Dia Internacional da Mulher: Elas estão no comando
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Dizer que uma mulher pode o que quiser e tem de ser respeitada por suas escolhas talvez seja o conceito geral do que é defendido mundialmente neste domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher.
Chef de cozinha, médica, dançarina, engenheira, atriz, bombeira, economista, dona de casa, arquiteta, atleta, política... As mulheres estão cada vez mais ocupando os espaços e ganhando destaque naquilo que querem fazer. Muitas são as principais referências em suas áreas de atuação e o Tribuna Online foi atrás de 15 dessas mulheres que se destacam em suas profissões no Espírito Santo.
Premiadas, reconhecidas publicamente, admiradas, elas não dão espaço para preconceito e nesta reportagem contam um pouco do caminho trilhado até chegar às conquistas que já levam na bagagem. Leia as histórias e inspire-se!
Educadora: “Achei que eu não ia dar em nada”
Aos 36 anos, a pedagoga Juliana Rohsner já carrega na bagagem profissional oito prêmios, sendo seis estaduais e dois nacionais. O reconhecimento veio, mas o caminho para chegar até eles não foi fácil e isso pouca gente conhece.
Juliana viu a vida virar de cabeça para baixo aos 12 anos, quando os pais se separaram. A mãe pegou os seis filhos e saiu de casa, no Rio de Janeiro, levando uma mochila para cada um. O primeiro destino foi Minas Gerais, mas três anos depois mãe e filhos vieram para o Espírito Santo.
“Nós tínhamos uma vida de classe média no Rio, estudávamos em escola particular, tínhamos de tudo do bom e do melhor. De repente, perdemos tudo. Virei uma menina que vivia na periferia e frequentava escola pública. Mas minha mãe é uma mulher guerreira, potente. Ela conseguiu se reinventar para nos educar”.
Vendo a dificuldade da mãe, Juliana decidiu trabalhar, mesmo ainda adolescente. Atuou em creche, farmácia. “Eu era a única que trabalhava dos meus irmãos, mas aos 16 anos engravidei e achei que minha vida tinha acabado, que eu não ia dar em nada”, relembrou.
O que fez a vida de Juliana ganhar novamente outro rumo foi justamente o que ela apresenta diariamente para seus alunos: a educação. “Cheguei a ficar cinco anos parada nos estudos, mas tive gente que me incentivava muito, principalmente professores. Então voltei para a sala de aula e não parei mais. Trabalhava de dia e à noite corria para a escola”.
A Pedagogia entrou na vida de Juliana por acaso, depois que ela, em busca de emprego, passou na frente de uma escola e viu uma placa: “Precisa-se de coordenadora”. Ela ganhou a função, fez faculdades, virou professora, coordenadora e pedagoga. “Passei em cinco concursos públicos. Hoje sou concursada em Cariacica e no Estado e amo o que faço”.
A Escola Estadual Jones José do Nascimento, em Central Carapina, na Serra, onde Juliana é diretora, ia ser fechada por causa da violência e indisciplina. “Cheguei no colégio em 2016 para ficar alguns meses, mas não saí mais. A escola é outra. Fizemos projetos lindos, melhorias não só na escola, mas na vida dos alunos. Todos os prêmios foram conquistados com o trabalho na escola”, conta orgulhosa.
Orgulho ela também esboça ao falar da família que construiu. Casada há mais de 10 anos, Juliana tem duas meninas: uma de 19 anos e outra de 2 anos.
“Tudo o que eu vivi me fez chegar até aqui. Quando um aluno me diz que passa fome, eu entendo porque vivi isso. Mas eu falo que piedade não ajuda ninguém. O que vai ajudar é oportunidade e isso só a educação pode dar. Repito todos os dias para os alunos: vocês conseguem, vocês conseguem”, afirma.
Arquiteta: projetos para derrubar o preconceito
Ainda na infância, no quintal da casa das tias, Karla Caser riscou no chão de terra os primeiros "projetos" de casinha dela. "Pegava na enxada e nivelava terreno", lembra ela.
Karla conta que, na época, não tinha planos de qual profissão seguir. A decisão de fazer Arquitetura só foi tomada alguns anos depois. Formou-se na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), montou um escritório e logo sentiu a vontade de voltar à vida acadêmica.
Fez mestrado, em São Paulo, e doutorado, no Canadá. Em 2005, começou a dar aulas no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), campus de Colatina, e, três anos depois, voltou para as salas onde tudo começou: na Ufes.
Atualmente, ela é professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da universidade e desenvolve na academia uma pesquisa que tem sido destacada país afora: trata dos espaços públicos urbanos e estudos de gênero em Arquitetura.
O interesse em pesquisar sobre o assunto, revela Karla Caser, nasceu durante uma premiação internacional, na qual uma arquiteta japonesa teve que receber o prêmio junto com o marido, em nome do escritório, já que na cultura oriental a mulher não poderia ser premiada sozinha.
A pesquisa de Karla começou, inicialmente, a investigar o preconceito com as arquitetas no dia a dia da profissão. "Existe preconceito de fornecedores com a mulher e você ouve coisas como se a mulher que está na obra é decoradora e não arquiteta", destacou.
Logo a pesquisa ficou mais ampla e passou a estudar e tentar compreender o que falta nos espaços públicos para que sejam mais convidativos para as mulheres e não só aos homens, melhorando o ambiente.
"Está acontecendo uma mudança, que não é de uma hora para a outra. A gente vê que o uso do espaço público nunca foi igualitário, não são muito convidativos para as mulheres. Mas nós, hoje, podemos melhorar e estamos transformando esses ambientes ", afirma.
Designer: “Meu sonho é que as mulheres não precisem lutar tanto”
Para a designer Ana Paula Castro, referência em linhas autorais de esculturas e objetos de design, a educação é o caminho para reduzir a necessidade de a mulher lutar tanto por reconhecimento e igualdade. O entendimento disso vem de berço, já que a designer revela que nasceu em uma família onde não há espaço para machismo.
“Tive a sorte de ser criada por grandes mulheres. Começamos a trabalhar cedo. Meu pai dizia que era para a gente estudar e trabalhar sem pensar em casamento. Então, fui em frente, vencendo essas barreiras todas. A mulher tem que se esforçar muito mais para conseguir um espaço significativo, principalmente para quem convive com o machismo dentro de casa, seja por parte do pai ou do marido. Fica mais difícil, é uma luta diária para fazer o melhor, mas não é impossível”, conta.
Se pudesse fazer um pedido neste Dia Internacional da Mulher, a designer não pensou duas vezes. Destacou que pediria para que as mulheres não precisassem batalhar por respeito, igualdade e reconhecimento.
“Meu desejo seria não ter que dizer: ‘lutem! lutem!’. Seria poder dizer: ‘parem de gastar energia com luta e eduquem para que a próxima geração de mulheres não precise lutar tanto. Façam o caminho inverso. Gastem menos energia brigando por espaço’. Meu sonho é que as mulheres não necessitem mais lutar tanto, mas é uma questão que a sociedade tem que cooperar”, afirmou.
Ana Paula Castro ainda completa: “Cansa lutar tanto. A gente tem é que ser feliz. Temos que gastar essa energia para criar, estudar, produzir. E, para isso, só tem uma saída: a educação dentro de casa. Não educar somente as meninas ensinando que elas precisam lutar, mas que os meninos tenham o entendimento que todos são iguais”.
Na plataforma de petróleo: “Há espaço para os dois”
Aos 22 anos, Dédima Cruzeiro assumiu um novo desafio na vida: entrar no mercado de trabalho e, (de cara) logo no primeiro emprego, atuar em uma das maiores empresas de petróleo do mundo, a Petrobras.
A aprovação como técnica de operações em um concurso público seria o primeiro passo para a jovem que hoje, dez anos depois, supervisiona uma equipe que atua na exploração de petróleo.
“Eu não tinha nenhuma experiência na área. Foi o meu primeiro emprego. Mas aprendi muito com os colegas de trabalho com o passar dos anos”, contou.
Logo nos primeiros meses, Dédima aprendeu o que é e como funciona uma plataforma de petróleo, passou a ficar embarcada pelo menos por 14 dias por mês em alto-mar na P-57 (localizada a 80 quilômetros da costa do Espírito Santo), abriu mão de datas comemorativas, desenvolveu o conhecimento técnico e de liderança e hoje atua neste segmento que movimenta milhões de dólares por dia. Tudo isso em um ambiente onde (ainda) as mulheres são minoria.
“Sempre busquei estudar e trabalhar de forma dedicada. Na escola técnica, a maioria era masculina. No curso de formação, também tinha mais homens do que mulheres. Na plataforma, há mais homens. Mas eu sempre busquei ter bom relacionamento com os colegas e focar no meu trabalho. Não foi um entrave pra mim. Se você faz um bom trabalho e tem bom relacionamento, vai ser recompensada”, afirmou.
Para a técnica de operações, as mulheres podem sim ocupar espaços onde jamais imaginaram ocupar.
“Falo por mim. Sempre trabalhei muito bem com os colegas, com respeito, confiança e profissionalismo. As mulheres precisam acreditar que elas podem fazer um bom trabalho e chegar a lugares antes dominados só pelos homens. Em qualquer ramo de atividade, há espaço para os dois. As mulheres, com certeza, têm muito a acrescentar neste ambiente. É preciso não ter medo. É só acreditar que vai dar certo”, concluiu.
Juíza: “Essa história de sexo frágil não existe”
O senso de justiça e defesa social foram um dos fatores que levou a juíza Hermínia Maria Silveira Azoury a implementar, no Espírito Santo, a primeira Vara Contra a Violência Doméstica, na Serra, em 2006. Com a implantação da Lei Maria da Penha, a magistrada, que respondia pela direção do Fórum do Município, criou a vara para proteger as mulheres deste tipo de violência.
Foi ela também a idealizadora do “Botão do Pânico”, um projeto pioneiro que conta com um dispositivo integrado ao GPS que, quando acionado, aciona uma equipe de polícia indicando a localização exata onde a vítima está. O dispositivo ainda registra o áudio do ambiente, material este que pode ser utilizado contra o agressor na Justiça.
Hoje, quase 14 anos depois, a juíza vê que o trabalho foi importante e que a medida foi fundamental em defesa da mulher.
“Fui criada em uma família equilibrada. Meu pai tinha essa questão social muito forte com ele. Era sensível às mazelas da humanidade, das pessoas, e eu herdei esse lado dele. Onde eu pudesse ajudar, ajudava. Isso me levou ao Direito e a ser defensora pública por 16 anos”, contou.
Hermínia Azoury atualmente está à frente da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar e da 9ª Vara Privativa de Violência Doméstica e Familiar de Vila Velha.
Em meio a esse trabalho, a magistrada defende que as mulheres denunciem qualquer tipo de agressão (ela acampa o movimento “#nãosecale”) e destacou que elas não desistam do ideal de justiça.
“No Direito, comecei a entender o caso das crianças que vivem em lar descontrolado e o prejuízo que a violência doméstica causa na vida de todos. Hoje posso perceber que foi um trabalho visionário. Se eu não tivesse feito com coragem, mais mortes poderiam ter sido contabilizadas. Só de ver uma vida sendo salva por um instrumento tecnológico, nos fortalece em ir adiante. Essa história de sexo frágil não existe. É preciso lutar e, sobretudo, não se calar”, avaliou.
Bombeira militar: “Já ajudei a salvar mais de 200 vidas”
Ajudar as pessoas e animais sempre foi uma preocupação na vida de Polliana Borghi. Esse foi um dos motivos que a fez, aos 19 anos, tentar a carreira de bombeiro militar. O ingresso na corporação aconteceu em 2009. De lá para cá, a cabo Borghi revelou já ter ajudado a salvar mais de 200 vidas.
Atualmente, Polliana atua no Centro Integrado Operacional de Defesa Social (Ciodes). Ela é uma das profissionais responsáveis por atender a ligação de uma pessoa, que está do outro lado da linha pedindo por socorro. A militar revelou que, em muitos dos casos, esse pedido vem de pais que estão, por exemplo, com o filho engasgado.
“Eu tenho filho pequeno, já passei por isso. Por saber as manobras, consigo ajudar. É um pouco complicado ser firme para trazer a pessoa, por telefone, a prestar a atenção em você. Confesso que fico com o coração muito apertado, mas a gente tem que manter a postura. Temos que ser firmes para passar segurança para a pessoa. Até perdi as contas de quantas pessoas ajudei. Acredito que já ajudei a salvar mais de 200 vidas”, disse a cabo, que tem uma menina, de 4 anos, e um garotinho, de 2.
Mesmo formada em Direito, a cabo optou por seguir na carreira como bombeira. Tanta dedicação já rendeu a ela reconhecimento dos superiores. “É uma profissão muito gratificante e é muito bacana trabalhar em uma área que você faz o bem às pessoas”, orgulha-se.
ONG: engenheira decidiu mudar a vida de jovens de baixa renda
Imagine a seguinte cena: você ser uma engenheira civil bem-sucedida, chegando aos 40 anos, trabalhando há 20 anos na construtora da família e sendo cotada para assumir a direção dos negócios. O caminho natural seria continuar no ramo e disputar a presidência.
Entretanto, Bartira Gomes de Almeida optou pela mudança radical na carreira. Deixou a empresa da família para dedicar a segunda metade produtiva de sua vida a ajudar pessoas.
Em 2014, nasceu o Instituto Ponte, que capta recursos financeiros para que jovens de baixa renda possam estudar nas melhores escolas privadas do Estado por meio de bolsas de estudo, recebendo ainda livros, vale-transporte e uniforme.
No início do projeto, eram 22 alunos. Atualmente, o instituto ajuda 152 jovens de comunidades da Grande Vitória, que têm renda de no máximo um salário mínimo e meio.
“Hoje, 90% dos nossos alunos têm nota superior à média da turma em que foram inseridos. Pego o aluno da escola pública, coloco na particular e 90% deles têm nota maior do que a média da turma”, disse.
Ao abdicar da carreira, Bartira brinca que se transformou com orgulho em uma “pedinte”. “Passo o dia pedindo bolsa nas escolas ou dinheiro para pagar contas”, diz. Mas revela que a mudança valeu muito a pena.
“A maior injustiça, hoje, no Brasil é a escola do rico ser tão diferente da escola do pobre. A falta de oportunidade é muito desigual. Vale muito tentar transformar isso”, frisou.
No ano passado, Bartira foi homenageada com o prêmio Mulheres do Amanhã, dado pela Arcelor Mittal e, nos últimos dois anos, o Instituto Ponte foi a única ONG capixaba entre as 100 melhores ONGs do País.
“Na nossa sociedade precisamos redesenhar a nossa mente. Hoje admiramos, de modo geral, aqueles que têm dinheiro e sucesso, mas precisamos incluir novos líderes na nossa lista de pessoas que admiramos”, disse.
Economista: “Nossa, eu sou a única mulher aqui. Dá um orgulho”
A economista Ana Paula Vescovi é daquelas que fazem as mulheres se encherem de orgulho, principalmente as capixabas. Natural de Colatina, ela percorreu um caminho admirável em sua profissão, mas também na vida pessoal.
Formada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Espírito Santo, ela é mestre em Economia do Setor Público e em Administração Pública, além de especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental. Já atuou como secretária executiva do Ministério da Fazenda, secretária do Tesouro Nacional e presidente do Conselho de Administração da Caixa Econômica Federal, foi secretária da Fazenda do Espírito Santo, esteve à frente de outras instituições e, atualmente, é a economista-chefe do Santander.
Como ela fez para chegar tão longe? Educação! Da cidade do interior, ela declara que o grande destaque na sua vida foi a educação. “Minha família é supersimples, com pai, mãe, três irmãos. Uma família tradicional, católica, à moda antiga. Cresci com meus pais nos passando valores muito elevados e estudar foi um desses ensinamentos. Sempre fui muito estudiosa e disciplinada”, contou.
Ana Paula Vescovi relembrou que a paixão pela Economia começou na adolescência e ela quase embarcou numa faculdade de Engenharia, mas logo optou pelo curso do coração. A partir de então, muita dedicação pela escolha profissional, muito ainda dominada pelo universo masculino.
“Na minha casa nunca teve esse tipo de discussão se a profissão tal era de homem ou de mulher. O que importava era o que a gente queria fazer. A gente tem que se sentir feliz onde está e com o que escolheu fazer. Sempre convivi com mulheres que escolheram galgar carreiras executivas, outras que escolheram ficar em casa... Não importa. Tem espaço para várias escolhas e até mesmo de não escolher carreira nenhuma”, defende.
Casada há 25 anos, mãe de uma adolescente de 15 anos e de um jovem de 18 anos, a economista destaca que estruturou sua família ao longo do seu crescimento profissional, e com sucesso. “Pude conviver com essa condição de mãe e carreira. A gente consegue administrar. Ter filhos e crescer profissionalmente é possível”, afirma.
Em um universo ainda tão masculino, Ana Paula admite que sente orgulho em ser mulher. “É muito comum na minha carreira eu estar em um ambiente só de homens e muitas vezes já parei e pensei: ‘Nossa, eu sou a única mulher aqui. Dá um orgulho, sim”.
Neurologista: “É possível ser bem sucedida profissional e afetivamente”
Ela sonhava em ser jornalista, mas na época do vestibular passou para Direito. No entanto, desistiu e decidiu que ia fazer moda. Foi até o final. Como resultado, se estruturou e até abriu uma loja de roupas. Só que deu tudo errado. “Cheguei a abrir falência e foi então que resolvi fazer a faculdade de Medicina, aos 21 anos”.
É assim que a neurologista Soo Yang Lee conta resumidamente como começou a história dela na Medicina, uma jornada talvez familiar para muitos adolescentes e jovens no início de sua carreira profissional. Para Soo Yang a decisão de ser médica deu certo e ela é atualmente uma das neurologistas mais reconhecidas no Estado.
A médica nasceu na Coreia do Sul, mas mora no Brasil desde os 3 anos de idade. O pai, mestre de Taekwondo, veio ao Brasil divulgar a arte marcial e a família acabou ficando. Os pais, Soo Yang e os três irmãos moraram por cerca de 10 anos no Rio de Janeiro e depois vieram para o Espírito Santo.
A vida não era fácil e o pai precisou se apertar financeiramente para dar conta dos estudos dos filhos. “Durante a faculdade, quem entrou em dificuldades financeiras foi meu pai. Depois fui fazer a residência de Neurologia em Ribeirão Preto usando o cheque especial da minha conta universitária”, relembra.
A dedicação rendeu e, quando ainda era acadêmica de Medicina, o projeto de doutorado que Soo Yang participava com outras duas médicas ganhou o prêmio mundial de Psiquiatria Biológica.
Ela conta que não sente nenhum tipo de preconceito pelo fato de ser mulher e atuar em Medicina. Até brinca com isso: “O fato de ser oriental ajuda a dar credibilidade, então nunca tive esse tipo de problema. Na verdade a dificuldade era arrumar namorado. Os homens ainda têm bastante dificuldade de lidar com mulheres independentes financeira e emocionalmente, e ainda por cima faixa preta de Taekwondo. Sendo neurologista, então... Que lida com doenças graves, pior ainda. Por isso digo que meu marido é muito corajoso!”.
O espírito leve serve de inspiração para quem convive com Soo Yang. No dia a dia, ela revela que tem uma rotina normal, como qualquer outra mulher, e precisa se desdobrar para dar conta de todas as atividades.
“Eu vejo nas minhas alunas da faculdade que as inspiro de algum modo. Tento mostrar a elas que é possível ser bem sucedida profissional e afetivamente, e que a faculdade de Medicina não pode tirar nossa jovialidade. Também mostro às pacientes que é possível passar pelos problemas com menos sofrimento. Sou médica, mas também chego em casa de noite e preciso dar conta do meu filho, do marido, administrar a casa, colocar roupa para lavar, fazer jantar...”, destaca.
Atriz: mais de 40 anos nos palcos e no “grito das mulheres”
"Eu sinto que nasci com a arte já dentro de mim. Desde pequena gostava de falar poesia. Gostava de fazer teatro na escola". A revelação é da atriz Beth Caser, reconhecida nos quatro cantos do Estado pelo trabalho cultural.
A profissionalização aconteceu em 1978 e, nos mais de 40 anos de carreira pelos palcos do Espírito Santo e fora dele, a atriz já conquistou diversos prêmios, com peças como "A Grande Estiagem" e "Rainha do Rádio", que ficou em cartaz por muitos anos e rodou o Brasil.
Mas a carreira de Beth não se resume aos palcos. Ela também é pautada na luta por direitos dos artistas e mulheres. Já foi secretária e subsecretária de Cultura, em Vitória, e fundadora do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado, em 1988. "Infelizmente, muitos desses direitos que a gente conquistou parecem que não estão sendo respeitados", lamenta.
Beth ressalta que até teve oportunidade de deixar o Estado e fazer carreira no eixo Rio-São Paulo, mas preferiu ficar em terras capixabas como forma de resistência e para ajudar as futuras gerações.
"Às vezes me arrependo um pouco porque nosso Estado não valoriza tanto quem ficou aqui. Não o povo, porque esse me vê na rua e lembra dos artistas, mas aquelas pessoas que podem e devem melhorar a cultura", desabafou.
No Dia Internacional da Mulher, a atriz pede mais respeito às mulheres: "Estamos vivendo muita opressão e discriminação. No nosso Estado é muito triste os índices da violência contra a mulher. Nas mínimas coisas a mulher é desrespeitada. No trabalho, tantas vezes não ganha igual ao homem. Essa luta da mulher no Brasil é importante para de escutarmos, é um grito", afirma.
Vice-governadora: "Cada mulher que se impõe, nos liberta”
Mulher, negra e periférica, Jacqueline Moraes nunca escondeu suas raízes. Muito pelo contrário. Uma das fotos penduradas em seu local de trabalho conta, pelo menos, um pedaço dessa história de luta. É uma imagem tirada em janeiro de 2019, um registro da cerimônia de posse de Jacqueline como vice-governadora do Estado ao lado de Renato Casagrande, governador.
Nascida em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e moradora de Cariacica desde os 12 anos, Jacqueline se considera capixaba em todos os sentidos. "De coração, alma e título, porque tenho o Título de Cidadã Espírito-santense", disse orgulhosa.
O trabalho veio cedo. Aos 14 anos, já ajudava os pais na barraca de camelô que vendia objetos importados. Um pouco depois, com a morte do pai, Jaqueline precisou tomar a frente da barraca e parar os estudos. Mas foi então que ela começou a se destacar enquanto liderança para os outros vendedores.
Jacqueline foi presidente da Associação dos Camelôs do Espírito Santo, líder comunitária do bairro Planeta II, em Cariacica, e vereadora pelo mesmo município. Se antes a sociedade tentava dizer o lugar a qual uma mulher pertencia, ela personifica a nova “ordem”: "Lugar de mulher é onde ela quiser".
A vice-governadora tem a história de vida muito parecida com a de muitas mulheres. É mãe e avó aos 43 anos de idade, veio da periferia e nunca parou de perseguir seus sonhos. Hoje, sua principal luta é pela paridade de gêneros na sociedade, no mercado de trabalho e na política.
“A política amplifica a voz das mulheres, então elas precisam querer participar. Vão poder lutar por mais creches em tempo integral, por igualdade de salário e tantas outras desigualdades entre homens e mulheres que existem na sociedade", afirmou.
Perguntada sobre o que gostaria de dizer às mulheres no Dia Internacional da Mulher, Jaqueline não pensou duas vezes: "Temos que ter em mente que, cada mulher que se impõe, nos liberta. Quando eu me imponho, reconheço que a participação das mulheres nos espaços de poder é tão importante quanto defender outras bandeiras".
Chef de cozinha: do Direito para a vida na gastronomia
Reconhecida pelo talento como chef de cozinha, Bárbara Verzola quase construiu uma carreira na advocacia e até se formou em Direito. No entanto, decidiu seguir seu sonho e, com o incentivo dos pais, não só alcançou seu objetivo, como também ganhou destaque nacional e internacional ao liderar a cozinha do restaurante Soeta, em Vitória, ao lado de Pablo Pavón.
Filha de italianos, a capixaba de 39 anos conta que sua família sempre teve o costume de sentar para almoçar e jantar juntos. A culinária é uma paixão hereditária.
Em função disso, buscou o caminho da felicidade fazendo o que queria. Hoje, Bárbara conta que se sente super-realizada e incentiva quem deseja, principalmente as mulheres, a lutar pelos seus sonhos.
“Sou feliz e me sinto muito realizada, pois eu tinha vontade de abrir meu restaurante, de poder me sustentar com isso e eu consegui. Não esperava por tanto reconhecimento e fico ainda mais feliz”, declara.
Mas Bárbara lembra que, para alcançar essa satisfação, o caminho precisa ser tranquilo e feliz. “O importante é não desistir dos sonhos e conseguir ser feliz no caminho, nas escolhas, fazer as coisas de forma mais leve, com tranquilidade e sem a pressão de querer ser sempre perfeita”, aconselha.
Mãe de Matias, de 2 anos, e Cora, de 11 meses, Bárbara consegue encontrar esse equilíbrio na sua vida pessoal. Toda manhã se dedica aos filhos e revela que, quando está em casa, nem pensa em cozinhar e busca sempre boas escolhas para viver de forma mais leve.
“A minha profissão é muito sacrificante, demoramos muito para alcançar o reconhecimento e conseguir ganhar dinheiro. Mas se a pessoa realmente gosta é preciso lutar e não desistir”, conta ela, que completa falando sobre a importância da mulher se posicionar:
“Eu nunca tive de lidar com o preconceito na carreira, pois eu sempre me posicionei. Já fui várias vezes a única mulher na cozinha e a minha postura e meu trabalho sempre foram firmes”.
Dermatologista: “Era preciso ser a melhor”
“O que percebi, ao longo da minha jornada, foi que sempre precisei buscar ser a melhor para que os homens acreditassem que eu tinha capacidade. Ser boa, em alguns momentos, não era suficiente. Era preciso ser a melhor”.
A declaração é da dermatologista Karina Mazzini, especialista na área de estética e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica.
“Quando escolhi a dermatologia me apaixonei pela atuação na área de doenças da pele. Naquela época as demandas estéticas eram poucas. Comecei, fiz vários cursos, me apaixonei pela tecnologia aplicada no cuidado da pele, e ingressei nesse foco de atuação que estou hoje”, explicou.
A médica se formou em medicina em 1988, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Depois, fez duas residências em clínica médica e uma em dermatologia.
Para quem quer ingressar na área, Karina dá algumas dicas: “Estudar bastante, aprender a tratar doenças da pele. Depois, ingressar nos cuidados com a beleza. Isto porque, quando compreendemos melhor as reações da pele, potencializamos nossa prestação de serviço”.
Atleta: “A sensação de ser uma inspiração é a maior recompensa”
Representante do Brasil na prova individual da ginástica rítmica na Olimpíada de 2016, Natália Gaudio divide sua vitoriosa carreira de atleta com o sonho de se formar na faculdade de Direito.
O caminho acadêmico veio da inspiração do avô Rubens Rocha Azevedo, advogado, a quem ela se declara. “Meu avô é uma inspiração para mim. Ele venceu na vida e eu sempre gostei e me interessei por essa área”.
Iniciando o nono período da faculdade, Natália ainda sonha e luta por uma vaga nas Olimpíadas de Tóquio, previstas para julho e agosto. E, dividida entre o presente, com a vida de atleta, e o futuro, de quem sabe se tornar promotora ou juíza, ela é grata ao avô, mas atribui o sucesso da vida esportiva a duas mulheres que a inspiram diariamente: sua mãe, a bancária aposentada Ana Paula Azevedo Gaudio, e sua técnica Mônika Queiroz, também capixaba.
“Minha mãe sempre me motivou. Ela quem me levava aos treinos e fazia questão de eu participar das competições. Ela fazia empréstimos... Fez tudo o que podia e não podia para eu chegar onde cheguei. Já Mônika é uma mulher forte e inspiradora. Eu passo mais tempo com ela do que com a minha própria mãe. Ela colaborou muito para eu me tornar uma pessoa forte assim como ela”.
E inspiração atrai inspiração. Com 27 anos, Natalia, que coleciona títulos e participações nos principais campeonatos da modalidade, se tornou uma mulher que inspira meninas a seguir seu caminho. Ídolo de novas ginastas, ela é abordada em treinos, campeonatos, nas ruas e nas redes sociais, e se orgulha de ter traçado o caminho do sucesso fazendo história.
“Comecei na ginástica aos 6 aninhos, passei por muitas mudanças e privações desde novinha e hoje posso dizer que a sensação de ser uma inspiração é a maior recompensa da carreira. As conquistas são consequência do trabalho, ficam na história. Mas o que me incentiva é seguir inspirando as meninas, pois eu sei o quanto isso é importante. Quando eu era criança isso acontecia comigo”, conta Natália.
Ela ainda completa: “É muito gratificante para mim quando as meninas falam que querem ser como eu quando crescerem. É uma troca muito legal e sinto que tudo valeu a pena”, frisa a capixaba, que no esporte teve como inspiração as também capixabas Tayanne Montovanelli e Ana Paula Ribeiro.
Dançarina: sucesso para milhões nas redes sociais
Dançarina, cantora e empresária. A capixaba Thamy Araújo, de 22 anos, é natural de São Gabriel da Palha, Norte do Estado, e está ganhando o mundo com sua música.
A história dela remete ao interior de São Gabriel e uma das lembranças que tem é a de subir no pé de goiaba e cantar para os pés de café. Thamy conta que sonhava que eles eram seu grande público e ela uma grande cantora. Pensamentos que um dia se tornariam realidade. Hoje, o canal dela no YouTube tem mais de 1 milhão de inscritos e suas músicas/coreografias já acumulam mais de 142 milhões de visualizações.
Ela relembra que, assim que completou 15 anos, passou a morar sozinha e a trabalhar. “Eu trabalhava o dia todo para me sustentar e conseguir continuar meus estudos. Era puxado, mas sabia que uma hora a recompensa chegaria", lembra Thamy.
Aos 17 anos, começou a carreira de modelo. Foi a vencedora do Miss Brasil Unificado, na categoria teen, em 2015, depois ficou no top 10 do concurso Miss Brasil de Las Américas em 2015.
A carreira na música teve início quando ela foi morar em Vitória e passou a atuar como dançarina de funk. “Logo comecei com o meu canal no YouTube e fui criando ainda mais amor pela música. Sempre me identifiquei com o funk. Ele passa a realidade que a favela vive, essa simplicidade. É alegre, é contagiante", diz a dançarina.
Foi dançando sucessos de outros artistas e gravando músicas de resposta para letras machistas de MCs que a capixaba conquistou 142 milhões de visualizações no YouTube. O sucesso na internet e o talento fizeram com que ela se tornasse a nova aposta de uma grande produtora. Em dezembro, a jovem lançou seu primeiro single: “Deu a Louca Nessa Raba”. O clipe, gravado no Estado e com artistas locais, e o vídeo da coreografia somam mais de 1 milhão de acessos.
Em tempos de debates sobre empoderamento feminino, a cantora defende que a mulher pode e deve ser o que quiser. "Nasci no interior, não tive condições, corri atrás dos meus sonhos. Olho para trás e vejo que tudo isso parecia impossível. Nós mulheres podemos, sim, ser quem nós quisermos e somos do tamanho dos nossos sonhos. Isso não é um clichê", destaca Thamy.
"Quero que a minha música faça com que nos respeitem como quisermos ser. Procuro gravar vídeos fazendo resposta para letras de funkeiros, sempre a favor da mulher. É muito bom olhar para o mercado da música do funk e ver tantas artistas maravilhosas fazendo sucesso neste nicho", declarou a artista, que há um ano mudou-se para a Bahia para ficar perto de seu noivo, o cantor Bruno Magnata, da banda La Fúria.
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