Crianças transformam talento em oportunidade de negócio
Reportagem do jornal A Tribuna conversou com os pequenos que já estão aprendendo o valor do dinheiro e realizando sonhos
Se tem algo que criança sabe fazer é criar. Entre brincadeiras, receitas inventadas e ideias que parecem nascer do nada, algumas começam a descobrir que aquilo que fazem por diversão também pode ter valor para outras pessoas.
Assim, talentos e brincadeiras vão ganhando novos sentidos e se transformando em pequenas oportunidades de empreender. A reportagem conversou com crianças que já estão aprendendo o valor do dinheiro e encontrando, nesses pequenos negócios, uma forma de realizar sonhos.
Arthur Haese Toledo Gomes e Tiago Pádua Carneiro, ambos de 11 anos, por exemplo, queriam dinheiro para as viagens que cada um iria fazer e pensaram em vender algo para levantar o dinheiro.
Foi em uma conversa que Arthur comentou com o amigo que os cookies de sua avó Ilma Haese Gomes, 82, eram uma delícia.
“Vimos um menino vendendo brownie no nosso condomínio e tivemos a ideia de vender algo”, contaram Tiago e Arthur.
Os meninos foram, então, até a avó de Arthur. “Perguntaram se ela faria os cookies com eles para vender. A iniciativa partiu deles”, contou a arquiteta Eliana Haese, 50, mãe de Arthur.
A primeira leva de ingredientes a avó e os pais do Arthur compraram, e a segunda foi feita pela publicitária Daniella Escocard, 42, mãe de Tiago. Na terceira produção, os meninos já pagaram os ingredientes com o lucro do que haviam vendido.
Há dois meses a produção está a todo vapor, com os meninos se organizando para embalar e vender nos dias e horários que não estão em aula.
“Com o lucro das vendas eles conseguiram levar o dinheiro para a viagem e continuam o projeto. Vão de porta em porta no nosso prédio e agora estão preparando encomendas para o Dia dos Professores”, contou Daniella.
Batizada de “Go Cookies”, o pequeno negócio tem pouco mais de dois meses.
Agora, com sua parte do lucro, Arthur quer comprar um tablet. Já Tiago planeja comprar um videogame.
Mesmo podendo escolher como gastar o lucro das vendas e tendo a ajuda da dona Ilma na produção dos biscoitos, os meninos são orientados por suas famílias sobre o compromisso com o negócio.
“Falamos sobre o compromisso que precisam ter quando os cookies são feitos. Pois, a partir do momento em que são produzidos, eles também têm de assumir o compromisso de vender, já que é um produto perecível e não pode deixar estragar ou ficar velho”, relatou Eliana.
Devido à iniciativa, os meninos foram convidados para dar uma palestra na escola em que estudam sobre os cookies. “Eles estão cheios de planos”, afirmou Eliana.
Paixão por brigadeiros
Com apenas 11 anos, Sophia Sousa Saadeh contou para a mãe, a delegada Juliana Saadeh, que gostaria de empreender. O desejo surgiu ao perceber, em seu entorno, outras pessoas empreendendo.
“Desde muito pequena, ela sempre gostou de fazer receitas ou inventar coisas na cozinha. Ela, então, me pediu para fazer brigadeiro para vender, e eu dei todo o apoio”, contou Juliana.
A produção começou no início do mês e, já no primeiro dia, Sophia vendeu quase toda a produção. “Os doces foram super elogiados. Ela também recebeu muito apoio da madrinha, que até fez o logotipo dos brigadeiros, ‘Stich’s Candy by Sophia’ (Doces Stitch da Sophia, em tradução livre).
Aulas que rendem dinheiro
Desde pequeno, Eric Klein Bermudes, 13, sempre teve um “faro” apurado para “fazer negócios”, segundo relatos de sua mãe, a assessora de comunicação Denise Klein, 45. Os pais, ao perceberem seu talento, começaram a conversar sobre o assunto.
“Ele pedia: 'mamãe, vamos vender brigadeiro ou cookies'. Ele fez um curso de programação, queria vender jogos, mas eu conversava com ele sobre isso, explicava que não era tão simples. Tinha medo dele parar de estudar para desenvolver negócios”.
Até que um dia, o pai de Erick deu a ideia: enquanto ele estudava para as provas semanais, poderia preparar aulas. “Eu percebi que fazer algo grande não daria certo. No início eu tentei vender produtos pelo Mercado Livre, mas como sou menor de idade, vi que teria limitações”, contou.
“Resolvi então fazer as aulas. Faço os slides no PowerPoint e vou narrando, dando a aula. O dinheiro que eu ganho, eu invisto”.
Denise relata que Erick definiu que as aulas custariam R$ 15 e já na primeira que fez ganhou R$ 200. Ele vai negociando com os colegas”.
Vendo o talento do filho para empreender, os pais decidiram colocá-lo em um curso de empreendedorismo para adolescentes no final do ano. “Ele está muito animado”, afirmou Denise.
"Experiência de aprendizagem"
Empreender na infância não deve ter um peso para as crianças, segundo especialistas. O foco principal deve estar na experiência.
“Empreender, nessa fase, precisa ser uma experiência de aprendizagem e não uma obrigação”, afirma Renata Braga, analista do Sebrae.
A especialista aponta ainda que o segredo para estimular o espírito empreendedor sem transformar a infância em uma preparação precoce para o mercado de trabalho está justamente em não colocar o dinheiro como objetivo principal.
“A criança pode ser estimulada a criar, experimentar, fazer perguntas, pensar em soluções e participar de pequenos projetos, como feiras escolares. A família e a escola entram para orientar e incentivar, sem cobrança por resultado. Porque infância também é tempo de brincar, estudar, errar e descobrir do que se gosta”.
Renata destaca ainda que na infância, empreender deve estar ligado ao desenvolvimento de competências. “Se houver algum resultado financeiro em uma atividade, ele pode até ser usado para ensinar noções sobre dinheiro, custo, escolha e responsabilidade. Mas esse não deve ser o centro da questão”.
“O mais importante é o que essa criança está aprendendo durante o caminho: criatividade, autonomia, planejamento, comunicação, trabalho em equipe e capacidade de resolver problemas”, ressalta.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários