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Historiadores buscam a primeira igreja construída no interior do Estado

| 08/06/2020 19:00 h

Um grupo formado por pessoas apaixonadas pela História realiza uma pesquisa para descobrir onde está localizada a primeira igreja jesuítica construída fora do litoral, há quase 400 anos, em Castelo, Sul do Estado.

Durante os trabalhos em campo, eles localizaram ruínas que podem ser de uma das igrejas construídas na época. A localização ocorreu durante produção do documentário Montes do Castello.

Os pesquisadores ouviram padres, especialistas, visitaram igrejas jesuíticas, pesquisaram livros, documentos históricos e até realizaram voos com drone. Mas foi por meio dos relatos dos moradores antigos que encontraram as pedras que podem ser de uma das antigas igrejas.

A mais antiga delas foi a edificação feita pelos padres jesuítas em homenagem a Nossa Senhora do Amparo, em 1625, na aldeia de Montes do Castello.

s historiadores André e Maria Helena com o padre José Carlos e Raphael no local das ruínas, em Castelo.
s historiadores André e Maria Helena com o padre José Carlos e Raphael no local das ruínas, em Castelo. |  Foto: Alessandro de Paula/AT

Documentos relatam que, poucos anos após a saída dos jesuítas do País, ocorreu uma revolta indígena na região, em 1764. Os nativos expulsaram o homem branco e destruíram as construções.

A comunidade católica precisou fugir, levando consigo a imagem da santa, a pia batismal e o sino da capela, com os quais fundaram a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Itapemirim, no Litoral Sul.

As ruínas estão situadas em uma área de pasto, nas proximidades da Fazenda do Centro.

Agora, os pesquisadores tentam aprofundar os estudos e recuperar a história das missões jesuíticas dos Montes do Castello, que tinham uma população de três mil índios em cinco aldeias.

“Toda a região precisa ser estudada. Temos a Gruta do Limoeiro, com sua pré-história. Mais adiante, a fase dos jesuítas e, a seguir, o período do café e dos escravos com a Fazenda do Centro”, destacou o historiador André Dell Orto Casagrande, um dos pesquisadores que encontraram as ruínas.

O trabalho de pesquisa contou ainda com a professora de História Maria Helena Mion Barbiero e o gerente de Marketing Raphael Silva de Lima.

O secretário de Turismo e Cultura de Castelo, Fabiano Davel, diz que o município tem interesse em dar sequência às pesquisas, mas ressaltou que, em função da pandemia do coronavírus, vai ser preciso aguardar mais um pouco.

“A pesquisa exige uma equipe especializada, com arqueólogos. Assim que tivermos condições, vamos buscar parcerias”, disse.
 

Ruínas viram palco de caminhada

Logo após a descoberta da antiga Igreja de Nossa Senhora do Amparo, católicos criaram uma nova caminhada religiosa no Espírito Santo. O percurso de 100 quilômetros vai das ruínas, em Castelo, até o litoral de Itapemirim, o mesmo trecho que as famílias portuguesas fizeram na fuga, com os objetos sagrados, no século XVIII.

O novo percurso da fé, que ganhou o nome de Caminho do Amparo, foi idealizado pelo padre José Carlos Ferreira, da Paróquia Nossa Senhora do Amparo, em Itapemirim.

A primeira caminhada ocorreu em 2019, nas comemorações dos 250 anos da paróquia. Padre José Carlos lembra que foram quatro dias de caminhada, reunindo 200 pessoas.

Padre José Carlos leva imagem da santa no percurso do Caminho do  Amparo.
Padre José Carlos leva imagem da santa no percurso do Caminho do Amparo. |  Foto: Acervo Pessoal

Os peregrinos saíram da Fazenda do Centro, em Castelo, próximo das ruínas, e fizeram todo o percurso seguindo a margem do rio até o destino, assim como faziam os religiosos no passado.

O padre participou da caminhada e ainda realizou o percurso antes para definir o trajeto e os pontos de parada.

A expectativa é de que a caminhada se torne um roteiro turístico de fé e meditação, como os Passos de Anchieta, no Estado, ou o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.

Um dos momentos mais marcantes das comemorações dos 250 anos foi o retorno da santa a Castelo, de onde ela saiu durante a revolta indígena. Após a imagem ser levada pelo padre até as ruínas, foi celebrada uma missa no local.

Descoberta pode mudar a História

A descoberta das ruínas no Sul do Estado pode mudar a História do Espírito Santo e até de trechos do passado do País.

“Nós estamos falando em retroceder a origem de Castelo em quase 100 anos”, defendeu a professora de História Maria Helena Mion Barbiero.

Área onde teria existido uma igreja em Castelo.
Área onde teria existido uma igreja em Castelo. |  Foto: Raphael Silva

Na avaliação do gerente de Marketing Raphael Silva de Lima, a possibilidade de comprovar a ligação dos jesuítas com o ouro pode até alterar a história da mineração, que, assim, não teria começado por Minas Gerais, mas pelo Espírito Santo.

Com relação ao passado de Castelo, Maria Helena explica que os relatos atuais apontam que a formação da cidade do Sul do Estado teve início com a chegada dos bandeirantes, com Pedro Bueno Cacunda, que vieram à região em 1705 à procura de ouro.

Porém, os jesuítas e, com eles, algumas famílias portuguesas já estariam em Castelo desde o ano de 1625, de acordo ainda com Maria Helena.

“É provável que antes da chegada desse bandeirante já tenha ocorrido a exploração de ouro em nossas terras”, observou a professora.

Pesquisadores tratam o local como um sítio arqueológico

Na avaliação de estudiosos, o local onde estão situadas as ruínas da igreja, no Sul do Estado, é um sítio arqueológico e precisa ser preservado e estudado.

Para o arqueólogo Celso Perota, a história dos jesuítas no interior do Espírito Santo ainda é pouco estudada. “É mportante resgatar a jornada jesuítica nessas regiões para avaliar o motivo do insucesso na catequese em populações indígenas que não falavam o tupi-guarani”.

Segundo ele, é importante avaliar as possíveis intenções jesuíticas na mineração de ouro. Perota acredita que as ruínas são da capela do Ribeirão, uma das aldeias da região.

Ele defende um projeto de pesquisa arqueológica e de etno-história para caracterizar e ver a extensão da ocupação e as áreas de lavra de ouro.

De acordo com Perota, os jesuítas fundaram vários núcleos, que o bispo João Nery denominou como as “Missões de Montes Castello”, compostas de aldeias indígenas, igreja e capelas.

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