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A idade da pessoa é um encanto
Claudia Matarazzo
Claudia Matarazzo

Claudia Matarazzo


A idade da pessoa é um encanto

Atenção, leitor: se você é homem pode achar esse papo uma bobagem. Já, se é mulher, com mais de 40 anos, vai entender do que estou falando – e quem sabe se identificar.

Há mais de 10 anos, comecei a falar sobre a beleza de cabelos brancos – quando chegavam a essa cor naturalmente. Na época, divagava: dizia que a aparência fica mais leve, o prata empresta brilho e que o grisalho, na tonalidade certa, confere uma certa respeitabilidade, tanto para homens quanto para mulheres.

Não estava fazendo média: sou a única morena com cabelos escuros de uma família de loiros de olhos claros: a vida inteira quis saber como seria ter reflexos brilhantes.

Durante a pandemia, como muitas mulheres, fui deixando de tingir os cabelos, até que um belo dia, percebi uma grande mecha branca, que brilhava no espelho pela manhã, assim que eu o encarava...

Gostei. Hoje a cabeça está toda prateada com uma mecha branca acentuada. E eu feliz. Há dias que acordo mais cansada e me acho abatida, masssss... se estivesse de cabelos escuros estaria igualmente pálida e com as mesmas olheiras.

O prata me devolveu uma identidade que estava escondida: a da minha real idade. Sim, era bom ouvir de todos que eu parecia 10 anos mais jovem que meus 62 anos. Mas meu espírito anda neurastênico e impaciente – mais até do que minha mãe, impávida aos 91 anos.

Talvez por esse motivo não me importe quando as pessoas (na verdade apenas a patrulha familiar) me pedem insistentemente para voltar a escurecer os cabelos, alegando que “envelhece.”

Envelhecer é proibido – No Brasil, poucos respeitam a idade, massssss não é por isso que devemos fugir da palavra e do conceito como o diabo da cruz.

Chega a ser patético. Sou a terceira filha de quatro irmãos. Meu irmão e minha irmã – dois e quatro anos mais velhos, respectivamente, são os mais indignados com meu novo visual.

Todos os domingos, no almoço familiar, dizem que estou horrorosa, que isso envelhece e coisa e tal. Até que um dia deixaram escapar: “Essa cabeça branca está entregando a nossa idade”. Oi?! E eu com “a nossa idade”, cara-pálida?

Percebem o ridículo? Fiz uma pesquisa entre os 80 mil seguidores para provar a eles que a maioria aprovava a mudança e que era uma questão de Eu me sentir mais confortável, pois essa aparência me representa nesse momento. Ainda que nela eu pareça mais velha...

Bingo! Apenas 20% preferiam os cabelos escuros. Onde, caro leitor, está escrito que, aos 62 anos, com experiência de 62 anos (45 deles no batente), coluna de 62 anos e espírito momentaneamente combalido de 102 anos, eu devo parecer jovem?

Qual a vantagem de me debater para parecer um arremedo do que fui aos 18 anos – se estou me sentindo bem e confortável com essa aparência?

Tá achando o papo fútil? Eu também achava: até perceber o quanto me fez bem voltar a me encontrar com a Claudia verdadeira – que está batendo um bolão – e hoje não a trocaria pela mais jovem.

Detalhe: o marido, ítalo-brasileiro, sem papas na língua, respeitosamente não se pronunciou. Convivendo juntos há 33 anos, acho bom sinal. Portanto, viva a real idade! O resto é detalhe.
 

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