Criação dos filhos: especialistas explicam a importância de dizer “não”
Eles ressaltam que receber negativas contribui para o desenvolvimento da criança e para que ela aprenda a lidar com as frustrações ao longo da vida
Quem tem filho sabe: é impossível passar um dia sem que a palavra “não” seja pronunciada pelo menos uma vez. Um estudo realizado no Reino Unido apontou que os pais dizem “não” aos seus filhos 23 vezes por dia, em média.
Apesar de esse número parecer alto, a maioria dos entrevistados afirmou dizer mais “sim” do que “não”. O “sim” foi pronunciado uma média de 24 vezes ao dia. O dado revela uma preocupação de especialistas: a importância de dizer “não” na criação dos filhos.
O neuropsicólogo Rhamon Carvalho destaca que uma das necessidades emocionais básicas das crianças é a de ter “limites realistas e autocontrole”.
“Isso significa que a criança precisa de adultos que a ajudem a tolerar frustrações, desenvolver autocontrole emocional e lidar com regras sociais. Dizer 'não', estabelecer limites claros e ser consistente na aplicação deles não é um ato de dureza, mas sim uma forma de cuidar”.
Rhamon explica ainda que o “não” contribui para o desenvolvimento, ao contrário de muitos acharem que pode haver bloqueio.
“Vale lembrar que a dose de “não” que cada criança precisa varia conforme o temperamento delas. Ou seja, tem criança que precisa de mais limite e outras menos”.
E esses limites, segundo a psicopedagoga e neuropsicopedagoga Thaís Cruz, devem começar assim que a criança ganha mobilidade (engatinhar ou andar), geralmente entre os 8 e 12 meses de vida, mudando conforme a idade. “Dizer 'não' é uma das ferramentas mais cruciais que os pais têm para formar um adulto saudável”, ressalta.
“Na vida adulta, não conseguimos tudo o que queremos no momento em que queremos. O 'não' que a criança ouve dos pais é o primeiro treino para as frustrações reais da vida — como um 'não' em uma entrevista de emprego ou o fim de um relacionamento”, completa Thaís.
Ainda que as crianças comecem a aprender a lidar com as frustrações desde a primeira infância, explica a psiquiatra da infância e adolescência Ana Carolina Cavalieri Milanez, a capacidade de gerenciá-las deve ser adquirida principalmente entre os 3 e 12 anos, período em que a criança desenvolve as principais habilidades sociais e emocionais.
“Nessa fase, é crucial que os pais sejam emocionalmente disponíveis, ao mesmo tempo em que estabelecem os limites e as regras que devem ser cumpridas. E os cuidadores precisam ser firmes, não se importando em contrariar a criança, se isso for para o bem dela. Quem ama, dá limites!”, ressalta a médica.
Pais desenvolvem estratégia para educar filho de 4 anos
A consultora comercial Kamilla Aguiar, 31, é mãe do pequeno Guilherme de 4 anos. Nessa idade, Kamilla conta que o filho tem dificuldade para obedecer um “não”, mas ela e o marido já implementaram uma espécie de contagem para que o menino entenda os limites.
“Quando ele ouve um 'não' fica muito frustrado e insiste. Então, desde 2 anos de idade, começamos a fazer contagem com ele. Por exemplo, falo: Guilherme, limite. 1, 2... Hoje não chega mais no 3, pois ele sabe que poderá ser disciplinado”, conta.
“Sabemos que ele enfrentará muitos 'nãos' na vida. Então, que ele possa entender desde já. E é algo que já praticamos e falamos, que nem tudo na vida dele vai ser como ele quer, e sempre terá desafios”, afirma Kamilla.
Responsabilidades diárias
Leonardo Blanck, de 42 anos, e Eduarda Blanck, de 37, são pais de Vitor, 14 anos, e Lais, de 10. Eduarda conta que os filhos têm responsabilidades diárias.
“Como pais, cobramos de forma rigorosa para que eles aprendam a lidar com as cobranças quando chegarem à fase adulta. Por exemplo, eles têm agendas diárias, e nelas incluímos tarefas que eles precisam realizar. Cada um é responsável por arrumar o seu quarto, lavar o uniforme da escola, arrumar a casa e tantas outras tarefas. Tratamos nossos filhos já preparando para a vida”.
Há situações em que o casal, relata Eduarda, precisa usar o “não”.
“As crianças vivem observando os de fora, e querem agir do mesmo jeito dentro de casa. Nessa hora, o “não” precisa ser dito. As crianças não são acostumadas a ouvir um 'não', e fazem dessa palavra uma tempestade”.
Saiba Mais
Por que os pais negam pedidos?
54% dos entrevistados afirmaram que dizem “não” para ensinar que nem tudo pode ser atendido imediatamente.
37% relataram usar a negativa como forma de evitar que os filhos se tornem mimados.
Pais ainda dizem “sim” muitas vezes
Apesar das negativas frequentes, os adultos admitiram que tendem a aceitar mais pedidos do que recusá-los.
Quando começar
Os limites devem começar a ser introduzidos quando o bebê adquire mobilidade, geralmente entre os 8 e 12 meses de vida, mudando conforme a idade.
Pesquisa
Uma pesquisa realizada pela empresa britânica de turismo pedagógico, a PGL, ouviu 2 mil pais de crianças entre 1 e 16 anos.
O levantamento revelou que os responsáveis dizem “não” aproximadamente 8.395 vezes por ano, o que equivale a 23 negativas por dia.
Além disso, 64% dos adultos afirmaram que muitas vezes precisam repetir a negativa várias vezes para o mesmo pedido.
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