Céu de município na Serra Gaúcha fica roxo e intriga especialistas
Um fenômeno intrigante, comparado ao da aurora boreal, foi avistado nesta semana em Cambará do Sul, na serra do Rio Grande do Sul. Os registros foram feitos pelo fotógrafo Egon Filter e citados no site SpaceWeather, referência na divulgação de dados sobre o monitoramento de condições no espaço que afetam a Terra.
Em entrevista ao Estadão, Filter diz que o fenômeno que pintou de roxo o céu da Serra Gaúcha na terça-feira, 20, poderia ser comparável a uma aurora austral, quando a aurora é visível no hemisfério Sul. A razão que o faz acreditar que, de fato, tenha ocorrido uma aurora é o registro do evento após uma tempestade solar intensa, que vinha sendo acompanhada por especialistas.
“Acompanho a climatologia solar e a tempestade estava prevista; soube no dia 18 de janeiro que ela iria ocorrer e já vinha me preparando para fotografar”, afirma.
Outra possibilidade levantada é que o fenômeno poderia ser um SAR (Stable Auroral Red): “São fenômenos parecidos visualmente”, diz Filter. “Enquanto a aurora dura poucos minutos, o SAR fica estável por muitas horas; o registro foi feito nos minutos finais do evento, por isso a dúvida sobre um ou outro.”
Já Carlos Fernando Jung, fundador do observatório Heller & Jung, em Taquara, município no Rio Grande do Sul, afirma que o episódio poderia ser um exemplo de "airglow", efeito óptico causado pela colisão de átomos na atmosfera após eventos como tempestades magnéticas e ventos solares.
“O airglow tem intensidade menor e a cor mais dissipada no céu. Não dá para afirmar com certeza, mas o fato é que se trata de um fenômeno importante e cientificamente relevante para nós gaúchos”, diz Jung.
Filter descarta essa hipótese: “Não acho que seja airglow, que aparece com uma faixa baixa no horizonte e não como uma massa que cobre o céu de maneira mais homogênea. Visualmente, o airglow é totalmente diferente de uma aurora”.
Segundo Filter, pesquisadores da Coordenação Espacial do Sul, do do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), estão analisando os dados para checar se o evento foi SAR ou uma aurora.
O professor e diretor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thiago Signorini Gonçalves também aponta possibilidades.
“A hipótese da aurora seria mais consistente pelo que estamos estudando, apesar de pouco provável, uma vez que nenhum instrumento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais registrou nenhum tipo de anomalia magnética, o que provocaria as auroras”, relata o especialista.
“Outra possibilidade é que tenha ocorrido um Stable Auroral Red Arc, um arco causado pelo aquecimento dos átomos na ionosfera a partir da interação com uma tempestade solar com o campo magnético da Terra, um fenômeno um pouco mais raro, mas que talvez explique o ocorrido no Rio Grande do Sul”, comenta Gonçalves.
A hipótese do airglow é a única descartada por Gonçalves, por conta do formato do evento no céu.
“Sem uma avaliação mais rigorosa feita por instrumentos, do ponto de vista científico, é difícil determinar categoricamente o que houve”, explica o diretor. “O que sabemos é que houve recentemente uma emissão solar muito intensa e que é difícil avaliar um fenômeno apenas com base em imagens.”
Aurora austral já foi vista no Brasil?
O relato mais sólido e documentado de uma aurora austral no Brasil é conhecido com “O evento de Carrington”, ocorrido em 1859 no Rio de Janeiro e que estaria relacionado à maior tempestade solar já registrada na história moderna.
Segundo o documento, as auroras, geralmente restritas aos polos, teriam “escorrido” em direção ao Equador. Relatos da época descreviam o céu do Rio de Janeiro tingido de um vermelho “profundo e brilhante”.
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