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Modelo vira conselheira amorosa após relacionamento abusivo

| 19/10/2020 16:04 h | Atualizado em 19/10/2020, 16:17

A ex-modelo Michele Pin virou ativista no combate à violência contra a mulher depois de ter  uma arma apontada para a própria cabeça
A ex-modelo Michele Pin virou ativista no combate à violência contra a mulher depois de ter uma arma apontada para a própria cabeça |  Foto: Sérgio Baia/Divulgação

Amar alguém pode ser uma tarefa fácil. Mas até que ponto esse amor pode fazer bem? Muitas vezes, em busca de carinho, algumas pessoas podem cair em um relacionamento tóxico.

Para saber identificar essas relações, a escritora, ex-modelo internacional e coach de relacionamentos Michele Pin afirma que é preciso que cada pessoa fortaleça em si mesma o amor-próprio.

Foi após viver uma relação abusiva que Michele virou conselheira do amor. “Tive uma arma apontada para minha cabeça em plena Avenida Paulista (SP), pelo meu ex-namorado, que dizia me amar como ninguém me amaria”, conta.

A partir desse drama, Michele resolveu ajudar mulheres que passam por situações semelhantes. Ela, que é capixaba, chegou a receber mais de 60 mil pedidos de ajuda, nascendo daí o desejo de escrever um livro.

“Escrevi 'O Desafio do Amor-Próprio' porque queria mostrar às mulheres que podemos adquirir esse autoconhecimento tão importante”, explica a escritora.

A Tribuna – É possível a uma pessoa saber que ela não tem amor-próprio?

Michele Pin – O livro mostra que temos vários passos até chegarmos a este autoconhecimento. Algumas perguntas são feitas, como: você já se imaginou sendo outras pessoas? Você evita se aproximar de outras pessoas? Sente que sua vida está estagnada? Essas perguntas levam a um resultado, para que a pessoa veja em que nível está. São passos iniciais que ajudam a mulher a ver que precisa de uma injeção de amor-próprio.

As mulheres que sofrem violência de qualquer tipo, normalmente, têm a sua autoestima muito baixa. Há pessoas que estão com a autoestima abalada por conta de uma chefia que humilha, porque há quem não consiga falar uma palavrinha muito importante: não.

Como desenvolver o amor-próprio?

Não somos estimulados, nas nossas primeiras instituições, família e escola, a aprender sobre a força desse amor-próprio.

Somos ensinados a conhecer sobre o outro. Nas escolas, aprendemos as matérias, mas não aprendemos como nos comportar em relação aos nossos sentimentos, e nem como estabelecer o limite, para que as pessoas não entrem atropelando nossa vida.

O sucesso profissional, financeiro e até familiar não garante seu amor-próprio. O que garante esse amor é o dia a dia. É a construção que precisamos fazer.

Essa construção, à vezes, não começa no amor, mas, sim, no término de um relacionamento, na dispensa de um trabalho. Se conhecermos esse amor um pouco antes, começamos a nos preservar, principalmente, de relacionamentos abusivos.

Quem se conhece, se protege, e não aceita menos do que merece. Pode até entrar em um relacionamento abusivo, só que não fica, porque sabe seu valor, e sabe colocar limite. O abusador não trabalha com essa força, mas, sim, com quem ele pode manipular, que seja uma isca fácil. O amor-próprio serve como uma peneira inicial, para que a pessoa, em qualquer área da vida, não seja abusada.

Você viveu um relacionamento assim. Acreditava que tinha amor-próprio?

Eu tinha plena certeza que tinha amor-próprio. Eu nasci em um lar onde minha mãe, Neide, é uma mulher negra e meu pai é branco, de origem italiana.

Desde pequena, fui ensinada sobre uma força de proteção. Por ter mãe negra, passei por situações de discriminação. Eu tive de aprender a ser forte e me impor.

Eu tive uma força para realizar meus projetos e tenho uma base familiar muito boa, mas isso tudo não me impediu de cair em um relacionamento abusivo. Era outra área da minha vida que precisava ser trabalhada.

É muito importante frisar que, quando falamos de um relacionamento abusivo, já começamos a ser julgadas, com perguntas, do tipo: 'Como você aceitou um negócio desse?'. Primeiro, para quem está dentro da situação, é diferente de quem está de fora. Ninguém chega dando um tapa na sua cara, um soco ou apontando uma arma para sua cabeça.

É como se fosse uma construção, porque o abusador costuma ganhar muito sua confiança antes de estar dentro desse relacionamento.

Como foi no seu caso?

Vivi um relacionamento de um ano como se conhecesse a pessoa há 10 anos. Ele me ligava 30 vezes por dia, querendo saber onde eu estava; ele vivia a minha vida, respirava meu ar. Dizia que nunca eu conheceria alguém como ele, que me amava como ele.

A nossa vida era nós dois, ninguém mais poderia entrar nesse relacionamento. Minha família não era boa, meus amigos também não. Isso mostra grandes sinais de um relacionamento abusivo.

Graças a Deus, consegui sair desse relacionamento e não virei mais um número nas estatísticas de feminicídios, que têm números altíssimos. Digo que se a mulher tiver seu amor-próprio em dia, ela vai aprender a falar não.

Quais os sinais de que um relacionamento é tóxico?

É importante que a mulher, inicialmente, se perceba. Se ela está em um relacionamento, em que anda mais triste do que feliz; mais chora do que tem momentos de alegria, ela está em um relacionamento abusivo.

Se há controle de roupa, da forma como se veste ou se arruma, se a pessoa a humilha, a desvaloriza, se a afasta dos amigos e familiares, esses também são sinais.

É muito importante que a mulher perceba esses sinais. Quando ela trabalha seu amor-próprio, vai ganhando força. Somente confiando que não é aquela pessoa que o abusador diz que ela é – porque ele tende a humilhá-la –, ela vai conseguir fazer a quebra desse ciclo de violência, como eu tive a oportunidade de fazer.

Quando tive a arma apontada para minha cabeça, em São Paulo, voltei para minha casa, arrumei minhas coisas e peguei o primeiro ônibus para o Rio de Janeiro. Após essa relação abusiva, eu virei conselheira do amor.

No início, foi difícil, porque eu tinha construído meu chão no chão de outra pessoa. Por isso, é importante ter o apoio da família e de amigos.

Mas há casos em que a mulher tem medo e, por isso, fica com esse abusador. Como o amor-próprio pode ajudar?

Essa construção do amor-próprio, do autoconhecimento, faz com que a mulher quebre esse medo que sente, já que ela vai ganhando essa força. A mulher vai tomando coragem para se abrir e ir atrás dos seus direitos, como a Lei Maria da Penha, tão importante para todas nós. Temos recursos para que possamos fazer a quebra desse ciclo com segurança.

É muito importante que a mulher planeje uma rota de fuga desse relacionamento abusivo, pense com segurança e conte com os amigos e a família.

O que vê, em seus aconselhamentos, como característica comum nesses relacionamentos?

Identifiquei, em todos os pedidos de ajuda, que, muitas vezes, entramos em relacionamentos abusivos ou fracassados porque nossa entrega é desproporcional. Não sabemos lidar com limites, e isso torna os relacionamentos fracassados.

Maior do que a palavra amor, é a palavra querer. Para fazer um relacionamento dar certo e chegar ao amor-próprio, a pessoa tem de querer. Muitas mulheres precisam se amar, se valorizar, mas poucas tomam a coragem e atitude em querer fazer dar certo e seguir o caminho do autoconhecimento.

Vi em muitos relacionamentos a falta desse amor-próprio e de valorização pessoal. O amor-próprio é construção diária.

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