Paixão por discos de vinil transmitida de avó para neto
Entre memórias herdadas e novas descobertas, jovens resgatam mídias físicas e encontram no passado uma forma de desacelerar e se conectar
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Foi ouvindo CDs de diferentes estilos musicais ao lado da avó que o designer João Pedro Aguilar, 23 anos, desenvolveu sua paixão por mídias físicas. O hábito, herdado ainda na infância, hoje se traduz em uma coleção de quase 100 vinis.
Ele conta que começou a colecionar CDs em 2015, com artistas mais atuais. No entanto, foi ao se deparar com um disco da cantora Rita Lee, de quem é fã, que se encantou pelos vinis — formato que passou a priorizar desde então.
O movimento acompanha uma tendência global. Dados do relatório Audio Tech Lifestyles, da Futuresource Consulting, indicam que as vendas de vinil cresceram, em média, 18% ao ano nos últimos cinco anos, impulsionadas principalmente pela geração Z.
Segundo o levantamento, cerca de 60% dos jovens afirmam comprar discos.
Para a psicóloga Valkíria Gomes, o interesse também pode ser uma busca por experiências mais estáveis e afetivas.
“Há uma necessidade de pertencimento e conexão. Práticas como ouvir vinil ou fazer crochê ajudam a criar relações mais duradouras com o tempo e com os objetos”.
João diz que esse interesse tem vários motivos, mas destaca a “mágica” de ouvir um disco do início ao fim, sem pular faixas.
“Acho que a gente entende melhor o trabalho do artista e percebe que tudo ali, desde a arte da capa, até a ordem das músicas, tem um sentido”.
E a paixão ajuda até mesmo na sua vida profissional. “A maioria dos meus discos fica exposta aqui em casa e, às vezes, serve até mesmo de inspiração para os meus projetos. As capas, contracapas e encartes têm um trabalho gráfico muito rico, que às vezes não é tão valorizado no digital”.
Ao começar sua coleção de vinis, João descobriu que também gosta da parte de encontrar discos diferentes para comprar.
“Hoje minha coleção tem de tudo um pouco, desde MPB até divas pop dos anos 70 e 80. A maioria é de segunda mão, porque eu sinto um prazer maior em garimpar em sebos ou feiras”.
Nesse processo, o jovem diz que sente como se pudesse visitar o passado ou as histórias de outras pessoas.
“Gosto de ouvir com calma e perceber às vezes que uma faixa está mais gasta que a outra. Fico imaginando porque o dono anterior gostava tanto dessa música”.
Em um mundo cada vez mais acelerado, João diz que o ritual dos vinis se torna terapêutico.
“Eu gosto de cuidar dos discos, limpar, trocar capas, organizar, como se eu estivesse cuidando das músicas. É todo um processo”.
Para “ouvir de verdade”
O lojista Isaac Neitzel, 19 anos, tem uma coleção de quase 200 CDs de música brasileira. O interesse surgiu ainda na adolescência, quando redescobriu o aparelho de som antigo da família e passou a valorizar a experiência de ouvir música fora das telas.
Para ele, o CD vai além do som: envolve observar capas, ler encartes e acompanhar as letras. “No digital, muitas vezes a gente escuta sem prestar atenção. No CD, você para para ouvir de verdade”, afirma.
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