Espécies de flores encontradas no Espírito Santo são vendidas por até R$ 20 mil
Cultivo de flores impulsiona renda no campo capixaba, mas espécies raras enfrentam risco com retirada ilegal e ameaças à conservação
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O cultivo de flores no Espírito Santo tem se mostrado uma atividade com grande potencial e uma alternativa de criação de renda às famílias que vivem no meio rural.
Espécies encontradas no Estado que são raras, inclusive em risco de extinção, já chegaram a ser vendidas por até R$ 20 mil.
O Estado destaca-se nacionalmente pelo pioneirismo na produção de orquídeas desde 1950, em função de um rico acervo de material genético natural e da organização dos produtores.
O botânico e especialista em flora ameaçada Cláudio Nicoletti de Fraga explicou que a orquídea Cattleya schilleriana é uma das espécies mais ameaçadas, tendo sido muito retirada da natureza.
“A espécie é encontrada do Sul da Bahia até a divisa com o Rio de Janeiro. Foi muito buscada pelo ser humano, sendo vendida por altos valores em anos anteriores, e até exportada”, relatou.
Os valores chegaram a até entre R$ 10 mil e R$ 20 mil, por exemplo. Outra espécie que ficou ameaçada com a busca na natureza é a orquídea Cattleya warneri, disse o botânico.
Bromélias como a Porto-seguro (Aechmea blanchetiana) e Vriesea hieroglyphica também estão em extinção após grande retirada pelos humanos para ser comercializada.
A floricultura ocupa cerca de 163 hectares em municípios capixabas, com 900 agricultores envolvidos no cultivo, o que cria mais de 8 mil empregos na cadeia produtiva e movimenta mais de R$ 10 milhões por ano.
Entre os principais produtores de flores estão Santa Teresa, Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante, Guaçuí, Marechal Floriano, Santa Maria de Jetibá, Iúna, Santa Leopoldina, Linhares, Baixo Guandu, Laranja da Terra, Anchieta, Fundão, Ibiraçu e Alfredo Chaves, segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper).
Extensionista do Incaper, Felipe Gonzaga Maia, destacou o trabalho feito junto aos produtores.
“A gente tenta vir primeiro a propriedade, orientar o produtor, tentar entender o contexto, se já tem abertura de mercado, explicar as dificuldades do plantio e da comercialização e a partir daí a gente começa fazer o trabalho”.
A partir desta movimentação, produtores ampliam a produção de rosas e suculentes em regiões com clima mais quente, como municípios na região Norte.
Os números:
900 produtores de flores tem atualmente o Espírito Santo
10 milhões de reais por ano movimenta o mercado de flores
163 hectares é a área ocupada para a produção de flores
Exemplos de espécies raras e que estão ameaçadas
Orquídeas
Cattleya schilleriana
A Cattleya schilleriana é uma espécie brasileira encontrada no Espírito Santo, do Sul da Bahia até a região da divisa com o estado do Rio de Janeiro, com risco extremamente alto de extinção na natureza, sendo uma das espécies mais ameaçadas. Isso por conta a busca do ser humano pela espécie de orquídea, retirando de forma ilegal da natureza e até exportadas.
Cattleya warneri
Outra orquídea que vale destacar é a Cattleya warneri. É uma espécie também nativa do Estado, que chama a atenção pelo seu tamanho e, principalmente, pela beleza, num domínio absoluto no reino da flora local. Normalmente, em outubro, enfeita orquidários, alguns pomares de propriedades rurais e matas montanhosas com as flores na cor lilás.
Bromélias
Bromélia porto-seguro
A Aechmea blanchetiana (Bromélia porto-seguro) é uma espécie terrestre encontrada em áreas de restinga, na areia de praias, na região Norte do Estado, como em Itaúnas, e no Sul da Bahia. É a espécie mais ameaçada das restingas, sendo muito usada para paisagismo.
Vriesea hieroglyphica
Também muito ameaçada, a Vriesea hieroglyphica tem uma distribuição restrita, com populações muito pequenas em regiões serranas.
Antúrios
Philodendron spiritus-sancti
Espécie natural do Estado, só vive no topo de árvores altas e tem folhas estreitas e compridas, que formam “orelhas” no ponto de contato com as hastes.
Cactos
Coroa-de-frade
Conhecido como Coroa-de-frade, o Melocactus violaceus é uma planta de cerca de 20 centímetros. O Estado tem populações importantes da espécie, que é encontrada na areia de praias, ficando em áreas sempre expostas ao sol. É encontrado, por exemplo, no Parque Estadual de Itaúnas e no Parque Estadual Paulo César Vinha.
Batalha para evitar a retirada ilegal
Os especialistas relatam que faltam meios para reduzir a retirada ilegal de plantas da natureza e evitar que espécies sejam extintas.
O mestre e doutorando em Botânica pela Escola Nacional de Botânica Tropical do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Marcos de Freitas Mortara, explicou que orquídeas, cactos, e açucenas, tem espécies raras e ameaçadas de extinção, muitas vezes envolvidas em tráfico e coleta ilegal.
“Faltam projetos a nível nacional de produção em larga escala dessas espécies”, disse.
No caso da Philodendron spiritus-sancti, planta endêmica do Espírito Santo e criticamente ameaçada de extinção, foi feito projeto com foco na conservação da espécie, com compromisso de reintroduzir exemplares no habitat natural, e também reproduzir a espécie em escala comercial por meio da tecnologia de cultura de tecidos.
“O que aconteceu com o spiritus-sancti é uma vanguarda. A gente deveria fazer isso pra todas essas plantas raras de interesse ornamental. Produzir um monte de forma legalizada antes que a coleta ilegal aconteça”, afirmou.
O botânico e especialista em flora ameaçada Cláudio Nicoletti de Fraga destacou o conceito de “florestas vazias”, em que no Estado, muitas áreas de mata já não contam com determinadas espécies, pois já foram todas retiradas por ação humana.
“Não é respeitado o ciclo de vida da planta. E por mais que estejam, no mercado, no geral, a recuperação é lenta”, disse.
O especialista também destacou o importante papel dos parques estaduais como áreas de preservação de muitas destas espécies e a necessidade de manutenção da estrutura destas unidades de conservação. “Por exemplo, o cacto Coroa-de-frade é encontrado no Parque Estadual de Itaúnas, e em Setiba, no Parque Estadual Paulo César Vinha”, detalhou.
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