Gases de efeito estufa atingem níveis sem precedentes, diz ONU
Substâncias aprisionam o calor na Terra, mais do que os sistemas naturais são capazes de compensar ou suportar
Os gases de efeito estufa atingiram níveis sem precedentes na atmosfera em 2025, segundo relatório anual da Organização Mundial de Meteorologia (OMM), divulgado nesta terça-feira (27). São essas substâncias que aprisionam o calor na Terra, mais do que os sistemas naturais são capazes de compensar ou suportar.
Uma dinâmica descrita pelos cientistas como forçamento radiativo, a diferença entre a energia solar que a Terra absorve e a energia térmica que ela irradia de volta para o espaço. Historicamente, o dióxido de carbono é responsável por 66% desse desbalanço.
Em 2025, a concentração média de CO₂ na superfície terrestre chegou a 426,8 partes por milhão, número que soa tão abstrato como dizer que equivale a 153% da base de comparação, o período pré-industrial, em 1750. Seus efeitos, porém, estão cada vez mais palpáveis.
O planeta já caminha para um "overshoot", trajetória de aquecimento acima do limite de 1,5°C preconizado pelo Acordo de Paris, agravando eventos extremos e gerando inúmeros desafios econômicos, políticos e sociais.
"Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados, e essa tendência deve continuar. O CO₂ tem uma vida muito longa e, portanto, afetará o clima global não apenas por anos, mas por décadas e até mesmo séculos", diz a vice-secretária-geral da OMM, Ko Barrett.
O Boletim de Gases do Efeito Estufa, publicado desde 2004 pela OMM, braço da ONU para clima, meteorologia e recursos hídricos, mostra que o ritmo de concentração de CO₂ na atmosfera triplicou desde os anos 1960.
O incremento anual do gás saltou de 0,8 ppm para 2,4 ppm na década passada. De 2024 a 2025, a taxa foi de 2,8 ppm, ligeiramente menor do que a do período 2023/2024, marcado pelo último El Niño.
"Essa taxa de crescimento mais modesta reflete a recuperação dos sumidouros de carbono terrestres e a redução das emissões decorrentes de incêndios após o fenômeno", explica Oksana Tarasova, responsável pela rede global de monitoramento do gás na OMM.
"Podemos esperar um novo aumento nas concentrações neste ano devido à queima de combustíveis fósseis e ao desenvolvimento de um novo El Niño forte, que afetará os sumidouros, como ocorreu há três anos", afirma a cientista.
"Os riscos de redução da absorção de CO₂ pelos oceanos também estão aumentando."
Cerca de metade do dióxido de carbono liberado na atmosfera é absorvida pelos sistemas naturais da Terra. A mudança climática, provocada sobretudo pela queima de petróleo, carvão e gás, acelera a degeneração de diversos desses ecossistemas, diminuindo a eficiência global do processo, em uma espécie de círculo vicioso.
No atual ritmo de emissões, o planeta chegará a 2100 com 2,8°C de aquecimento. Na semana passada, a ONU reconheceu a inevitabilidade do "overshoot", mas mostrou que uma transição energética acelerada e a remoção de CO₂ da atmosfera poderiam devolver o planeta ao 1,5°C de aquecimento no fim do século.
Um atalho para essa operação seria cortar as emissões de metano, que responde por um terço do aumento global de temperatura e 16% do forçamento radiativo.
No ano passado, a concentração de CH₄ na atmosfera era 1.948 partes por bilhão, equivalente a 267% do estimado para o período pré-industrial.
Cerca de 60% das emissões atuais de metano são produto da atividade humana. Desse universo, 40% é gerado pela agropecuária, 35% na produção, transporte e consumo de combustíveis fósseis e 20% no manejo de resíduos orgânicos. Em todas essas áreas é possível cortar as emissões e, em alguns casos, até zerá-las.
Já o óxido nitroso, terceiro mais importante gás de efeito estufa, responsável por 6% do forçamento radiativo, alcançou uma concentração de 339,1 ppb em 2025, ou 126% do nível pré-industrial. O N₂O, além de emissões naturais, é subproduto da queima de biomassa, do uso de fertilizantes e de vários processos industriais.
O boletim da OMM alerta também para a necessidade de monitoramento de dois gases de uso crescente na transição energética.
O hexafluoreto de enxofre, cerca de 23 mil vezes mais potente que o CO₂, é apontado como o pior gás do efeito estufa e teve aumento recorde na atmosfera em 2025. O SF₆ é usado na fabricação de componentes de motores elétricos, como isolantes de cabos e baterias, e também semicondutores para smartphones.
Outro gás que começa a gerar preocupação é o hidrogênio, cuja concentração subiu 5,3% de 2010 a 2024. Chamado de combustível do futuro, com diversas aplicações, não é um gás de efeito estufa, mas influencia a química atmosférica, com forte efeito indireto sobre o aquecimento global.
"Tanto o vazamento de H₂ quanto a persistência do SF₆ representam ameaças potenciais que poderiam comprometer os benefícios climáticos da transição energética", afirma o boletim. "O monitoramento cuidadoso da composição da atmosfera terrestre é essencial para detectar, compreender e prevenir consequências indesejadas dessas mudanças."
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