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É preciso reaprender a sonhar em 2021, diz psicanalista

| 03/01/2021 08:27 h | Atualizado em 03/01/2021, 08:43

Christian Dunker: “As grandes coisas na vida, como se casar, se separar, mudar de emprego, todas elas exigem esforço preparatório”
Christian Dunker: “As grandes coisas na vida, como se casar, se separar, mudar de emprego, todas elas exigem esforço preparatório” |  Foto: Divulgação

O início de um novo ano é sempre hora de renovar os sonhos e objetivos. Porém, como 2020 foi um ano difícil, a capacidade de sonhar e planejar ficou abalada para muitas pessoas.

Para o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, é preciso reaprender a sonhar em 2021.

O professor, que também é um dos coordenadores do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, se considera um “otimista sem esperança”. Na opinião dele, os sonhos precisam ser como o horizonte, que se refaz e se desloca conforme as pessoas andam em relação a ele. 

Christian Dunker enfatiza que 2020 foi um ano de muito esforço para a incorporação do novo e, apesar das perdas e rupturas de sonhos, abriu o gosto para as novidades e possibilidades de transformações.  

A Tribuna – Como o ano de 2020 mexeu com o psicológico do brasileiro?

Christian Dunker – As situações excepcionais têm dois efeitos básicos sobre a gente. O primeiro é que nos demandam um esforço maior de transformação daquilo que é absolutamente novo em algo mais ou menos conhecido.

É um pouco do que os modernistas chamavam de antropofagia, que os nossos indígenas praticavam, que é devorar aquilo que é novo e incorporar dentro de si. Foi um ano que demandou muito esse trabalho.

Para alguns, teve uma dimensão traumática. Para outros, teve uma dimensão de luto, de perdas significativas, de pessoas, mas também de projetos financeiros, viagens, planos, de projetos amorosos que foram interrompidos ou, às vezes, apressados.

O excepcional demanda mais trabalho para se integrar ao cotidiano. Mas, também abre para o gosto do novo.

A gente se surpreendeu porque estávamos acostumados com um certo regime de como as coisas mudam, devagar, de quando em quando. Uma mudança estrutural, sistêmica global, como a que a gente passou, deixa o sabor da possibilidade de transformação.

Isso é muito importante, porque a gente começa a se perguntar: se essa transformação foi possível nessas condições, por que outras transformações também não seriam?

Por que a redução de desigualdade, racismo, homofobia, de outras situações que enfrentamos não poderiam mobilizar em nós o esforço transformativo como esse que a gente viu?

É um ano que deixa esse tipo de desafio para a gente. Isso afeta nossos hábitos, nossas crenças, o que é bom!

Para alguns, isso é uma ameaça à identidade, ao cotidiano, à nossa forma de vida. Mas, para outros, isso é uma abertura para que outras mudanças mais fortes venham acontecer.

Em outro momento, usou o termo “sobreviver” em relação a 2020. O que quis dizer?

Quis marcar uma diferença com o critério que a gente usualmente mobiliza para olhar para trás e fazer o balanço daquele ano. A gente avalia qual a qualidade, a intensidade do que vivemos, se valeu ou não, tudo que vivemos. Esse ano é especial, porque ele introduz uma variável que é a de sobreviver, o que já foi uma grande tarefa.

Passar o ano sem grandes perdas, sem grandes abalos emocionais ou financeiros, isso é um grande resultado. Como usamos no futebol: “um zero a zero fora de casa é um grande resultado”. E esse ano, de 2020, foi um zero a zero ótimo, mas com a gente dentro de casa, onde sobreviver já foi muita coisa.

Dá para resumir 2020 em uma palavra?

Acho que a palavra “cuidado”. Por um duplo sentido que ela tem. É, ao mesmo tempo, uma interpelação, chamando a atenção, como: cuidado! Preste atenção, tenha um pouco de medo.

Por outro lado, é o cuidado do 'cuide de si', dos outros, com aqueles que você gosta, cuide da saúde, da saúde mental, cuide dos seus sonhos, daqueles que estão na linha de frente.

O cuidado foi a prática que nos convocou o ano de 2020. Quem não sabia cuidar de si, se viu em maus lençóis. Houve muitos problemas de saúde mental, afloramentos muito discutidos em termos de violência, feminicídio e violência doméstica, tudo isso é o efeito da falta de capacidade de cuidar. Se não sabe cuidar, parte para a ignorância.

Como ficam os sonhos e os planejamentos para 2021? 

Precisamos reaprender a sonhar em 2021, cuidar dos sonhos. Mas como a gente faz isso?

Temos que reduzir um pouco da idealização que vem junto com eles, reduzindo um pouco a obrigatoriedade, a coercibilidade que vem junto com eles.

Nada de “sou obrigado ser feliz, obrigado fazer aquela viagem, obrigado a ter aquela promoção”. Senão, acho que eu fracassei. Isso não faz muito bem para quem quer cuidar dos sonhos. Temos de ter em mente que os sonhos não são metas, não são objetivos. Eles são justamente para a gente interpretar e refazer como horizonte. Vão se deslocando conforme a gente anda em relação a eles.

Estamos nessa situação de exaustão total, porque, no fundo, ninguém acreditava na segunda onda da Covid-19. A gente sabia, mas não acreditava nela. Isso é efeito do fato de que a vida psíquica não é assim tão controlada pelas pessoas.

Não é só força de vontade, capacidade de aderir, seguir os costumes. A gente tem limites, inclusive, limites para fazer aquilo que a gente quer fazer.

Mas, esses limites foram ultrapassados. Então, agora temos que readquirir a capacidade de sonhar. Vai demorar um tempo. Essa chavinha da virada do ano não vai adiantar muito. É uma expectativa para a vacina que virá. Depois disso, aí sim, vai virar o ano para nós.

Acha que faz bem planejar 2021?

Faz, sim! É muito importante a gente perspectivar o futuro, falar sobre ele, dar nome, porque isso gera sacrifícios. Alguém que quer estudar, por exemplo: se não se planejar, não vai conseguir.

Tem de se matricular, pegar o dinheiro, organizar a rotina, não é uma coisa que se faz na hora.

As grandes coisas na vida, como se casar, se separar, mudar de emprego, todas elas exigem esse esforço preparatório, que acho que as pessoas estão fazendo. Isso como efeito de que, sozinhas, menos pressionadas, começam a se perguntar o que querem da vida. É boa essa pergunta, mas tem de ser respondida com calma.

Sou um otimista sem esperança. Sou otimista porque vai vir a vacina, porque temos que continuar, e o desejo não é uma barganha. Se não está disposto a defender seu desejo, sem que ninguém pague por isso, é porque seu desejo é de araque, de plástico.

Agora, quero ver quem tem desejo para ir em frente de forma intransitiva, sem esperancinha. Não pode ser uma esperança que faz espera. Tem que ser uma espera que faz sustentar o seu desejo. Otimistas sem esperar.

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