'Valeu a pena não desistir', diz afiador sobre recomeço no ES após viver nas ruas
Leandro Pereira, de 44 anos, tem uma história de superação após deixar o vício e reconstruir a vida com a família
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A mão firme que hoje afia até 200 alicates por dia já segurou fios arrancados da própria casa para serem trocados por pedra de crack. O homem que atualmente tem mais de 1.500 clientes no Espírito Santo já viveu dias sem querer voltar para casa, entregue ao vício.
Entre quedas e recomeços, a história de Leandro Luiz Souza Pereira, de 44 anos, é marcada pela dor, mas também pela reconstrução.
Natural de Campinas, no interior de São Paulo, Leandro foi pai aos 16 anos, quando já teve que sustentar a esposa e a primeira filha. Sem oportunidades e pressionado pela vontade de oferecer uma vida melhor para a família, acabou entrando para o tráfico de drogas.
“Eu queria dar conforto para minha filha, para ela não sofrer o que eu sofri. Mas fui procurando um caminho errado para resolver isso”, contou.
O contato com as drogas veio logo depois. Primeiro a maconha, depois a cocaína e, por fim, o crack, substância que devastou sua vida. “Eu tirava fio de eletricidade de dentro da minha casa para vender e comprar droga. Teve fase em que eu já não dormia mais em casa. Ficava noites e noites na rua”, relembrou.
No auge do vício, Leandro conheceu um pastor capixaba que realizava um trabalho missionário em São Paulo. O religioso o convidou para se internar em uma casa de recuperação em Vila Velha. O ano era 2006. Leandro ficou durante seis meses, mas a solidão e a saudade da família acabaram o abalando e ele decidiu abandonar o tratamento.
Entre idas e vindas, viveu nas ruas, passou fome, acabou recaindo no vício e presenciou cenas de violência extrema. “Vi gente morrer do meu lado. Vi agressões, violência e pessoas sendo destruídas pela droga”, relembrou.
Após retornar para a casa de recuperação e concluir o tratamento, Leandro conseguiu reconstruir a própria vida. A esposa e os filhos vieram para o Espírito Santo. A família passou a trabalhar em igrejas e projetos missionários até descobrir a profissão de afiador.
Hoje ele conta com cerca de 1.800 clientes, atende cidades de todo o Estado, ministra treinamentos pelo Brasil e já formou dezenas de alunos. “O que tentou me matar não conseguiu. Hoje minhas cicatrizes mostram que é possível vencer”, afirmou.
“Valeu a pena não desistir”, diz Leandro Luiz Souza Pereira
A Tribuna - Quando percebeu que precisava de ajuda?
Leandro Luiz - Eu comecei a ver que eu não tinha mais saída quando comecei a não querer mais ir para casa. Aí eu vi que já não tinha mais jeito. Qualquer problema que eu tinha, dentro ou fora de casa, eu corria para a droga.
Eu ficava dias fora, virava noites na rua, já não trabalhava mais, não dava atenção para os meus filhos e não conseguia mais controlar nada.
A maconha já não fazia mais efeito, a cocaína também não. Foi aí que eu conheci o crack, que foi a droga devastadora da minha vida.
Como foi a primeira internação?
Eu fiquei seis meses internado. Para mim, eu já estava liberto, já estava livre do vício. Só que foi muito difícil porque minha esposa estava em São Paulo e eu estava aqui no Espírito Santo. Eu não podia ligar para ela, não podia receber carta, porque a casa de recuperação tinha regras muito rígidas.
O que mais me machucava era os domingos, dia de visita. Tinha 40, às vezes 70 homens lá dentro, e praticamente todos recebiam visita da família. Eu não recebia ninguém. Isso foi me abalando, até o ponto em que resolvi sair da casa de recuperação.
E o período nas ruas?
Foi um período muito triste. Eu não conseguia nem voltar para Campinas e nem voltar para a casa de recuperação. Antes de voltar para a droga, eu ainda tentei trabalhar, tentei fazer alguma coisa, mas não consegui. Aí eu recaí de novo.
Fiquei cerca de quatro meses morando na rua aqui no Espírito Santo. Dormia onde dava, passava fome, ficava sem tomar banho, sem perspectiva nenhuma. A rua vai destruindo a pessoa aos poucos. Você perde a dignidade, a esperança, perde a vontade de viver.
E o pior é que, quando a pessoa está naquela situação, ela começa a acreditar que não consegue mais sair dali.
O que te marcou nas ruas?
Eu vi muita coisa pesada. Vi gente morrer do meu lado. Vi ataque de bandido. Vi pessoas sendo espancadas de forma brutal. Aquilo me marcou muito, porque eu comecei a entender o quanto a rua é cruel. A rua faz a pessoa perder o valor dela. Ao mesmo tempo, eu percebi que todo mundo ali tinha uma história. Ninguém acorda um dia querendo morar na rua. Existe sempre uma dor, uma perda, alguma coisa por trás.
Como sua família te viu passar por tudo isso?
Foi muito sofrimento. O dependente químico, apesar de estar anestesiado, sofre muito, mas a família sofre junto. Existe muita desconfiança, desprezo, vergonha e medo.
Minha esposa passou por tudo comigo. Ela nunca me largou. Mesmo eu usando droga, ficando dias fora de casa, perdendo tudo, ela continuou ali. Minha mãe, minha irmã e minha esposa foram as maiores inspirações que eu tive para continuar lutando.
Como foi a sua reconstrução depois da recuperação?
Depois que eu terminei o tratamento, eu e minha esposa começamos a trabalhar na igreja e em projetos missionários. A gente passou pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais ajudando em igrejas e trabalhando na obra de Deus. Só que eu queria ter uma profissão, alguma coisa que me permitisse sustentar minha família sem depender de ninguém.
Foi aí que meu cunhado pagou um curso de afiação para mim.
Hoje, seis anos depois de voltar para o Espírito Santo, eu tenho cerca de 1.800 clientes, consigo afiar até 200 alicates por dia e já formei mais de 80 alunos em vários estados do Brasil. Vejo, hoje, que valeu a pena não desistir.
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