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Até três dias em viagem de ônibus

São 3.544 quilômetros na linha com trajeto mais longo saindo do Estado, partindo de Colatina para Porto Velho, em Rondônia

Matheus Souza e Verônica Aguiar, Do Jornal A Tribuna | 18/07/2022 16:33 h

Ana Paula disse sentir-se mais segura na estrada do que viajando de avião: “É confortável, tem água e banheiro”
Ana Paula disse sentir-se mais segura na estrada do que viajando de avião: “É confortável, tem água e banheiro” |  Foto: Douglas Schineider/AT
 

Viajar de ônibus não é mais exclusividade de quem só deseja Roneconomizar. Atualmente, com a modernização, cada vez mais turistas escolhem o sistema rodoviário por causa da segurança, do conforto e da possibilidade de descansar e aproveitar o trajeto.

Esse é o caso da doméstica Ana Paula Ferreira, de 35 anos, que disse sentir-se mais segura pegando a estrada do que viajando de avião. Ela nasceu em Colatina, na região Noroeste do Estado, e mora em Rondônia há mais de 20 anos.

Como Ana Paula tem família no Estado, ela viaja de tempos em tempos para visitar os tios em Colatina. Isso faz com que ela seja uma das usuárias recorrentes da linha que faz a viagem de ônibus mais longa saindo do Espírito Santo. 

Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transporte Rodoviário de Passageiros (Anatrip), o trecho Colatina (ES) com destino a Porto Velho (RO) tem duração de mais de 55 horas e conta com mais de 3.544 km de distância. Segundo motoristas que fazem a viagem, o trajeto pode levar até 70 horas.

Já a viagem mais longa do Brasil é de Criciúma (SC) a Porto Velho (RO), que tem 3.600 km e leva cerca de 60 horas. Muitos passageiros, como a própria  Ana Paula, admitem que passar tantas horas viajando não é problema. 

“Passo três dias dentro do ônibus. É confortável, tem água, banheiro e paradas para gente descansar,  esticar as penas, tomar café, almoçar e tomar banho”, diz  Ana Paula.

Ela conta que, além de admirar a paisagem pela janela, também aproveita a viagem para conversar e fazer amizade com outros passageiros. 

“Conheço bastante gente de lugares diferentes, cada um com a sua história. Conversando passa o tempo e a gente nem percebe.  Na última vez mantive contato com uma moça, a gente trocou telefone e de vez em quando conversamos”, relata.

Quem também faz o mesmo trecho é a microempreendedora e babá Maria Fátima Candido, de 46 anos. Ela é capixaba, mas  mudou para Rondônia após se casar. Lá,  Maria  morou por 15 anos e acabou construindo uma família. 

Morando novamente no Espírito Santo, a empreendedora diz que visita a cada dois anos familiares e amigos que moram no estado da região Norte.

“Durante a viagem, eu gosto de ler, converso e faço novos amigos. Adoro dormir também. Viajar de ônibus me deixa feliz, é seguro e confortável.”

Não é tão cansativo, dizem motoristas sobre o trajeto

Diferente do que muitos costumam imaginar, quem passa três dias dentro de um ônibus trabalhando conta que a experiência à frente do volante não é tão cansativa. Na verdade, até dá para aproveitar a paisagem e notar o passar das estações, conta um dos motoristas.

Há mais de 10 anos fazendo a mesma rota, os  motoristas da linha Colatina (ES) x Porto Velho (RO), Edigar e Paulo, contam que percorrer o longo trajeto não é exaustivo. Eles relatam que nenhum dos dois dirige por mais de 4h30, que é uma exigência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Edigar e Paulo Teodoro: paisagem
Edigar e Paulo Teodoro: paisagem |  Foto: Douglas Schineider/AT
 

Ambos contam com uma cama e um espaço para descansar nos intervalos. “Para nós, motoristas, não é muito cansativo. No intervalo, deu a hora nós vamos dormir. Às vezes conversamos com um colega, porque fazemos muitas amizades.  Vemos como está tudo com os passageiros e é isso”, conta Edigar Belmiro.

Com tantos anos na profissão, os motoristas relatam que suas famílias já estão acostumadas com os dias de afastamento. Antes de dirigirem ônibus, os dois eram caminhoneiros, o que teria contribuído para a boa adaptação da família.

Na hora da  viagem, não pode faltar  o básico:  o kit com remédios para eventuais emergências, dizem os motoristas. “Não costumo levar lanche porque fazemos paradas para comer e as despesas ficam por conta da empresa. Só levo roupa de cama e uniforme”, relata Paulo Teodoro Neto.

Edigar afirma que é muito grato pela profissão  e revela que era seu sonho de infância trabalhar dirigindo. Uma das principais vantagens, segundo ele, é observar como as plantações são afetadas pela mudança nas estações.

“Conheci muitas pessoas e fiz muitas amizades.  Há 12 anos faço essa viagem e, por isso, acabo conhecendo muitos passageiros”.


SAIBA MAIS

Em busca de oportunidade em Rondônia

Demanda de passageiros

Segundo especialistas, a linha que atende Rondônia foi criada e se mantém ativa nos dias atuais por uma demanda constante de passageiros com destino ao estado da região Norte.

Uma das razões é o movimento migratório para a região Centro-Oeste e Norte do Brasil durante os anos 70.

Código Civil de 1916

O processo de ocupação de terras e expansão para a região Oeste do País foi transformado pelo Código Civil de 1916, que alterou o sistema de herança vigente à época.

Até então as terras eram passadas aos filhos, no caso o primogênito.

“A ideia de que se precisava ocupar os territórios nacionais sempre foi algo notável e isso foi acentuado durante a ditadura”, conta o diretor do Centro de Ciência Humanas da Universidade Federal de Roraima - (UFRR), João Carlos Jarochinski.

Sistema rodoviário

Durante o governo de Juscelino kubitschek houve uma série de investimentos em estradas, buscando conectar o País e expandir a urbanização por regiões do interior do Brasil, explicou o professor de História e Atualidades José Quirino.

 Incentivos governamentais

entre os fatores que levaram moradores das regiões costeiras do País, entre eles capixabas, a migrarem para as regiões centrais e Norte do Brasil foram os incentivos dados pelo governo da época.

Oportunidade

Por se tratar de uma região administrativa nova à época, muitos foram movidos para a localidade pela esperança de oportunidade, até mesmo na máquina pública.

Terras baratas

“Tinha terra e tinha gente. O custo delas era bastante baixo, o que atraiu muita gente a ocupar essas regiões. Isso começou no Mato Grosso e se expandiu para Roraima”, conta o professor da UFRR.

Agronegócio

Com o baixo custo das terras, a região de Rondônia passou a ser visada por diversos produtores rurais que viram uma oportunidade de negócio.

Além da oferta de terras, o agronegócio também foi um chamariz de pessoas para a região.

“Ele é um fator essencial. Como o custo de produção passa a ser vantajoso, muitas pessoas são atraídas por oportunidade”, conta o diretor da UFRR.

Garimpo

nos anos de 1980, uma grave crise econômica assolava o País levando uma parcela considerável da população à pobreza.

“acabou sendo um fator de atração para as pessoas irem para Roraima, muitos foram em busca de oportunidade”, conta o professor João Jarochinski.

Atualmente, pessoas ainda vão para essas regiões tentar a sorte em garimpos ilegais.

“Desde os anos 50 tem um crescimento exponencial do garimpo no rio madeira. Ainda hoje, muitos deixam suas casas para tentar a sorte em garimpos ilegais, que costumam ser mais vantajosos devido a impostos”, explicou o professor José Quirino.

Fonte: Professores João Jarochinski e José Quirino.

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