Mais de 1.500 falhas em obras podem colocar vidas em risco no Espírito Santo
Levantamento aponta que intervenções feitas sem supervisão profissional e sem registro multiplicam os riscos de desastres
A morte de quatro pessoas em uma obra irregular em Cariacica colocou em evidência um problema que vai muito além de um caso isolado.
Apenas neste ano, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) identificou 2.036 infrações em construções vistoriadas no Estado e, desse total, 494 foram corrigidas, enquanto 1.542 ainda aguardavam regularização até abril.
Em 2025, foram 9.191 canteiros inspecionados, 7.355 autos de infração lavrados e 2.972 irregularidades corrigidas após fiscalizaçação do órgão.
Entre no nosso canal e receba notícias em seu WhatsApp
Segundo o gerente de Relacionamento Institucional do Crea-ES, Giuliano Battisti, uma mesma obra pode apresentar mais de uma irregularidade, o que acarreta mais de um auto de infração.
A infração mais frequente, conforme ele destaca, é a ausência de responsável técnico e de projetos obrigatórios.
“Grande parte das irregularidades ocorre porque as obras estão sendo executadas por pessoas leigas, sem acompanhamento de um profissional habilitado. Também encontramos muitas obras que até possuem um responsável técnico, mas estão sem os projetos exigidos ou sem o devido registro no Crea”, explica.
Entre as situações que mais preocupam estão as falhas estruturais, capazes de provocar desabamentos e acidentes fatais.
Giuliano cita como exemplos uma fundação dimensionada de forma incorreta, um pilar construído abaixo das especificações, vigas e lajes executadas sem cálculo estrutural adequado ou um muro de contenção feito fora das normas.
“Claro que um projeto elétrico sem um aterramento devido pode causar acidentes, mas, em números, o projeto estrutural é o grande causador de tragédias, quando realizado por leigos”.
Embargo
O gerente esclarece que o conselho tem canal de denúncia e a equipe pode autuar e notificar irregularidades, mas o embargo da obra é competência das prefeituras. “Mesmo assim, o órgão comunica imediatamente os municípios quando identifica situações de risco, sugerindo que eles façam uma visita”, completa.
Projeto chegou a ser feito, diz Crea
Um projeto técnico chegou a ser elaborado por um engenheiro para a obra que resultou na morte de quatro pessoas, em Nova Rosa da Penha II, Cariacica.
Segundo o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), o empresário Vanderson Santanna, dono da distribuidora, optou por não executá-lo.
Meses depois, a construção foi retomada, mesmo após embargo da Defesa Civil de Cariacica em julho de 2025, órgão que havia considerado a área como de risco.
Além de Vanderson, os trabalhadores Ronival Moreira de Jesus, de 44 anos, o filho dele, Rhuan Moreira Luz, e Valdomiro Moreira, tio de Ronival, morreram soterrados após o desabamento do terreno, na última sexta-feira.
“No ano passado, ele contratou um projeto com um engenheiro. Mas o proprietário entendeu que perderia área útil do terreno, já que teria de fazer uma escada e não quis executar. O engenheiro, então, deu baixa no documento. Depois disso, a obra foi retomada por conta própria, sem acompanhamento técnico”, afirmou Giuliano Battisti, gerente de Relacionamento Institucional do Crea-ES.
De acordo com Battisti, a principal falha foi a execução de uma escavação praticamente vertical, incompatível com as normas de engenharia para esse tipo de procedimento.
“Foi feito um corte de aproximadamente 90 graus no terreno. O solo não suporta esse tipo de intervenção. É como cortar um castelo de areia reto no meio: ele desmorona. O correto é trabalhar com inclinações e degraus que garantam estabilidade”.
Segundo o subsecretário de Proteção e Defesa Civil, Jonathan Jantorno, o imóvel vizinho, atingido pelo deslizamento, permanece interditado por risco de novos colapsos. A liberação só ocorrerá após a execução das obras de contenção e uma nova vistoria do órgão municipal.
Para evitar novas tragédias, Jonathan orienta que qualquer modificação estrutural seja executada com profissionais habilitados.
“Toda obra precisa ser licenciada e acompanhada por um responsável técnico, qualificado na área. Isso protege o investimento do proprietário e, principalmente, evita a perda de vidas humanas, como infelizmente aconteceu na última sexta-feira (31)”.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários