Conteúdos devem ser excluídos pelas redes sociais? Veja o que pensam os brasileiros
Quase oito em cada dez entrevistados dizem que empresas devem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados em suas plataformas digitais
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Uma pesquisa feita em todo o País demonstrou que o brasileiro apoia tanto a criação de regras para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais como que empresas devem monitorar os conteúdos compartilhados em suas plataformas digitais e excluir conteúdos ilegais ou criminosos. Quase oito em cada dez entrevistados dizem que empresas devem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados em suas plataformas digitais.
A pesquisa, feita pelo Instituto Locomotiva, realizou entrevistas digitais com 1.500 pessoas maiores de 18 anos de 11 a 14 de agosto. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos.
Na primeira parte, os entrevistados discorreram sobre a exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais e a necessidade de regras para proteger esse público:
- 85% concordam que é importante haver uma legislação que regule as redes sociais para proteger crianças e adolescentes;
- 7% discordam;
- 8% não concordam nem discordam.
O debate sobre a proteção de crianças e adolescentes nas plataformas digitais foi impulsionado pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, de 27 anos, que tem mais de 14 milhões de seguidores nas redes sociais. Em 6 de agosto ele publicou um vídeo denunciando a “adultização” de crianças, que repercutiu tanto que fez o Congresso Nacional acelerar a votação de um projeto de lei que tenta proteger crianças e adolescentes de exposição na internet. O projeto foi aprovado no Senado na quarta-feira, 27, e agora deve ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para 82% dos entrevistados, atualmente as redes sociais deixam crianças e adolescentes muito expostos; 15% acham que estão sendo um pouco expostos e 3% acham que não estão sendo expostos.
Para 81% dos pesquisados, crianças e adolescentes estão vulneráveis sem a regulação das redes sociais; 9% acham que não, e 10% não concordam nem discordam.
Para 70% do público entrevistado, é preciso criar regras específicas para proteger crianças e adolescentes. Entre eleitores de esquerda, essa proporção sobe para 78%. Outros 30% acham que cabe aos pais cuidar do que crianças e adolescentes acessam nas redes sociais, sem precisar de regras legais. Entre eleitores de direita, esse índice sobe para 43%.
Os pesquisadores perguntaram quais os efeitos mais frequentes da exposição de imagens e vídeos de crianças e adolescentes nas redes sociais, e 71% dos entrevistados acreditam que essa exposição produz falta de segurança. Outros 63% afirmam que aumenta o risco de crimes cibernéticos, e a mesma proporção avalia que aumenta o risco de transtornos mentais.
“Quando o assunto é proteção de crianças e adolescentes, o consenso é amplo. A população enxerga a exposição de jovens como um risco real e imediato, e defende que o Brasil estabeleça regras específicas para reduzir essa vulnerabilidade. Estamos falando de um pacto social: proteger quem ainda não tem condições de se proteger sozinho”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
Responsabilidade pela publicação de conteúdos
Na segunda parte da pesquisa, os entrevistados responderam cinco perguntas sobre a responsabilidade pela publicação de conteúdos nas redes sociais, independentemente do público atingido. Para 84% das pessoas, as empresas devem monitorar conteúdos compartilhados em suas redes sociais; 6% acham que não devem, e 10% não têm opinião.
Para 16% dos entrevistados, ao excluir conteúdos ilegais ou criminosos, as empresas estão impactando a liberdade de expressão dos usuários. Entre eleitores de direita, essa proporção sobe para 21%.
Para 78% dos entrevistados, as empresas devem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados em suas plataformas digitais. Esse índice sobe para 84% entre mulheres e 82% entre eleitores de esquerda.
Para 22% do público, as empresas não têm nenhuma responsabilidade sobre os conteúdos publicados em suas plataformas. Essa proporção é maior entre eleitores de direita (32%) e entre homens (29%).
“O debate sobre a regulação das redes sociais já saiu dos gabinetes e chegou às ruas. Oito em cada dez brasileiros apoiam a criação de regras para o ambiente digital, mostrando que a sociedade demanda um espaço onde a liberdade de expressão caminhe lado a lado com a responsabilidade”, afirma Meirelles.
Para o presidente do Instituto Locomotiva, é preciso mobilização para explicar à sociedade que regulação não é censura. “Essa quase unanimidade é combustível, mas ainda precisa virar motor. Se os defensores da regulação conseguirem mostrar com clareza que o algoritmo tira o volante das mãos do usuário, a conversa deixa de ser ‘censura’ e passa a ser liberdade — liberdade de escolha, de controle e de proteção da infância. Algoritmo que decide por você não é liberdade, é tutela. Sem regra, o feed vira roleta viciada em indignação", afirma.
“Regulação não é mordaça, é cinto de segurança no banco de trás da internet. Aí, a pressão deixa de ser difusa e vira pauta concreta no Congresso: pai, mãe, escola, médico e igreja pedindo o óbvio: dever de cuidado com crianças e transparência no funcionamento dos sistemas. Unanimidade desmobilizada é estatística; mobilizada é política pública”, diz Meirelles.
Para ele, mesmo a pressão das big techs e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a regulação pode ser superada pela mobilização: “As big techs têm lobby pesado e o barulho do Trump ajuda a travar o jogo, mas parlamento reage a custo político — e custo político nasce de mobilização. Quando a sociedade entende que há lucro em cima de coisa ilegal, o senso moral acorda. Quando uma plataforma lucra com conteúdo ilegal, ela se comporta como um ‘traficante digital’. Quem lucra com o crime vira sócio do crime."
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