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Cacau “vira ouro” e passa a atrair o crime organizado no Equador

Redução da oferta na África fez preço do fruto disparar e chegar a R$ 50 mil a tonelada, afetando o mercado no país sul-americano


Imagem ilustrativa da imagem Cacau “vira ouro” e passa a atrair o crime organizado no Equador
Cacau tem peculiaridades no Equador, que é o 2º maior produtor do mundo e onde o governo não regula preços |  Foto: Dayana Souza - 05/03/2020

Julia Avellán pensou em abandonar a tradição familiar de plantar cacau, até que um “boom” inesperado nos preços internacionais a fez mudar de ideia, embora os olhos do crime organizado tenham recaído sobre os produtores.

Em uma fazenda repleta de cacaueiros, árvores que dão origem ao cacau, em Buena Fe, município na província de Los Ríos, no Equador, a mulher de 41 anos corta um dos frutos cujas sementes acumulam preços elevados desde 2023.

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Para se ter ideia, a tonelada do cacau chegou a custar US$ 10 mil (quase R$ 50 mil na cotação da época) em Nova Iorque pela primeira vez em março.

“Estes preços são históricos, nunca os tivemos”, afirma Iván Ontaneda, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Cacau do Equador (Anecacau), país no qual os pequenos produtores são responsáveis por 80% do total de frutas cultivadas em 22 das 24 províncias. A alta acontece principalmente pelo aumento da demanda mundial e pela redução na oferta da África Ocidental.

No Equador, onde o governo não regula os preços do cacau, os lucros são cada vez maiores. Este ano, Avellán conseguiu vender um quintal (45 quilos) por US$ 420 (R$ 2.280). Graças aos novos preços, ela conta que é possível tornar as famílias mais sustentáveis, ter melhores condições

“Agora o cacau é a semente do ouro”, comemora a agricultora, que herdou a profissão dos avós.

Depois da Costa do Marfim e da Gana, o país sul-americano é o terceiro maior produtor de cacau do mundo, com cerca de 420 mil toneladas por ano. Mas, nos últimos meses, a mudança climática e as doenças destruíram plantações na África, inclinando a balança financeira a favor do Equador.

No entanto, para os produtores, o boom do cacau é assombrado pela violência do crime. Los Ríos é uma das províncias mais violentas do Equador, com uma taxa de homicídios (111 a cada 100 mil habitantes) superior à de Guaias (que é 86), cuja capital é o perigoso porto comercial de Guayaquil, principal saída de drogas para Estados Unidos e Europa.

“Meus colegas foram sequestrados. Há pouco tempo, nem há oito dias, sequestraram um jovem, roubaram carros (caminhões carregados de cacau) de empresas”, conta Avellán.

Custo maior com segurança e queda no consumo

Segundo Marco Landívar, gerente de uma fábrica da exportadora Eco-kakao, as ameaças dos criminosos significam um aumento de custos na cadeia do cacau, uma vez que as cargas precisam ser transportadas com segurança privada.

Ele conta que as empresas do ramo gastaram cerca de US$ 20 milhões (cerca de R$ 108 milhões) em segurança em 2023. O sindicato da categoria também teme ainda que os criminosos contaminem seus carregamentos com cocaína.

Quase toda a produção é exportada e, em 2023, o cacau gerou US$ 1,3 bilhão (R$ 6,6 bilhões na época) para o país. Devido aos altos preços internacionais, entre janeiro e abril de 2024, o Equador já vendeu US$ 774 milhões (R$ 4,2 bilhões), segundo o Banco Central.

“A alta inesperada dos preços exige muito mais liquidez, que o setor exportador não tem neste momento. A quadruplicação dos preços do cacau teve impacto na indústria mundial, na moagem, na procura e finalmente no consumo de chocolate, principal derivado do fruto”, diz Landívar à AFP.

Segundo o presidente da Anecacau e outros analistas internacionais, o consumo de chocolate cairá drasticamente devido aos custos.

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