de mais de 900 horas de gravações dos sons emitidos por chimpanzés do Parque Nacional Taï, na Costa do Marfim. Ao todo, as "vozes" de 46 macacos adultos estão presentes nas gravações, sempre feitas em contextos naturais.

Estudos sobre as capacidades linguísticas dos chimpanzés têm acontecido há várias décadas, mas o mais comum é que eles tenham como foco o ensino de rudimentos das línguas de sinais humanas para os bichos. Em parte, isso tem a ver com o fato de que a conformação da musculatura e dos ossos da garganta dos bichos simplesmente não permite que eles reproduzam sons com a mesma flexibilidade do Homo sapiens.

Além disso, há, é claro, a questão cognitiva. Com cérebros cujo tamanho equivale, em média, a um terço do nosso, os símios parecem ter limitações fundamentais na hora de compreender como a linguagem funciona. Com isso, os resultados dos estudos com línguas de sinais são relativamente decepcionantes.

Os chimpanzés e bonobos "voluntários" conseguem aprender algumas centenas de sinais, mas não chegam a combiná-los de um jeito que se pareça com a estrutura de sentido que diferencia, por exemplo, a frase "O menino viu o cachorro" de "O cachorro viu o menino", algo que crianças humanas a partir dos dois ou três anos de idade já são capazes de entender.

No entanto, esse tipo de experimento costuma ser feito em contextos muito distantes do comportamento natural dos bichos, e é por isso que a análise feita por Girard-Buttoz e seus colegas é valiosa. A partir de uma lista dos diferentes tipos de vocalizações emitidos pelos chimpanzés (num total de 12 sons), a equipe europeia passou a peneirar as gravações em busca de algumas características que poderiam indicar formas mais sofisticadas de comunicação.

Chimpanzés que participaram de estudo sobre como os animais se comunicam Liran Samuni/Taï Chimpanzee Pro O traço número um avaliado pelos cientistas é a flexibilidade, ou seja, a capacidade de combinar a maioria dos sons individuais com quaisquer outros. O de número dois é a ordenação, que corresponde ao fato de que certas unidades tendem a aparecer em determinadas posições na vocalização.

No caso do português, por exemplo, o normal é dizer "o menino", e não "menino o" (embora outras línguas coloquem o equivalente ao artigo "o" depois, e não antes, do substantivo). O item três, a recombinação, tem a ver com a capacidade de usar sons individuais já combinados –dois deles, por exemplo, que os cientistas chamam de "bigramas"– para formar "frases" ainda mais longas, com três ou mais elementos.

Usando esses critérios, os cientistas constataram que 67% das "falas" dos chimpanzés consistem num único tipo de som, emitido uma ou várias vezes em sequência. No restante dos casos, mais de um tipo de chamado era combinado. Em geral, eram os tais "bigramas", mas também há registros de até dez sons diferentes emitidos juntos, num total de 390 sequências únicas de sons (mais uma vez, é possível compará-las a "frases" diferentes). Ou seja, isso já satisfaz o critério um, o da flexibilidade.

Para testar o critério dois, o da ordem preferencial dos sons, os autores do estudo analisaram especificamente os "bigramas", a combinação de dois tipos diferentes de vocalização. Mais um ponto para os chimpanzés: os pesquisadores verificaram que pelo menos nove das unidades sonoras têm uma tendência clara a aparecer em posições típicas, no começo ou no fim das "frases".

Um exemplo é o som que eles apelidaram de "pant-scream" (algo como "grito arfado"). Ele foi registrado em 67 "bigramas" na segunda posição, sendo precedido por um "pant hoot" (ou "pio arfado") em 60 desses casos. Só em 7 ocorrências outro som vinha antes dele.

Por fim, no que diz respeito ao critério três, a equipe de Girard-Buttoz verificou que a maior parte dos "bigramas" também é utilizada pelos animais em vocalizações com três elementos (os "trigramas"), e que, nesses trios de sons diferentes em sequência, também parece haver uma ordem preferencial, com certos "bigramas" aparecendo com frequência mais alta do que o esperado em certas posições.

Existem poucos estudos de abrangência semelhante ao da equipe europeia sobre as vocalizações de outros primatas, mas o que se sabe até agora sugere que eles podem ter descoberto algo único. "Por enquanto, apenas os sistemas vocais de seres humanos e chimpanzés parecem abranger as três características estruturais que propomos", escrevem os cientistas.

Agora deve vir o trabalho mais difícil e lento: mostrar que essas características podem corresponder a uma gama de sentidos que os bichos são capazes de compreender.

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