“Canto a realidade da favela”, disse Mc Cabelinho
Sirenes, tiros, crianças brincando nas ruas e o coro da igreja fazem parte da trilha sonora das comunidades. E, no PPG, o conjunto das favelas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, no Rio, onde cresceu Victor Hugo Nascimento, mais conhecido por MC Cabelinho, não é diferente.
Mas, dentro da casa do artista de 24 anos, também era e é possível ouvir a poderosa voz de Amy Winehouse, uma de suas influências. A estrela, que morreu por intoxicação alcoólica em 2011, trazia sua verdade em músicas sobre seus romances conturbados. E é o que faz o carioca através de seu som: mostra as suas vivências.
“Sempre escutei Amy. Quando ela partiu, fiquei muito triste e passei a ouvir ainda mais o trabalho dela e a prestar mais atenção nas letras. Percebi que a voz dela era a mais original que já tinha ouvido e que as letras falam das situações que ela viveu nos relacionamentos. É como eu, que canto a realidade da favela, só que ela canta a 'real' do amor”, conta Cabelinho ao AT2.
Seu olhar sob o PPG e os sons que compõem a trilha sonora do lugar onde cresceu podem ser conferidos em “Ainda”, seu 1º disco. O CD de trap, rap e funk é dividido em três partes: as crônicas da vida urbana, em que os hits “Maré” e “Reflexo” estão inseridos, as canções de amor e as músicas de superação.
“A vivência na comunidade é muito rica”, garante ele, que voltará na 2ª fase de “Amor de Mãe” com o personagem Farula.
“Nossas escolhas nunca são por apenas um motivo”, Mc cabelinho - cantor e ator
AT2: É apresentado como um cronista da vida de favela. É assim mesmo que se sente?
MC CABELINHO: Total! Minhas letras são o que eu vejo acontecendo dentro das favelas. E a vivência na comunidade é muito rica! Você tem cultura, esporte, trabalhador, microempresário...
Tem muita dificuldade? Tem. Mas as lições que você aprende observando, vendo a luta do povo para vencer, é uma coisa que me inspira muito.
AT2: Foi criado no PPG, um conjunto de favelas do Rio. Teve uma vida simples?
MC CABELINHO: Tive uma vida simples no morro e com dificuldades. Acho que todo mundo no morro se sente simples e luta para crescer em alguma área. Eu, por exemplo, me descobri na música, mas tem gente que quer crescer no esporte, em outras áreas profissionais, e disso começa a ajudar a família... Vida em comunidade é assim, cheia de dificuldades, mas tem muita superação também.
AT2: Por que é importante para você trazer a sua vivência na favela para as músicas? Espera acabar com preconceitos?
MC CABELINHO: A música chega em qualquer lugar. Antes da pandemia, quando viajava para fazer shows, o meu trabalho já tinha tocado a mente e o coração da galera por algum motivo, seja letra, ritmo, produção... Elas se identificavam.
Eu não posso cantar algo que não vivo. Nem sei fazer isso. Tem gente que protesta fazendo posts nas redes sociais e que vai para a rua se manifestar, acho isso tudo muito legal, mas a minha melhor forma de passar a “visão” é através das minhas músicas.
AT2: A falta de oportunidades pode levar alguns a escolherem o caminho do crime, e você canta sobre a dupla identidade do traficante na canção “Maré”. Por que contar essa história?
MC CABELINHO: Porque é uma história real e que todos os dias acontece nas comunidades. Entrar para o crime é uma escolha ruim? É! Mas muitos ali estão por falta de oportunidade, de educação. Cadê o investimento em cultura e esporte dentro das comunidades? Tudo isso influencia.
Nossas escolhas nunca são por apenas um motivo, é um acumulado de um monte de coisas, de vivência, de experiências ruins e boas dentro da favela... É baseado nos aprendizados do passado que você toma as decisões no presente e vive as consequências lá no futuro.
AT2: Traz, em seu som, sirenes da polícia e coro de igreja. Como foi captar esses sons para o disco?
MC CABELINHO: Esses são os barulhos da favela, “tá ligado”? É sirene de polícia e de ambulância, onde “tu passa” tem um pessoal na igreja cantando, barulho de criança brincando na rua... Isso é a trilha sonora da favela e, de fundo, ainda tem o som das rajadas de tiros, infelizmente.
MC CABELINHO:Com certeza! Eu faço música para inspirar meus amigos e os mais novos também. Faço porque gosto? Sim, amo ser cantor, compositor, mas meu sonho mesmo é ver a favela vencendo. E, o que eu puder fazer para isso acontecer, vou fazer!
AT2: A música “Recaídas” foi gravada com a capixaba Budah. Como se deu essa parceria?
MC CABELINHO: Eu conheci a Budah pelo meu produtor, o DJ Juninho da Espanha. Ele veio com uma música dela, eu achei irada e pensei logo em convidar para uma parceria. Voz feminina não pode faltar. A gente tem que sempre lutar pelas “minas” também, abrir espaço para todo mundo.
AT2: Interpretou o personagem Farula na novela “Amor de Mãe”, da Globo, antes da paralisação das gravações. Atuar foi algo que planejou?
MC CABELINHO: A novela não foi planejada. Foi algo que aconteceu, chegou a oportunidade e eu abracei. Se surgirem outros convites, vou fundo, porque descobri que é uma coisa que gosto muito de fazer também.
AT2: Como foi ver as gravações de sua primeira novela serem interrompidas?
MC CABELINHO: Fácil? Não foi, né? Mas a gente entende e fiquei feliz também pela decisão da emissora de parar tudo.
SERVIÇO:
“Ainda”
Artista: MC Cabelinho
Faixas: 13
Gravadora: Independente
Preço: R$ 17,90 (digital)
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