Medo dos pais dificulta na hora de impor limites aos filhos
Para não ter de ouvir choro ou birras, há pais que preferem ceder aos pedidos dos filhos a estabelecer limites
Para não ter de ouvir choro ou birras, há pais que preferem ceder aos pedidos dos filhos a estabelecer limites. Há ainda aqueles que, por culpa e medo de serem julgados, não impõem regras aos filhos.
“Vivemos em um contexto de forte pressão social, em que qualquer decisão parental pode ser rapidamente julgada pela escola, pelos familiares ou pela internet, aumentando a culpa e a insegurança na hora de educar”, analisa o neuropsicólogo Rhamon Carvalho.
O especialista observa ainda que, com famílias cada vez menores — muitas vezes com apenas um filho —, a criança passa a ocupar um lugar simbólico de “tesouro da família”, o que intensifica o receio de frustrá-la.
“Soma-se a isso a tendência de reparação emocional: adultos que cresceram em ambientes rígidos, punitivos ou emocionalmente carentes costumam afirmar que querem dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Sem perceber, acabam migrando de um extremo ao outro, saindo de modelos autoritários para práticas permissivas”, ressalta Rhamon.
Há ainda uma tendência observada pelos educadores e especialistas em saúde mental relacionada ao fato de os pais estarem deixando “nas mãos” da escola a responsabilidade de dar limites às crianças.
“Esse fenômeno é, muitas vezes, chamado de 'terceirização da educação'. A escola pode complementar o trabalho dos pais, mas ela não pode construir a base emocional que só a família proporciona. Quando a criança chega à escola sem nenhuma noção de limite vinda de casa, seu desenvolvimento social e acadêmico é severamente prejudicado”, destaca a psicopedagoga e neuropsicopedagoga Thaís Cruz.
A especialista ressalta ainda que o limite saudável (ou “autoridade”) foca no desenvolvimento e aprendizado da criança. Já o autoritarismo foca no poder e controle do adulto. “O limite saudável diz: 'eu me importo demais com você para deixar você fazer isso'”.
Uso da imaginação para explicar negativas à filha
Helena tem 5 anos e está em uma fase em que a mãe, a engenheira civil Hosana Braga, de 37, precisa usar a imaginação para explicar os “nãos” que muitas vezes a filha precisa receber.
E há alguns assuntos que a filha mais insiste com a mãe: para usar o celular, comer doce e sair para passear.
“Celular, somente domingo. Uma hora para momentos que não estiver com amigos e familiares. Isso ela já nem discute mais”, afirma Hosana.
Quanto ao doce, a mãe usa uma estratégia lúdica. “Como ela está na fase de troca de dentinhos, (...), conto que a fada do dente não gosta de dentes com bichinhos”.
“Acredito que ela precisa aprender que a vida não diz só 'sim'. Haverá muitos 'nãos', destaca Hosana. Adultos que cresceram em ambientes rígidos, punitivos ou emocionalmente carentes costumam afirmar que querem dar aos filhos tudo aquilo que não tiveram. Sem perceber, acabam migrando de um extremo ao outro, saindo de modelos autoritários para práticas permissivas”, explica Rhamon Carvalho, neuropsicólogo.
Falta de regras leva a risco de problemas emocionais
Muito além de um adolescente ou adulto mimado, a falta de regras na infância pode elevar o risco de problemas emocionais.
“Um estilo de parentalidade muito permissivo, sem regras e limites claros, está associado a níveis maiores de ansiedade e um maior risco do que chamamos de 'Eventos Adversos na Infância', como abusos, negligência e bullying”, destaca a psiquiatra da infância e adolescência Ana Carolina Cavalieri Milanez.
Segundo a médica, os resultados desses eventos podem gerar dificuldades de aprendizado, problemas graves de comportamento e conduta, dificuldades nos relacionamentos interpessoais e menor desempenho socioeconômico.
Na avaliação da psicóloga Luiza Colonna, a frustração é uma emoção pouco falada e muito confundida com a raiva, e que acarreta problemas emocionais — como baixa autoestima, ansiedade, baixo senso de merecimento e autodepreciação — e, principalmente, comportamentais, como agressividade na vida adulta.
“As crianças que recebem gratificação rápida ou até trocas em prol de determinados comportamentos não vão aprender sobre limites, uma vez que a frustração e o 'não' precisam se fazer presentes na rotina, ensinando que na vida não se pode ter tudo, e nem de forma imediata, implicando diretamente nas habilidades de saber esperar, aprender a dividir, entre outras”, frisa.
Família não precisa justificar decisões
“Por que não?”. Quem é mãe ou pai com certeza já deve ter escutado o filho questionar uma negativa. E explicar os motivos para não fazer algo que o filho quer nem sempre é fácil.
Mas, segundo especialistas, nem sempre é necessário justificar decisões. De acordo com a psicóloga Luiza Colonna, tudo vai depender da idade da criança e da situação.
“Os pais devem ser empáticos e ajudar os filhos a enxergar a situação, explicando que também ficariam frustrados, mas que, naquele momento, aquilo não será possível. É claro que eles podem sentir as emoções de forma genuína, entendendo que, mesmo assim, o 'não' permanecerá”.
Luiza alerta que o principal erro dos pais e responsáveis é dizer o “não” e depois voltar atrás ao verem a criança chorando ou tentando negociar. “Nem tudo é negociável, e a criança precisa da postura firme dos pais para guiá-las diante da situação”, ressalta.
O neuropsicólogo Rhamon Carvalho explica que a educação positiva se baseia na combinação entre firmeza e gentileza, mas, quando difundida de forma superficial, acaba sendo distorcida.
“A firmeza muitas vezes é confundida com autoritarismo, o que leva alguns pais a evitarem qualquer frustração, por acreditarem que isso representaria uma forma de violência emocional. Por outro lado, a gentileza é frequentemente interpretada como permissividade, transformando o acolhimento em liberdade irrestrita para a criança. Mas a educação positiva é acolher a emoção da criança e, ao mesmo tempo, manter o limite”.
Firmeza e paciência para não ceder às birras
Mesmo com filhos pequenos — Edmundo, de 3 anos, e Misael, de 1 ano e 3 meses —, a dona de casa Silvana Maria Briel, 32, e o gerente Lucas Martins da Vitória, 30, contam que já há momentos em que precisam ser firmes com os filhos e reforçar o “não”. E há vezes, segundo Silvana, em que é preciso muita paciência para não ceder às birras.
“O 'não' na criação serve para estabelecer limites, para que a criança aprenda a lidar com a frustração e também obedeça aos pais. E para eles entenderem que nem tudo é no tempo e vontade deles”, afirma Silvana.
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