“Inclusão não é adaptar pessoas autistas a um padrão”, diz psicóloga
Na avaliação da doutora em Psicologia Sara Dantas, é preciso parar de tentar “consertar” o comportamento do aluno autista
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A necessidade de repensar práticas para a inclusão de alunos neurodivergentes foi um dos temas centrais da 3ª Jornada de Educação Inclusiva do Sindicato das Empresas Particulares de Ensino do Espírito Santo (Sinepe-ES), realizada ontem.
Na avaliação da doutora em Psicologia e pesquisadora sobre autismo Sara Dantas, que abriu a programação do evento, é preciso parar de tentar “consertar” o comportamento desses alunos.
“Ao analisar o comportamento de crianças autistas, fazemos a comparação com crianças sem transtornos. Assim, algumas características passam a ser vistas como algo a ser corrigido. Mas a inclusão não é tentar adaptar as pessoas a um padrão, e sim questionar se esse padrão é verdadeiro”.
Com isso, crianças com diferentes formas de agir e se comunicar podem acabar sendo tratadas como um problema.
“Esse tipo de visão acaba gerando uma postura de desumanização, com a ideia de que essas pessoas seriam um fardo ou até incapazes de desenvolver determinadas habilidades”, disse.
A pesquisadora defende que a neurodivergência deve ser compreendida como uma diferença natural da cognição humana, sem que isso signifique ignorar os desafios. “Não se trata de minimizar as dificuldades, mas de reconhecer que as pessoas são diferentes. Assim como existe biodiversidade na natureza, existe uma grande diversidade cognitiva entre nós”.
Para que as ações inclusivas tenham efeito, ela defende que as pessoas neurodivergentes estejam no centro do debate.
“A melhor forma de construir medidas realmente inclusivas é perguntar a essas pessoas quais são suas demandas e como gostariam de ser atendidas”, diz Sara.
Segundo a pesquisadora, nem sempre são necessárias ações complexas. “Pequenas adaptações, como permitir pausas, uso de música ou saídas rápidas da sala, já têm um impacto significativo”.
Essas medidas, na opinião de Sara, contribuem para que os alunos desenvolvam autonomia e de fato se sintam pertencentes ao ambiente escolar.
“Autonomia não é independência total. É ter acesso a oportunidades, entender suas próprias necessidades e poder fazer escolhas dentro da realidade”, conclui.
“Eles são tratados como pessoas difíceis”Preconceito
“Mais de 90% dos termos usados para descrever o autismo são negativos. Isso influencia diretamente a forma como a sociedade enxerga essas pessoas.
Eles são tratados como pessoas difíceis ou com dificuldade de desenvolver habilidades para a vida em sociedade, sendo deixados de lado”.
Saúde mental
“A população autista apresenta taxas muito altas de depressão, baixa qualidade de vida e um risco de suicídio até três vezes maior do que as pessoas neurotípicas.
Isso não é só individual, mas é também um resultado de fatores sociais e do ambiente no qual elas estão sendo criadas”.
Hiperfoco
“O hiperfoco, que são os interesses intensos em alguns temas, costumam ser vistos como algo negativo. Mas, na verdade, esses interesses podem ser uma forma de aprendizado sobre o tema, de conexão social com colegas e até de construção de carreira. Muitas amizades surgem a partir de interesses em comum”.
Empatia
“Muito se fala sobre a dificuldade de pessoas autistas sentirem empatia por outras pessoas. Mas, analisando com mais cuidado, vemos que isso acontece dos dois lados.
Pessoas não autistas geralmente também têm um grande dificuldade de entender as necessidades das pessoas autistas”.
Desafios na escola
“Entre as principais dificuldades dos alunos autistas estão o bullying, ambientes sensorialmente sobrecarregados e a falta de previsibilidade, que gera estresse. É nesse momento que faz diferença ter professores que se dedicam a conhecer o aluno como indivíduo, e não apenas pelo diagnóstico”.
Preparação para lidar com a nova realidade nas escolas
A discussão sobre a inclusão tem ganhado espaço em diferentes áreas da sociedade, com destaque para a educação.
De acordo com o presidente do Sinepe-ES, Moacir Lellis, é preciso buscar preparo e informação para lidar com esse novo cenário.
“Há alguns anos, nos cursos superiores, não aprendíamos a lidar com as diferentes necessidades dos alunos. Hoje, esse é um tema muito presente no dia a dia das escolas. Por isso, precisamos nos preparar para a nova realidade, o que é uma prioridade do Sinepe nos próximos anos”.
A pedagoga do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) Camila Moreira destaca que esse preparo precisa passar por mudanças nas práticas pedagógicas e na forma como o ensino é estruturado.
“Não se trata apenas de eliminar barreiras físicas, mas também as atitudinais, comportamentais e aquelas que impedem o acesso ao currículo escolar. A sala de aula não é homogênea, e os alunos têm tempos e formas diferentes de aprendizagem”.
Ela também ressalta a necessidade de rever as formas tradicionais de ensino e avaliação.
“A prova escrita não pode ser o único método de avaliação. É preciso apresentar o conteúdo de diferentes formas e permitir que os alunos demonstrem o que aprenderam de maneiras diversas”.
Para a vice-presidente do Sinepe-ES, Roberta Bonelli, o evento surge para aprofundar o debate.
“Realizar a jornada de inclusão é um posicionamento. Diante de tanta diversidade nas instituições, precisamos nos unir para, com ajuda dos especialistas, acharmos as melhores soluções”.
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