“Domínio é do Estado, não do crime organizado”, diz Superintendente Regional da PF
Superintendente da PF no Espírito Santo, delegado Márcio Magno Carvalho Xavier elogia a integração das forças de segurança capixabas
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Em uma trajetória marcada por mudanças decisivas e pelo enfrentamento ao crime, o superintendente regional da Polícia Federal no Espírito Santo, delegado Márcio Magno Carvalho Xavier, relembrou experiências vividas em diferentes estados e, ao analisar o cenário capixaba, destacou: “Aqui, o domínio é do Estado, não do crime organizado.”
Você sabia
Natural de São Paulo, nascido na capital, o delegado federal Márcio Magno Carvalho Xavier completa neste mês dois anos no comando da Superintendência Regional Da Polícia Federal no Estado.
Ele já atuou em investigações em vários estados, como Amazonas, Rio de Janeiro, Goiás, Paraná e São Paulo, além de Brasília.
Ele tem 51 anos, é casado e tem dois filhos.
A Tribuna O que motivou o senhor a ingressar na Polícia Federal e como se deu a construção da sua trajetória até chegar ao cargo de superintendente?
Márcio Magno Carvalho Xavier Fiz faculdade de Direito, MBA em Direito Empresarial e especialização em Processo Civil. Também fiz o CPOR (Centro Preparatório de Oficiais da Reserva de São Paulo) do Exército, na arma de Engenharia, tendo dado baixa como Segundo Tenente da Reserva.
Depois, trabalhei durante 12 anos na iniciativa privada, onde comecei como estagiário, fui auxiliar jurídico, advogado júnior, advogado pleno, advogado sênior e, por fim, coordenador jurídico.
Atuei em diversas áreas. Fui coordenador tributário, civil, trabalhista e de contratos. Também tive escritório. A única área em que não atuava habitualmente era a criminal.
Como surgiu a ideia de prestar concurso para delegado?
Um dia, um amigo me chamou e disse: “Vamos prestar concurso para delegado da Polícia Federal?”. Isso foi em 2004. Acabei indo.
Passei, mas não nas primeiras colocações, pois não tinha estudado. Nem acompanhei depois — esses concursos às vezes chamam excedentes, mas não aconteceu nada naquele momento.
Quando veio a convocação?
Em 2009, em uma sexta-feira à tarde, chegou um telegrama informando que eu deveria me apresentar à Academia Nacional de Polícia em uma semana. Minha família estava estruturada em São Paulo, esposa e filhos pequenos. Inclusive, tínhamos uma viagem marcada para o fim de semana. Eu sou muito racional, então coloquei no papel os prós e os contras. Os contras davam seis folhas de caderno; os prós, seis linhas de uma folha.
O que te fez mudar?
Passei o fim de semana pensando e fui conversar com um vizinho muito próximo. Eu tinha 35 anos e ele 83. Uma pessoa excepcional: formado em Matemática, Direito e Filosofia. Foi um dos três superintendentes da Bolsa de Valores de São Paulo na época da formação da instituição. Contei a situação, e ele disse que não me daria um conselho, mas contaria uma história.
Disse que, quando tinha apenas Matemática e Direito, viu um anúncio de emprego no jornal que parecia feito para ele — exigia exatamente essas duas formações, o que é raríssimo. Preparou o currículo, deixou pronto para enviar no dia seguinte, mas nunca enviou. Ou seja, mesmo tendo tido enorme sucesso na vida, ele carregava até a velhice o arrependimento do que não fez.
Isso influenciou sua decisão?
Totalmente. Havia outros fatores. Ganhava muito bem, estava financeiramente estável, mas me incomodava assistir diariamente às notícias e não fazer nada para mudar aquela realidade. Tinha dois filhos pequenos e me perguntava: é esse mundo que vou deixar para eles? Então decidi ir para a Academia.
E para onde o senhor foi após a formação?
Fui um dos primeiros colocados e escolhi Manaus (AM), que era uma das melhores opções disponíveis. Trabalhei na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, na Corregedoria e chefiei a Inteligência da PF, sempre tendo feito muitas operações, até pela facilidade que eu tinha em decorrência da experiência pretérita na advocacia. Ainda no Amazonas, também fui chefe do Grupo de Pronta Intervenção-GPI (grupo tático). Em uma das operações, prendemos policiais e outras pessoas envolvidas com extorsão.
O que aconteceu após essa fase em Manaus?
Costumo dizer que fui “abduzido” para Brasília. Fui para a Corregedoria Geral e assumi como chefe do serviço de investigação da coordenação de assuntos internos. Fiquei por cerca de quatro anos e meio, só fazendo investigações e operações, focado em apurar desvios de policiais. Passei cerca de dois anos e meio conduzindo operações a partir de Brasília e também no Rio de Janeiro. Depois de quase 10 anos longe de São Paulo, retornei para Sorocaba, onde chefiei a inteligência da delegacia.
Também atuou nas investigações da Operação Lava Jato.
Sim. Em Brasília tive alguns inquéritos relacionados a servidores envolvidos na Lava Jato, mas também investiguei servidores que eram contra a operação. Sempre mantive imparcialidade.
Após três anos, voltei para Brasília para assumir a Diretoria de Inteligência do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), atualmente Senappen. Posteriormente, retornei para a PF em São Paulo, assumindo a Delegacia Regional de Combate ao Crime Organizado. Passados dois anos, voltei à Sorocaba para chefiar a Delegacia, tendo permanecido lá por aproximadamente um ano, até vir para o Espírito Santo.
Qual foi a experiência mais marcante da sua trajetória?
Todas tiveram desafios e responsabilidades diferentes. O que sempre busquei foi atuar com independência e melhorar a estrutura dos locais por onde passei, organizando processos e o ambiente de trabalho.
Como compara a realidade dos estados por onde passou com o Espírito Santo?
O Estado é mais tranquilo. Mas vivemos um momento complexo em todo o País — e isso já vem se evidenciando há alguns anos. Vejo as organizações criminosas e o avanço da criminalidade de forma cada vez mais clara. As polícias são muito cobradas por problemas cuja origem não está nelas.
O aumento da criminalidade não acontece por causa da polícia, mas por fatores estruturais como falta de educação, ausência de oportunidades e falhas na base social. Nós acabamos atuando na barreira final, por meio da repressão e também da prevenção — e a própria Polícia Federal exerce papel importante nessa frente. Entendo que o Brasil se aproxima de um ponto de inflexão no enfrentamento à criminalidade.
O que precisa acontecer para mudar esse cenário?
Se não houver mudanças legislativas, maior compreensão da sociedade e alinhamento entre representantes políticos, Judiciário e Ministério Público, sobre a necessidade de revisão do sistema, corremos o risco de entrar em um cenário muito mais difícil de reverter. Depois, a volta será muito mais difícil e custosa, se houver volta.
Já vemos alguns estados com perdas territoriais para o crime organizado, e não podemos permitir que isso avance. No Espírito Santo, a realidade ainda é diferente. Conseguimos entrar em todas as comunidades e manter o controle territorial.
Aqui, o domínio é do Estado, não do crime organizado. Esse resultado é possível graças à integração entre todas as forças de segurança. Não é aceitável prender o mesmo cidadão uma, 10, 20, 60 vezes e ele continuar na rua cometendo crime violento. Essa realidade gera enorme frustração entre os profissionais de segurança e está entre os fatores que mais contribuem para a desmotivação e o adoecimento psicológico nas corporações.
Não há espaço para desistir desse enfrentamento, certo?
Jamais. Uma vez uma jornalista de São Paulo me perguntou se não parecia que estávamos “enxugando gelo”, e respondi com outra pergunta: “imagine como estaria a situação se nós não estivéssemos enxugando gelo”. Mesmo assim, seguimos trabalhando, com a esperança de que sociedade e autoridades compreendam a gravidade do momento e promovam as mudanças necessárias, por meio de alterações legislativas e, também, pela revisão de algumas das interpretações sobre as leis vigentes.
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