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Grupo se une para recuperar linha de trem abandonada

| 19/10/2020 12:35 h | Atualizado em 19/10/2020, 12:49

O historiador Paulo Thiengo levou  João Figueira e os irmãos Cristian e Hebert Rocha para roçar o mato nos trilhos
O historiador Paulo Thiengo levou João Figueira e os irmãos Cristian e Hebert Rocha para roçar o mato nos trilhos |  Foto: Alessandro de Paula / AT

Sem a passagem de trens há três anos, a antiga Ferrovia Leopoldina, que liga Vitória ao Rio de Janeiro pela Região Serrana do Espírito Santo, está tomada por mato. Trilhos e dormentes sofrem com a ação do tempo, os roubos e as depredações.

Para tentar salvar a linha de trem, voluntários se unem para limpar o mato e fiscalizar trechos da estrada de ferro, considerada a mais bela do Espírito Santo.

O trabalho de limpeza é árduo. O mato cresce rapidamente e encobre a linha. Sem manutenção, muitos dormentes de madeira estragaram. “Por enquanto, estamos roçando o mato. Posteriormente, pretendemos retirar pequenas barreiras que caíram”, explicou o historiador e pesquisador de ferrovias Paulo Henrique Thiengo.

Na última semana, Paulo reuniu um grupo de amigos e foi até a localidade de Cobiça, em Cachoeiro de Itapemirim, roçar o mato. O trabalho é voluntário e os equipamentos, como foices e roçadeira mecânica, são adquiridos com recursos próprios.

Sem receber manutenção, dormentes de madeira da estrada 
de ferro estragaram
Sem receber manutenção, dormentes de madeira da estrada de ferro estragaram |  Foto: Divulgação
Participaram do trabalho o professor de História Hebert Rocha Jorge, 31, seu irmão, o motorista Cristian Rocha Jorge, 26, e o aposentado João Figueira Filho, 60. “É um patrimônio público, uma parte da história que está se perdendo”, alertou Hebert.

João Figueira tem ligação próxima com a ferrovia. Quando era jovem, ajudava seu pai, que era ferroviário. “Ajudei muitas vezes a virar a locomotiva. É uma pena ver este abandono”, destacou.

Já a ligação de Paulo Thiengo com a ferrovia começou quando ele tinha 12 anos. “Gostava de ir à estação observar os trens. Com o tempo, passei a percorrer a ferrovia, registrando as máquinas e os locais, como túneis e viadutos”.

Na opinião de Paulo, a antiga ferrovia poderia ser integrada à futura Ferrovia Litorânea, que irá ligar Vitória ao Rio de Janeiro pelo litoral. Segundo ele, existe projeto de um ramal ferroviário saindo de Cobiça ao local da futura estrada.

Belezas no caminho dos trilhos

A estrada entre Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado, e Vitória, com seus 159 quilômetros de distância, é considerada o mais belo percurso de trem do Espírito Santo.

A linha férrea atravessa rios, túneis por dentro das montanhas, estações centenárias, pontilhões construídos em paredões de pedra, cadeias de montanhas, pequenas quedas d’água e muito verde.

O trajeto é tão belo que, durante anos, funcionou entre Viana e Matilde, distrito de Alfredo Chaves, o Trem das Montanhas. O passeio durava o dia inteiro e era realizado aos sábados e domingos. O trem parou de funcionar após a desativação da ferrovia.

Com 110 anos de história, a linha férrea é considerada um tesouro da engenharia.

Linha férrea atravessa rios, túneis, estações centenárias, pontilhões construídos em paredões de pedra, cadeias de montanhas e muito verde
Linha férrea atravessa rios, túneis, estações centenárias, pontilhões construídos em paredões de pedra, cadeias de montanhas e muito verde |  Foto: Divulgação

A inauguração do trecho entre Cachoeiro e Matilde, em 1910, contou com a presença do então presidente da República, Nilo Peçanha.

A estrada de ferro foi concedida em leilão, em 1996, para a Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). Atualmente é administrada pela VLI, uma subsidiária da Vale.

A concessão é de 30 anos. O contrato venceria em 2026, mas a VLI fez acordo com a União para antecipar a entrega deste trecho e de outras estradas que pertenciam à FCA em oito estados.

Com a criação da regional da ONG Amigos do Trem, em maio deste ano, a proposta é iniciar campanha de esclarecimento junto à população e aos prefeitos da região sobre a importância econômica da estrada férrea.

A ONG reivindica junto à VLI um veículo motorizado e adaptado para se mover sobre trilhos para percorrer a ferrovia com o objetivo de realizar as manutenções e mobilizar os moradores que vivem ao longo da linha.

Ferrovia dá lucro, diz ONG

Para a ONG Amigos do Trem, a paralisação das atividades na antiga Ferrovia Leopoldina é um desperdício de dinheiro. “É viável financeiramente. Há estudos que comprovam isso, tanto para transporte de passageiros quanto no transporte de cargas”, disse o diretor financeiro da ONG, Gilson de Souza Eleutério.

Segundo Gilson, um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) comprovou que dos 64 trechos ferroviários avaliados, a estrada de ferro entre Vitória e Cachoeiro ficou em 12º lugar em viabilidade no transporte de passageiros.

O estudo aponta a viabilidade de realizar até seis viagens diárias entre Cachoeiro e Vitória, com até quatro vagões de passageiros por viagem. O trem para o transporte deve ser modelo moderno e leve.

Ele explicou que a ONG reivindica a concessão da ferrovia para não deixar que ela se deprecie ainda mais.

A proposta é firmar parceria com empresas privadas para o transporte de cargas também.

Antes de ser desativada, cargas de eucalipto, calcário e blocos de granito eram transportados até Vitória.

MULTAS

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), responsável por regular rodovias e ferrovias, informou que a concessionária VLI, subsidiária da Vale e controladora da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), vem sendo autuada e multada por descumprimentos contratuais no trecho da antiga Ferrovia Leopoldina.

Empresa afirma que faz monitoramento da estrada

A VLI, empresa controladora da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), informou que o trecho da estrada de ferro integra o contrato de concessão e arrendamento firmado em 1996, mas que não há demanda para a operação de transporte ferroviário de cargas no local.

A empresa afirma que faz rondas com vigilância em determinados pontos do trecho, além de ter cronograma de serviços de manutenção da faixa de domínio. Ressaltou, porém, que, em algumas áreas, a quantidade de resíduos despejados irregularmente supera os esforços. Segundo a VLI, são realizadas campanhas para garantir a segurança da estrada de ferro.
 

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