“Informação falsa é grande desafio”, diz presidente do CRM-ES
Karoline Calfa Pitanga, que assumiu a nova gestão do Conselho Regional de Medicina, destacou os desafios atuais da profissão
Siga o Tribuna Online no Google
Após quase 30 anos, o Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) volta a ter uma mulher na presidência. Karoline Calfa Pitanga – que assumiu a nova gestão do Conselho – apontou metas para fortalecimento da profissão e o desejo de trazer um “frescor” para a entidade.
Ela também destacou desafios atuais trazidos pela tecnologia – que transformou a forma de atendimento, com telemedicina e inteligência artificial – e pelo avanço das redes sociais. “Combater a circulação de informações falsas sobre saúde tem exigido mais atenção de médicos e pacientes”.
Perfil
Karoline Calfa Pitanga
Médica formada na Ufes, tem residência em Clínica Médica pelo Hucam e em Nutrologia pelo Hosp. das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
É especialista em Nutrologia pela Associação Brasileira de Nutrologia e em Terapia Enteral e Parenteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Enteral e Parenteral. É nutróloga no Hucam.
Foi corregedora do CRM-ES entre 2023 e 2026. Representa o Conselho no Comitê de Saúde do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES).
Entrevista
A Tribuna Assumindo agora a presidência do CRM-ES, queria que falasse um pouco sobre o que considera sua missão.
Karoline Calfa Pitanga O Conselho é uma autarquia que presta serviço tanto para o médico, quanto para a sociedade. Nesse sentido eu tenho três grandes desafios. O primeiro é o eixo central da atuação do Conselho, que é dar continuidade aos processos de transparência, de eficiência e de segurança institucional.
Outra questão importante é o relacionamento entre as instituições. É preciso fortalecer o Conselho nesse papel mediador, junto com o poder público, junto com o Judiciário, para garantir a ética da Medicina e a segurança dos pacientes.
O terceiro ponto – com o qual eu particularmente me preocupo muito – é a segurança do médico que está na atenção básica. Hoje o médico é vítima de muita violência. Fizemos uma pesquisa no ano passado que mostrou essa realidade.
Temos hoje uma grande discussão sobre a qualidade da formação médica e a quantidade de cursos sendo abertos. Como vê essa questão?
Temos seguido o entendimento do Conselho Federal de Medicina, já que essa é uma discussão em nível nacional.
Temos marcado inclusive aqui no Estado para os próximos dias uma reunião com os diretores das faculdades de Medicina com um representante do Conselho Federal para debater alguns temas.
No Espírito Santo, especificamente, temos nossas faculdades com boas notas em avaliações nacionais, mas a gente não pode deixar a qualidade de ensino cair.
Ainda sobre qualidade do atendimento, temos hoje uma outra discussão sobre a atuação de profissionais não médicos em procedimentos e até pequenas cirurgias principalmente estéticas. Essa é uma preocupação?
Certamente. Qual que é a briga que se tem nessa questão? Toda vez que eu penso que um procedimento é invasivo é preciso conhecimento de anatomia, de efeitos colaterais e, principalmente, como tratar a complicação que pode ocorrer.
O que estamos vendo são profissionais que não têm essa formação para tratar, por exemplo, eventuais problemas realizando esses procedimentos. Não se trata aqui de questão de reserva de mercado, como as outras pessoas tentam alegar. É questão de segurança do paciente. Porque não existe um procedimento isento de risco. Então essa “invasão” de outros profissionais dentro do ato médico é uma briga do Conselho Federal de Medicina.
A senhora, que é da área da nutrologia, acredita que tem havido uma busca exagerada pela boa forma, pela beleza, fazendo com que os pacientes corram riscos em tratamentos não autorizados ou com profissionais não habilitados?
Eu acho que a discussão é maior. Com o advento das mídias sociais, qualquer pessoa pode produzir conteúdo. Qualquer pessoa pode gravar um vídeo na rede social trazendo conteúdo e, dependendo da linguagem que é falada, ele passa uma imagem de autoridade. Mas número de seguidores não garante autoridade.
Fica muito difícil quando a população enxerga como autoridade uma pessoa que tem milhões de seguidores. Hoje temos, inclusive, criações de associações, de sociedades, em que as pessoas leigas não sabem diferenciar o que elas representam de fato.
Mas o médico também está nas redes sociais hoje…
Sim. Mas o bom médico, por muito tempo, ficou resistente às redes sociais. Porque ele achava que só ficava produzindo conteúdo quem não tinha residência, quem não tinha qualificação. Não era visto com bons olhos.
A pandemia mudou muito essa percepção e teve início um movimento de ciência de verdade na rede social, feito por profissionais sérios. Só que esses profissionais estão trabalhando. Não têm tanto tempo para produzir conteúdo.
E a preocupação é crescente com a qualidade da informação que está circulando?
Com certeza. A gente teve muito isso na época da pandemia da covid, com tratamentos alternativos. A gente tem isso até hoje com prescrição de vitaminas para melhorar a imunidade. A gente tem isso com hormônio na forma subcutânea. Quase todas as áreas já estão sendo invadidas por informações falsas de Medicina.
Antigamente, a gente achava que o problema do médico era só o Google. Eram as pessoas pesquisando por conta própria e achando que estavam morrendo. Hoje, isso vai muito além. Porque temos profissionais demonstrando ter credibilidade falando sobre determinados assuntos com informações falsas.
As fake news invadiram também a Medicina?
Eu acho que esse é um grande desafio que estamos enfrentando. Existe uma forma de se passar a informação sobre Medicina e o Conselho está atento a isso.
Por isso é tão importante fortalecer as entidades representativas. Existe todo um movimento de desqualificar a Organização Mundial de Saúde e o Conselho Federal de Medicina. E quando você não tem essa referência, você não sabe quem confiar.
Ainda relacionado às tecnologias, tivemos uma mudança grande no atendimento médico na pandemia, com teleconsultas, teleconsultoria… Isso é algo que veio para ficar?
Com certeza. Isso é uma revolução. A tecnologia não é uma moda, mas uma mudança disruptiva na forma de atendimento e de forma geral.
O uso da inteligência artificial, por exemplo, é uma realidade. Vi paciente um dia reclamando que o médico usou a IA para pegar uma informação. Não acho que a questão é usar ou não IA, mas saber filtrar informações de qualidade. O médico também pode e deve fazer isso.
Na minha época de faculdade – e me formei no século passado, em 1998 – a gente usava um negócio chamado Black Book, que era uma cadernetinha, para salvar informações. Hoje em dia, é possível fazer cálculos de ajuste de doses para o paciente. Por que o médico não poderia receber uma ajuda da tecnologia? A gente recebe ajuda para tudo. Isso só favorece o paciente.
E o que a tecnologia não consegue substituir no trabalho do médico?
A humanidade médica, o acolhimento ao paciente – seja em um atendimento presencial ou não –, os preceitos da boa Medicina continuam valendo independentemente do modelo assistencial. A tecnologia não vai substituir o olhar do médico nunca.
Agora, sobre a sua atuação no Conselho, o que acredita que pode ser um diferencial?
Acredito que a nova diretoria traga um “frescor”, vamos dizer, ao CRM-ES. É uma diretoria que ainda está trabalhando. Eu, por exemplo, já estive no atendimento da urgência, já saí escoltada de hospital por conta de violência. Entendo o que o médico “da ponta” está passando.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários