Quilombo em Santa Leopoldina oferece pratos típicos com sabores inusitados
Mingau de puba, mondongo de banana-verde, café de caldo de cana e broa de melado contam a história e a resistência do Quilombo Retiro
A gastronomia do Quilombo Retiro, em Santa Leopoldina, guarda sabores que surpreendem pela combinação de ingredientes pouco convencionais. Além disso, nos pratos preparados pela comunidade, alimentos e modos de fazer tradicionais revelam parte da história e da identidade cultural dos quilombolas.
Um dos mais curiosos é o mingau de puba, que tem um sabor bem marcante. Isso acontece pois a mandioca utilizada no preparo precisa estar podre, o que torna o gosto mais amargo. Ela passa três dias dentro de um saco, submerso no rio, para acelerar o processo de apodrecimento.
“A mandioca é um alimento que tínhamos com maior facilidade no quilombo. Então nós buscamos aproveitá-la ao máximo, até sua última possibilidade”, explica Jumara Santos, integrante da Associação Quilombola dos Herdeiros do Benvindo Pereira dos Anjos.
Ela explica que o mingau de puba era consumido por seus avós, ex-escravizados. “Pelo prato, nós conseguimos entender como era difícil, naquela época, o acesso aos alimentos. Por isso, eles arrumaram uma alternativa, que foi desenvolver uma maneira de consumir a mandioca quando já estava dada como perdida”.
O consumo do mingau não é feito durante o almoço ou janta. Jumara conta que a receita é preparada para lanches, como os que são feitos pela manhã e à tarde, junto com um bom café.
O mondongo de banana é outro prato muito presente na mesa da comunidade do Retiro. Trata-se de um prato preparado com outro ingrediente inusitado: a banana-verde, que é cortada em rodelas ou cubos, acompanhada de carnes salgadas ou defumadas, como carne-seca, carne de sol ou linguiça. A combinação resulta em um cozido de sabor marcante, semelhante ao feijão, que une ingredientes do cotidiano em uma preparação salgada.
Jumara conta que todas essas receitas foram passadas entre gerações. “Eu aprendi a cozinhar com minha mãe e ela aprendeu com a mãe dela. Hoje eu ensino tudo isso para as minhas filhas, que precisam entender, praticar e passar para os filhos delas futuramente”, destaca.
Outra tradição quilombola é o café de caldo de cana. A diferença desse para o tradicional é que esse café é coado com caldo de cana e não precisa ser adoçado.
Alguns pratos típicos
Mingau de puba
Preparado a partir da puba, massa obtida pela fermentação da mandioca, é uma receita de consistência cremosa. O prato é salgado e leva água, sal, pimenta e coentro.
Mondongo de banana
Também conhecido como pitaca de banana-verde, é uma preparação semelhante a um cozido ou ensopado, feita com a fruta ainda verde.
Godó de banana
É uma preparação feita com banana-verde, geralmente banana-da-terra, cozida com temperos como alho, cebola, coentro e pimenta. Algumas versões levam carnes.
Curau de milho-verde
Doce cremoso feito com milho-verde ralado ou triturado, leite e açúcar. Mistura tem consistência de mingau.
Frango no mingau de fubá
Preparação que combina pedaços de frango cozidos e temperados com um mingau de fubá, feito à base de farinha de milho e água.
Broa de melado
Receita da culinária quilombola capixaba, a broa de melado utiliza o caldo concentrado da cana-de-açúcar para conferir sabor adocicado à massa.
Tradição das benzedeiras
O Quilombo Retiro guarda mais uma história para contar: a da Marcelia Santos. Uma mulher com as mãos cheias de um dom que o pai deixou de herança: a fé. Com um ramo nas mãos, uma reza baixa e o sinal da cruz, ela mantém viva a tradição do benzimento.
Essa tradição nasceu de três raízes que se cruzaram: a reza, que vem do catolicismo popular; o saber das ervas, que vem dos povos indígenas, e os gestos de proteção, que vêm da ancestralidade africana.
“Faço isso desde os 8 anos, quando meu pai faleceu. Antes dele, minha avó benzia e assim por diante, durante as gerações da minha família”, conta Marcelia.
O benzimento conecta Marcelia com o pai até hoje, anos depois dele ter falecido. “Eu vejo ele em tudo, cada pequena coisa tem conexão com ele e com o que me ensinou”, pontua.
A presença das benzedeiras nos quilombos está relacionada à preservação e à transmissão de conhecimentos tradicionais construídos a partir da ancestralidade africana, das práticas indígenas e das experiências desenvolvidas pelas próprias comunidades ao longo das gerações.
Por meio de orações, rezas, ervas medicinais e outros rituais, os benzedeiros passaram a desempenhar um papel importante no cuidado com a saúde física e espiritual dos moradores, especialmente em contextos nos quais o acesso aos serviços médicos era limitado.
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