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"Bebi urina para me salvar", conta pescador que foi salvo após naufrágio

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Cidades

"Bebi urina para me salvar", conta pescador que foi salvo após naufrágio


Passar dois dias com frio e sem comida não abalaram a esperança do pescador Waldeck Lima da Silva, de 60 anos. Foi à deriva no mar, onde tira o sustento da família há mais de 40 anos, que “Cutia”, como é conhecido, enfrentou o momento mais desesperador da vida dele.

Ele estava com outros dois pescadores e ficaram desaparecidos desde a última quinta-feira após o barco onde estavam sofrer um acidente a menos de 10 milhas náuticas (20 km) de Vila Velha. Um quarto tripulante, Gildázio de Jesus Santos, de 54 anos, segue desaparecido.

Waldeck se salvou segurando num bote que estava de cabeça para baixo (Foto: Kadidja Fernandes/ AT)Waldeck se salvou segurando num bote que estava de cabeça para baixo (Foto: Kadidja Fernandes/ AT)

De Vila Velha, local onde o barco se acidentou na quinta-feira, o trio ficou à deriva no mar e se salvou segurando num bote que estava de cabeça para baixo e alguns destroços da embarcação, até serem levados pelo mar por cerca de 40 milhas, e chegar na reserva ambiental de Comboios, em Barra do Riacho, Aracruz, no sábado (15).

“A primeira coisa que fizemos quando chegamos na areia da praia foi se ajoelhar e rezar, agradecer por chegarmos até ali vivos. Tive fé o tempo todo”, disse o mestre da embarcação, devoto de Nossa Senhora da Ajuda.

Bárbara Nascimento, 19 anos, filha de Cutia, relembra que familiares e amigos promoveram buscas por conta própria.

“Dois barcos de amigos saíram às 4 horas de sábado para ir atrás deles e encontraram os destroços do barco. Poucas horas depois chegou a informação de que eles haviam sido encontrados em Aracruz”, diz a jovem.

Pescador há mais de 40 anos, Cutia afirma que nunca passou por algo parecido. Apesar do trauma, ele disse que não vai abandonar a vida no mar.

“Tiro o sustento da minha família da pesca. Vou dar um tempo, mas em breve eu terei de voltar. Trabalhei a vida inteira para os outros, e pela primeira vez eu tinha o meu próprio barco. Comprei ele em sociedade há uns quatro anos apenas. Ainda faltavam R$ 15 mil para pagar. Perdi tudo ali, vou ter de começar do zero”, revelou.

Ele garante que o acidente foi uma fatalidade, e que a embarcação, chamada de Petrel, estava preparada e regularizada. “Tinha todos os equipamentos de segurança. Tinha duas bombas elétricas e uma de porão, manutenções todas em dia. Foi uma fatalidade”.

Waldeck Lima da Silva, 60 anos, o “Cutia”, era o mestre do barco que naufragou nas proximidades de Vila Velha e ficou desaparecido desde a última quinta-feira (13), e foi encontrado em na reserva ambiental de Comboios, em Barra do Riacho, Aracruz, no sábado.

A Tribuna – O que aconteceu no dia do acidente?

Waldeck Lima – Saímos de Vitória e estávamos há 12 dias no mar. Era a primeira vez que saí com esse grupo. A gente só se conhecia de vista, mas eu sabia que eram todos profissionais. Na quinta (13), estávamos voltando, o mar estava calmo quando ouvimos um estrondo no fundo do barco por volta das 10h. Em 5 minutos ouvi um barulho na casa de máquina, era a serpentina que havia arrancado o alternador. Olhei e já estava cheio de água. Como o fio do rádio era comprido, conseguimos puxar e fazer contato com a Marinha. Mas em pouco tempo a água tomou conta.

Quando foi a última vez que vocês viram o Gildázio?

Assim que percebemos que a água começou a entrar no barco, ele se desesperou e se jogou no mar segurando em um galão vazio de óleo para ficar boiando. Gritei para ele não fazer isso. Em 20 minutos já não vimos mais ele.

O barco logo afundou?

Conseguimos permanecer no barco até as 5 horas da tarde, parados, no mesmo lugar, mas aí ele virou. O bote que iriamos entrar também virou, então tivemos que ficar agarrados no fundo dele, que é liso, ruim de segurar direito.

Qual foi o pior momento?

A madrugada. Contei umas nove vezes que o mar jogava a gente fora do bote, até os coletes ele arrancou. Depois de passar o dia inteiro ali, avistamos a praia à noite, e tentamos nadar até lá, mesmo debilitados. Até que por volta das 20h30 chegamos na areia. Só depois que fomos perceber que o mar tinha levada a gente umas 40 milhas.

O que vocês fizeram após chegar na praia?

Estava muito escuro e deserto. Eu sabia que tínhamos de andar para o Sul. Após algumas horas, paramos para dormir. Estávamos molhados e o frio da madrugada foi outro momento terrível. Até que pela manhã, avistamos o rapaz do Ibama que trabalhava na reserva, e ele já estava sabendo do nosso desaparecimento.

Vocês ficaram quando tempo sem se alimentar?

A última refeição foi o café da manhã de quinta, e depois só fomos comer no sábado pela manhã, na casa do rapaz que nos deu abrigo. Bebi minha própria urina para me salvar.


ENTENDA


O acidente

  • O barco saiu da Enseada do Suá, em Vitória, com quatro pescadores, no dia 1º de maio e estava voltando, na quinta-feira (13), quando algo se chocou com o fundo do barco.
  • Os pescadores comunicaram via rádio com a Capitania dos Portos avisando sobre os problemas quando estava a cerca de 20 quilômetros da Praia de Itapuã, em Vila Velha.

À deriva

  • Um tripulante, Gildázio de Jesus, 54 anos, segundo os outros pescadores, se jogou ao mar assim que o barco começou a encher de água, enquanto os demais seguiram em cima da embarcação, que depois afundou. Ele está desaparecido.
  • Os três chegaram até uma praia, em Aracruz, após passarem quase dois dias agarrados a destroços.

Resgate

  • Na praia, eles foram socorridos na manhã seguinte por um funcionário do Ibama.

Fonte: Capitania dos Portos e pescadores.