Pesquisa revela os principais motivos que provocam divórcios
Conflitos financeiros, infidelidade, falhas de comunicação e até falta de sexo são algumas causas apontadas por estudo
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O Brasil registra uma média de 400 mil divórcios por ano, de acordo com números de 2023 e 2024 das Estatísticas do Registro Civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o que leva tantas pessoas a se divorciarem?
Uma pesquisa publicada no Journal of Social and Personal Relationships (Revista de Relações Sociais e Pessoais ) revelou que entre os principais motivos estão falhas de comunicação, conflitos financeiros, infidelidade e até falta de sexo.
Segundo os pesquisadores, embora alguns problemas se intensifiquem com o tempo, a base do conflito costuma estar estabelecida ainda no início do casamento. O levantamento também mostra que, para muitas mulheres, a percepção de desgaste tende a aumentar ao longo dos anos, indicando que conflitos iniciais não resolvidos podem se agravar progressivamente.
A advogada Daniela Bermudes, especialista em Litígios Patrimoniais e Familiares, destaca que atualmente o divórcio não exige a demonstração de qualquer motivo.
“Trata-se do que denominamos de direito potestativo, exercido por simples manifestação unilateral de vontade. Por isso, nem sempre o motivo é informado ao advogado. Ainda assim, algumas causas aparecem com frequência nas conversas com os clientes, como infidelidade, afastamento emocional e discussões patrimoniais.
O psicanalista e terapeuta de casais Vânio Domingos afirma que, na prática clínica, o divórcio raramente acontece por um único motivo, sendo, em geral, resultado de um acúmulo de desgastes ao longo do tempo, como os principais citados na pesquisa, além de vícios como pornografia, agressões físicas, uso excessivo de redes sociais, diferenças importantes de valores e projeto de vida.
Também é comum observar, segundo Vânio, o impacto de fatores contemporâneos como sobrecarga emocional e menor tolerância a relações insatisfatórias.
“Em muitos casos, os casais não se separam por falta de amor, mas pelo acúmulo progressivo de conflitos não resolvidos que enfraquecem o vínculo ao longo do tempo”, analisa o psicanalista.
Mais separações após os 50 anos
O número de divórcios no Brasil tem revelado novas dinâmicas nas relações, especialmente entre pessoas na faixa dos 50 anos.
Segundo o advogado Alexandre Dalla Bernardina, especialista em Direito de Família, um dos fenômenos recentes, bem observado nos últimos dois anos, é o aumento de separações de pessoas em faixas etárias mais avançadas, chamado “divórcio grisalho”, que envolve casais acima dos 50 anos.
De acordo com o especialista, mais do que fatores isolados, como infidelidade, problemas financeiros ou falta de comunicação, o que se observa na prática é um desgaste acumulado ao longo do tempo.
Um dos principais pontos destacados é a sobrecarga enfrentada por mulheres dessa geração. Muitas conciliaram carreira, cuidados com os filhos, responsabilidades domésticas e pressão estética.
“Ao chegar aos 50 anos, com mais maturidade e autonomia, essas mulheres passam a refletir sobre a própria vida, querendo construir uma história diferente”.
Outro fator relevante é a mudança cultural. “Hoje permanecer casado deixou de ser uma obrigação social. Houve um avanço enorme nos últimos 20 anos”.
Além disso, o especialista aponta o crescimento dos divórcios extrajudiciais, realizados em cartório quando há consenso entre as partes. Essa modalidade tem ganhado espaço por ser mais rápida, menos custosa e menos desgastante emocionalmente.
“Há uma tendência entre os advogados em tentar construir soluções alternativas, porque o judiciário tem enorme dificuldade em atender uma demanda no tempo mais curto. Além disso, o divórcio judicial é mais caro e moroso”.
O advogado também chama atenção para novos focos de conflito, como questões patrimoniais. Ele ressalta que a falta de transparência em planejamentos financeiros familiares pode contribuir para o rompimento.
Saiba Mais
Estudo
A pesquisa publicada no Journal of Social and Personal Relationships acompanhou 431 casais ao longo de quatro anos, com até cinco entrevistas durante esse período. Ao final, 55 casais haviam se divorciado. Entre eles, foi possível coletar dados detalhados de 40 participantes, incluindo 10 casais e 20 indivíduos que passaram pelo divórcio.
Principais causas
Os relatos mostram que homens e mulheres percebem os problemas de forma semelhante, mas com algumas diferenças de prioridade.
Entre as mulheres, os fatores mais citados foram dificuldades de comunicação, falta de disposição para investir na relação, problemas de confiança, ciúmes ou infidelidade e alterações de humor.
Já entre os homens, os principais pontos levantados incluíram alterações de humor e temperamento, falhas na comunicação, questões de confiança, pouca qualidade no tempo compartilhado, dificuldades na tomada de decisões e problemas financeiros.
Percepção dos problemas
Em média, os homens perceberam apenas um dos 13 problemas que mais tarde contribuiriam para o divórcio no começo do relacionamento.
Já as mulheres identificaram cerca de sete desses 13 problemas desde o início.
Soma dos conflitos
Os homens relataram, em média, que cerca de 7,8 fatores contribuíram para o divórcio.
Já as mulheres apontaram uma média mais alta, de 10,7 problemas, indicando uma visão mais ampla do desgaste da relação.
Os fatores mais comuns
De forma geral, o estudo e outras pesquisas apontam que o fim de um relacionamento costuma estar ligado a um conjunto de fatores, e não a um único motivo isolado.
Entre os principais estão dificuldades de comunicação, diferenças de valores e expectativas de vida, conflitos financeiros, perda de intimidade emocional ou física e episódios de infidelidade.
Também aparecem com frequência problemas na forma de lidar com conflitos, mudanças individuais ao longo do tempo e a sobrecarga desigual nas responsabilidades do dia a dia, especialmente dentro de casa e no cuidado com os filhos. Especialistas também relatam que atualmente o uso de redes sociais tem contribuído para o desgaste das relações.
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