Idosos denunciam saques bancários e venda de imóveis por filhos e netos
O Dia Mundial da Conscientização da Violência Contra a Pessoa Idosa foi celebrado nesta terça-feira (15), mas nem todos têm motivos para comemorar a data, pois no lugar de amor e atenção muitos têm sido obrigados a conviver com decepção e medo.
Dispostos a dar um basta, idosos quebram o silêncio e denunciam saques bancários, venda de imóveis, maus-tratos, agressões, ameaças, entre outros crimes cometidos por filhos, netos, outros familiares e cuidadores.
A titular da Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso, delegada Milena Gireli, contou que este ano (até maio), foram registradas 585 ocorrências na Grande Vitória. No Estado, se considerar as denúncias feitas ao Disque 100 e Disque-Denúncia 181, o quantitativo passa a ser superior a 1,5 mil, somando as ocorrências na polícia.
A delegada revelou que o abuso financeiro, com saques com cartões dos idosos ou venda de bens por familiares são frequentes.
Uma situação que chegou à polícia é a de um neto, que cuida da “avó milionária”. “A família não consegue interditá-la, pois é lúcida, mas não tem controle financeiro. Seu patrimônio, que era muito alto, o neto já acabou com mais da metade, vendendo ou comprando coisas para ele”.
Outro caso denunciado é de um idoso de 66 anos que há cerca de três anos constituiu um dos filhos como seu procurador para administrar bens e resolver eventuais problemas com bancos e Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Passado um tempo, ele começou a ser vítima de maus-tratos pelo filho, que até 2020 ficava com o dinheiro da aposentadoria do pai (R$ 6 mil). “O filho privou o pai de alimentos e utensílios básicos, cortou o plano de saúde e o manteve isolado de seus familiares”, contou a advogada Rayane Vaz Rangel.
Diante das violências sofridas, o aposentado pediu socorro aos vizinhos, que entraram em contato com outro filho, que resgatou o pai.
“O meu cliente descobriu que o filho transferiu sem o seu consentimento um Fiat Siena e simulou uma compra e venda fraudulenta, assinando como comprador e vendedor. Foi registrado boletim de ocorrência. O caso está tramitando”.
Vergonha e medo fazem com que muitos se calem
Assim como nos casos de violência doméstica praticada contra a mulher, denunciar e até perceber os abusos sofridos não é fácil para os idosos. Muitas vezes, eles deixam de denunciar por vergonha, medo de ameaças ou até mesmo pela relação com o agressor.
A titular da Delegacia Especializada de Proteção ao Idoso (Depi), delegada Milena Gireli, disse que é comum o sentimento de vergonha.
Ela relatou que há denúncias que chegam e, na hora de verificar se são precedentes, a vítima é chamada para conversar. “Muitas vezes a gente ouve que a pessoa tem 75 anos e nunca tinha colocado os pés em uma delegacia. Para muitos isso é humilhante. A gente explica que a pessoa é uma vítima e que foi chamada lá para a gente conversar, para ver o que está acontecendo. Mas eles acham que delegacia não é lugar de gente do bem”.
A delegada contou que outro problema é o sentimento que muitas das vítimas têm. “Elas não querem denunciar quem amam, que muitas vezes é o filho, um neto. Assim como as situações de violência doméstica, você ama, e suporta o intolerável, até chegar a um ponto em que é preciso pedir ajuda”.
Milena Gireli enfatizou que no caso da pandemia, apesar das denúncias presenciais por parte dos idosos terem diminuído, a violência contra eles não foi reduzida.
“Os idosos preferem fazer as denúncias presencialmente. Como não estão podendo circular por medo da Covid-19, estão saindo menos. Outro fato observado na pandemia é que há relatos de idosos sendo abandonados em hospitais da rede pública e privada. Isso configura abandono de incapaz”.
A advogada especialista em Direito de Família e Sucessões Isabela Aigner afirmou que nesses casos de violência contra o idoso as vítimas têm o seu psicológico muito afetados. “Eles toleram muito, pois não querem prejudicar um filho ou familiar. Sofrem ameaças e até violência psicológica. Acham que ele vai mudar ou que está fazendo aquilo por estar sem emprego”.
Ela ressaltou que, em muitas situações, cabem pedidos de medida protetiva para que o agressor se mantenha afastado.
Números da violência
Principais queixas
Abuso financeiro
- Muitas vezes, as vítimas ficam sem o dinheiro da aposentadoria, sem remédios, assistência à saúde, alimentação adequada.
- Há situações em que os idosos são coagidos para assinar procurações, pegar empréstimos consignados, com desconto em folha, para quitar débitos ou comprar bens para filhos e netos. Além dos empréstimos, eles também acabam contraindo dívidas com financiamentos e cartões de crédito.
Maus-tratos e violência física
- Com o abuso financeiro, vêm também os maus-tratos. Falta de apetite ou perda de peso podem ser sinais de sofrimento físico ou emocional, bem como mudanças de humor e comportamento, hematomas frequentes, entre outros.
Injúria
- Às vezes o idoso é considerado um fardo para a família e passa a ser vítima de xingamentos. Entre os exemplos citados nas denúncias estão: “Você não presta para nada”. “É um peso, não faz mais nada, só gasta e não merece nem estar aqui”. “Podia morrer”.
Ameaças
- Vêm de várias formas, até mesmo para que o idoso não denuncie qualquer tipo de maus-tratos ou outros crimes, sob risco de ser abandonado ou agredido.
Canais para denunciar
- Ligação gratuita: 180 e 100
- Whatsapp: (61) 99656-5008
- Telegram: “DireitosHumanosBrasilBot”
- Aplicativo: Direitos Humanos Brasil
- Site: ouvidoria.mdh.gov.br
- Disque denúncia 181
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