Carta de bispos alerta católicos sobre responsabilidades no voto do 2º turno
Documento de 64 bispos católicos critica armas, autoritarismo e ameaça à democracia.
Um grupo de 64 bispos católicos de 21 estados brasileiros divulgou uma carta dirigida aos fiéis sobre o segundo turno das eleições presidenciais de 2026. O texto, intitulado “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, não cita nominalmente os candidatos, mas faz alertas sobre a proliferação de armas e o risco de ameaça à democracia.
Sem mencionar de forma direta o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ou o candidato Lula (PT), a carta afirma que uma das candidaturas representa ameaça a pontos centrais da Doutrina Social da Igreja (DSI), à democracia, à soberania nacional e ao bem comum. O texto busca orientar a decisão do eleitorado católico a partir dos ensinamentos sociais da Igreja.
Advertência sobre candidatura que ameaça democracia
No documento, os bispos afirmam que o cenário eleitoral é grave e que uma das candidaturas ameaça frontalmente princípios essenciais da DSI, associando o momento a experiências autoritárias do século XX. A carta destaca que a escolha vai além de uma disputa eleitoral comum e pode significar uma mudança profunda nos rumos do país.
"O cenário é muito grave, pois uma das candidaturas ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum"
O texto também afirma que não se trata apenas de mais uma eleição, mas de uma decisão com potencial de alterar de forma profunda o caminho da nação, evocando exemplos históricos do século XX que deixaram “cruéis e amargas lembranças”.
Críticas a armas, submissão externa e políticas sociais
A carta aponta como problema a proposta de ampliação do acesso a armas de fogo, sem citar nomes, mas fazendo referência a políticas já adotadas em governo anterior.
"[...]um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo"
O texto menciona ainda que uma das candidaturas defende submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA), teria participado de conspiração para taxar produtos brasileiros, apoiaria intervenção estrangeira em eleições nacionais e prometeria entregar terras raras brasileiras à exploração externa.
Os bispos citam documentos da Igreja para criticar posições que, segundo eles, minimizam as causas da pobreza, apostam exclusivamente na liberdade de mercado e se colocam historicamente contra programas sociais e políticas de combate à miséria. A carta sustenta que essa postura contraria a “opção preferencial pelos pobres” reafirmada em textos da Igreja.
Denúncia de devastação ambiental e defesa do desarmamento
No campo ambiental, o documento reforça o cuidado com a Ecologia Integral e critica o que descreve como negação da crise climática e continuidade de políticas de devastação. Os bispos mencionam que um dos candidatos quer manter medidas associadas ao governo de seu pai e à atuação de seu partido no Congresso, citando a chamada “Lei da Devastação” (nº 15.190/2025).
A carta também lembra que a DSI defende o desarmamento e alerta que o aumento de armas representa “ameaça grave” à estabilidade e à paz. Nesse contexto, volta a apontar que um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, repetindo políticas adotadas anteriormente.
Referências à tortura e risco de usurpação de poder
O documento condena qualquer defesa da tortura e recorda que um dos candidatos, de forma pública, teria se posicionado a favor desse tipo de prática, além de ter familiares que fizeram homenagens ao general Brilhante Ustra, identificado como torturador durante a ditadura brasileira.
Os bispos também mencionam que este candidato é filho de um ex-presidente condenado e preso por atentar contra a democracia e que fez declarações de ameaça à ordem constitucional. Eles afirmam que, caso eleito, ele governaria com maioria absoluta no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF), o que poderia criar condições para usurpação de poder e submissão do país a uma ideologia.
Comparação entre candidaturas e apelo ao voto
Por outro lado, a carta afirma que a outra candidatura, embora passível de críticas, teria atuado dentro dos limites da ordem democrática, manifestado responsabilidade com os pobres e com o cuidado com a Casa Comum, respeitando a Constituição. Segundo o texto, desgosto com o atual governo não deveria servir de motivo para entregar o país a um projeto considerado incompatível com os ensinamentos da Igreja.
Os bispos dizem que não podem permanecer neutros sob risco de, no futuro, serem julgados pela própria consciência ou pela história. Eles fazem referência a quem se calou diante de ameaças totalitárias na Europa do século XX e conclamam os católicos a comparecerem às urnas no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos da Igreja.
Posicionamento da CNBB e número de bispos no país
A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota em que reforça sua posição em defesa da Constituição, do Estado Democrático de Direito, do respeito aos resultados das urnas e da participação consciente dos eleitores no segundo turno.
A entidade não comentou especificamente o conteúdo da carta dos 64 bispos, mas ressaltou que somente a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência podem falar oficialmente em nome da CNBB. O Brasil tem atualmente 498 bispos católicos.
Trechos da carta divulgada pelos bispos
A carta, intitulada “CARTA DE BISPOS CATÓLICOS AO POVO DE DEUS DIANTE DO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2026”, é datada de 22 de outubro de 2026 e cita trechos de encíclicas, documentos e exortações apostólicas para embasar a posição dos bispos.
"O Senhor Deus falou, quem não profetizará? (Am 3,8) O papa Leão XIV, em sua encíclica Magnifica Humanitas, diz: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’” (216)."
Ao longo do texto, os bispos afirmam que o anúncio do Evangelho não pode ignorar a vida concreta dos povos e que católicos devem exercer sua cidadania inspirados pela DSI, deixando que o Evangelho ilumine a avaliação de estruturas econômicas e políticas.
Assinaturas de bispos de vários estados
O documento é assinado por bispos de diferentes regiões do país, entre eles:
- Dom Adolfo Zon Pereira, SX, Bispo da Diocese do Alto Solimões (AM);
- Dom Adriano Ciocca Vasino, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT);
- Dom Benedito Araújo, Diocese de Campo Maior (PI);
- Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos, Bispo da Prelazia de Itacoatiara (AM);
- Dom Edson Damian, Bispo Emérito de São Gabriel da Cachoeira (AM);
- Dom Egidio Bisol, Bispo Emérito da Diocese de Afogados da Ingazeira (PE);
- Dom Evaldo Carvalho dos Santos, Bispo da Diocese de Viana (MA);
- Dom Eugênio Rixen, Bispo Emérito de Goiás;
- Dom Evaristo Pascoal Spengler, Bispo da Diocese de Roraima;
- Dom Flavio Giovenale, Bispo da Diocese de Cruzeiro do Sul (AC);
- Dom Francisco Cota de Oliveira, Bispo da Diocese de Sete Lagoas (MG);
- Dom Frei Pedro Cesário Palma, OFMCap, Bispo de Jardim (MS);
- Dom Frei Samuel Ferreira de Lima, OFM, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus (AM);
- Dom Geraldo dos Reis Maia, Bispo da Diocese de Araçuaí (MG);
- Dom Giovane Pereira de Melo, Bispo de Araguaína (TO);
- Dom Giuseppe Luigi Spiga, Bispo da Diocese de Grajaú (MA);
- Dom Itacir Brassiani, Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul (RS);
- Dom João Batista de Oliveira, Bispo da Diocese de Corumbá (MS);
- Dom João Muniz Alves, OFM, Bispo da Diocese de Xingu-Altamira (PA);
- Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Manaus (AM);
- Dom Joel Maria dos Santos, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG);
- Dom José Albuquerque de Araújo, Diocese de Parintins (AM);
- Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, SDV, Bispo Presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Os signatários afirmam que o objetivo é “auxiliar os católicos em sua decisão”, ressaltando antagonismos entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa, e reforçando o apelo à participação consciente no segundo turno.
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