Ciência explica por que as mulheres são mais afetadas pelo Alzheimer
Segundo levantamento realizado, as mulheres têm o dobro de casos da doença
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Um dos grandes desafios atuais da ciência é o Alzheimer – doença neurodegenerativa que acomete, principalmente, os idosos. Mas, dentro do público da terceira idade, as mulheres são as mais atingidas. Estima-se que dois terços dos pacientes afetados são do sexo feminino, ou seja, o dobro de casos.
Na tentativa de desvendar esse mistério, pesquisadores chineses realizaram um estudo que explica por que isso acontece.
A pesquisa propõe que o aumento do hormônio folículo-estimulante (FSH) – predominante em mulheres, principalmente na fase da menopausa – estimula uma área no cérebro relacionada ao desenvolvimento do Alzheimer.
De acordo com o neurocirurgião José Augusto Lemos, a pesquisa abre alas para novas discussões sobre linhas de tratamentos, uma vez que reforça a necessidade de o equilíbrio hormonal ser preservado conforme a idade avança.
“Ainda há muitas dúvidas e polêmicas dentro da comunidade médica sobre os tratamentos com reposição de hormônios, mas a tendência com o avanço do tempo tem sido de mostrar que manter os hormônios em níveis adequados é benéfico para o ser humano”, disse.
Ele destacou que o Alzheimer pode ser influenciado por diversos fatores: genéticos, hormonais e hábitos não saudáveis. Para o médico, é benéfico que as pesquisas também envolvam a parte hormonal.
O estudo chinês está na Fase I e realiza testes em camundongos. Para a neurologista Soo Yang Lee, a pesquisa traz informações importantes e, se conseguir avançar, poderá trazer avanços à prevenção e ao tratamento da doença. Mas, ressaltou que o estudo ainda carece de mais aprofundamentos.
“A pesquisa não explica completamente o modo de desenvolvimento do Alzheimer. Ela coloca como causa o hormônio feminino FSH, mas não explica por que os homens têm a doença”, pontuou.
O geriatra e professor da Ufes Roni Chaim Mukamal destacou que os estudos que relacionam hormônios e Alzheimer são diversos, mas nenhum ainda os mostrou como a causa central.
Para o médico, os estudos ainda precisam avançar, e não é possível usar bloqueadores de hormônios na prevenção e no tratamento enquanto não houver comprovação. “Mas já é um caminho para se conhecer mais a complexidade dessa doença”, destacou.
Saiba mais
O que é o Alzheimer
> O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que afeta a memória e as habilidades de pensamento, e acomete principalmente os idosos.
> Apesar de a causa ainda ser desconhecida, sabe-se que é ocasionado por um acúmulo de proteína anormal no cérebro, que prejudica as ligações entre os neurônios e causa a morte dessas células cerebrais.
Mulheres são as mais atingidas
> Estima-se que cerca que dois terços dos pacientes com Alzheimer são mulheres.
> Uma das explicações científicas para isso é o fato de as mulheres terem maior expectativa de vida que os homens. Ou seja, quanto maior a idade, maior a chance de desenvolver Alzheimer.
> Outra possível explicação é a baixa escolaridade de muitas mulheres idosas atuais, por questões históricas. O Alzheimer está ligado também à baixa escolaridade.
O que diz a pesquisa
> Um estudo realizado por pesquisadores chineses e publicado na última quarta-feira na revista Nature tentou explicar porque as mulheres são as mais afetadas pela doença.
> Segundo a pesquisa, o aumento do hormônio folículo-estimulante (FSH) – predominante em mulheres, principalmente na fase da menopausa – estimula uma área no cérebro chamada de “via C/EBP/AEP”, conhecida como vias colinérgicas. Essa região estimulada contribui para o desenvolvimento do Alzheimer.
> A equipe de cientistas já havia conseguido estabelecer uma relação entre a ativação seletiva dessas vias e o desenvolvimento de doenças degenerativas desde 2018. Com os estudos, descobriram que o FSH é o que tem maior correspondência com a estimulação da região cerebral.
Fase inicial
> Apesar da pesquisa ser considerada um avanço no estudo do Alzheimer, ela ainda está na Fase I da pesquisa clínica, realizando testes em camundongos. Diante disso, os especialistas ressaltam que ainda é cedo para afirmar sobre os ganhos da pesquisa e de que forma ela pode contribuir na prevenção e no tratamento da doença.
> O estudo ainda não conseguiu mostrar como o estímulo de determinada via cerebral pode estar relacionado ao surgimento da doença.
Prevenção
> Hábitos gerais de qualidade de vida podem contribuir para a prevenção. Entre eles, estão o mantimento de uma alimentação balanceada, mais natural e com menos itens inflamatórios; menos estresse; sono regular; hidratação; prática de atividade física, e equilíbrio hormonal.
> Há cuidados diferenciados para homens e mulheres, principalmente na questão hormonal. É importante procurar por um médico capacitado para receber orientações corretas e individualizadas. Assim , o profissional avaliará se somente mudanças de hábitos serão suficientes, ou se é preciso algum outro tipo de intervenção, como a reposição de hormônios específicos para cada gênero.
Tratamentos
> Ainda não há cura para o Alzheimer, há somente tratamentos para reduzir os sintomas. Atualmente, os pacientes utilizam medicamentos com a função de retardar o agravamento da degeneração cerebral.
> Uma aposta da ciência na luta contra o Alzheimer é nos medicamentos de anticorpos monoclonais, que já estão na Fase III dos estudos. Se aprovados, eles poderão tentar impedir o acúmulo de proteínas anormais nos neurônios, podendo trazer melhorias ao tratamento.
Fonte: Especialistas consultados, Revista Nature e Pesquisa AT.
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