87% de vídeos e textos sobre saúde na internet são falsos
Entre os assuntos mais recorrentes estão covid-19, tratamentos e prevenção de doenças, além de conteúdos sobre alimentação
Promessas de curas milagrosas, tratamentos sem comprovação científica e falsas recomendações médicas estão entre as armadilhas que se espalham pelas redes sociais e aplicativos de mensagens.
Um levantamento da Agência Lupa, com apoio da Afya, revelou que dos 764 conteúdos virais sobre saúde analisados entre março de 2017 e junho deste ano, 667 continham informações inverídicas – o que corresponde a 87,3% dos materiais.
O estudo também identificou que uma das principais estratégias utilizadas para enganar o público é recorrer à suposta autoridade de médicos, pesquisadores e instituições de saúde para dar credibilidade às publicações.
Entre os assuntos mais recorrentes nas verificações estão a covid-19, os tratamentos e a prevenção de doenças, além de conteúdos relacionados à alimentação e à nutrição.
O vice-presidente médico e de relações institucionais da Afya, Gustavo Meirelles, destacou que os resultados do levantamento são preocupantes.
“A desinformação em saúde pode influenciar decisões concretas, levando uma pessoa a adiar a busca por atendimento, abandonar um tratamento eficaz ou adotar práticas sem respaldo científico”.
Segundo ele, o relatório ainda aponta que estratégias antigas, como promessas de cura e o uso de falsas autoridades para dar credibilidade a informações enganosas, continuam circulando e se adaptam a novos temas e formatos, inclusive com o uso de Inteligência Artificial.
A subcorregedora e coordenadora da Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Mônica Pacheco Murad de Alcântara, alerta que a disseminação de conteúdos falsos sobre saúde preocupa a classe médica, principalmente pelos riscos que essas informações representam para os pacientes.
“Idosos estão entre os mais vulneráveis, especialmente pela dificuldade de identificar conteúdos produzidos por Inteligência Artificial”.
Ela orienta que as pessoas desconfiem de conteúdos que fazem promessas de curas milagrosas, tentando vender um curso ou medicamentos e suplementos.
No caso de vídeos com supostos médicos, ela ressalta que é possível checar se é realmente um profissional. “Médicos precisam informar o número do CRM e RQE (para especialistas) em vídeos. Com isso, as pessoas podem acessar ferramenta “Busca Médicos”, no site do Conselho Federal de Medicina (CFM), e consultar o nome ou número”.
Levantamento
O relatório “Raio-X da Desinformação em Saúde — O que quase 10 anos de checagens revelam sobre as mentiras que ameaçam a saúde dos brasileiros” foi elaborado pela Agência Lupa, com apoio da Afya, ecossistema de educação e soluções para prática médica do Brasil.
O estudo analisou o acervo de checagens sobre saúde publicadas pela Lupa entre 2017 e 30 de junho de 2026.
Nesse período, foram analisadas 764 alegações sobre saúde, das quais 667, ou 87,3%, foram classificadas como falsas.
Períodos analisados
Antes da pandemia
(entre 2017 e 2019)
Segundo o relatório, predominavam conteúdos que associavam alimentos, bebidas, plantas e substâncias de fácil acesso à prevenção ou cura de doenças graves.
De 2020 a 2021 (pandemia)
A Covid-19 passou a dominar a desinformação, a partir da explosão de alegações falsas sobre vacinas, tratamentos e medidas de prevenção.
Entre 2022 e 2024
Os dados apontam que, nesse período, o coronavírus perdeu protagonismo, mas as vacinas não.
Ganharam espaço, por exemplo, conteúdos que prometiam “desintoxicar” o organismo das vacinas ou atribuíam aos imunizantes doenças e problemas de saúde.
Entre 2025 e junho de 2026
O estudo identificou a retomada das promessas de curas simples e tratamentos milagrosos.
Receitas caseiras passaram a conviver com anúncios pagos, vídeos manipulados por Inteligência Artificial e falsas declarações atribuídas a médicos.
Nomes de medicamentos conhecidos também passaram a ser usados para dar credibilidade a ofertas enganosas.
Técnicas usadas
Principais técnicas para tornar conteúdos enganosos mais convincentes:
- uso de falsa autoridade médica ou científica: 21,59%.
- medo e a linguagem alarmista: 17,09%.
- distorção de estudos e dados: 15,74%.
- oferta de soluções simples para problemas complexos: 12,59%.
Meios de disseminação
Conteúdos
Apesar da expansão dos vídeos e de ferramentas de IA, o texto aparece em 99,4% das verificações.
Vídeos estão presentes em 34,3% dos conteúdos analisados.
imagens em 26,1% dos materiais.
Em 74,5% dos casos, dois ou mais formatos aparecem combinados – sendo os principais texto e vídeo (27,9% das checagens).
Fonte: Relatório do Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, com apoio da Afya.
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