X

Olá! Você atingiu o número máximo de leituras de nossas matérias especiais.

Para ganhar 90 dias de acesso gratuito para ler nosso conteúdo premium, basta preencher os campos abaixo.

Já possui conta?

Login

Esqueci minha senha

Não tem conta? Acesse e saiba como!

Atualize seus dados

ASSINE
Pernambuco
arrow-icon
  • gps-icon Pernambuco
  • gps-icon Espírito Santo
Pernambuco
arrow-icon
  • gps-icon Pernambuco
  • gps-icon Espírito Santo
ASSINE
Espírito Santo
arrow-icon
  • gps-icon Pernambuco
  • gps-icon Espírito Santo
Assine A Tribuna
Espírito Santo
arrow-icon
  • gps-icon Pernambuco
  • gps-icon Espírito Santo

TRIBUNA AGRO

Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café

Jovens levam formação e novas ideias para as propriedades, investindo em inovação, sustentabilidade e continuidade dos negócios

Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café

Ainda está escuro quando Tatiele Dalfior Ferreira começa o dia. Ela acorda, faz suas orações e toma o café da manhã com calma antes de começar o trabalho. O primeiro raio de sol marca o início das atividades na propriedade da família, em Governador Lindenberg. Até aqui ela já revisou a programação e ajustou o que será feito ao longo do dia.

Pela manhã, a rotina é tomada por questões burocráticas e de gestão. À tarde, ela troca os papéis e percorre a propriedade para acompanhar de perto o andamento dos trabalhos no campo. É nesse ritmo que a engenheira química, que um dia deixou o interior para estudar, hoje administra a propriedade da família, que está na terceira geração.


          Imagem ilustrativa da imagem Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
A engenheira química Tatiele Dalfior Ferreira na lavoura |  Foto: Arquivo pessoal

Aos 37 anos, Tatiele já tinha traçado um caminho profissional que poderia levá-la para longe da cidade, no Noroeste do Espírito Santo, onde nasceu e cresceu. Pesquisadora e pós-doutora, ela chegou a receber uma proposta para trabalhar no exterior, no Texas, nos Estados Unidos. Mas foi justamente quando a carreira parecia apontar para fora que Tatiele decidiu voltar para casa.

A história começou a mudar durante a pandemia. “Eu retornei para a propriedade com o intuito de trabalhar remotamente, mas estando perto da família e em um local mais tranquilo. Na época, as cidades foram esvaziadas e eu encontrei meu abrigo de volta ao campo, de onde eu poderia continuar meus trabalhos de forma remota. Ao vivenciar mais de perto as atividades da propriedade e vendo a necessidade de ter alguém próximo para dar fôlego e continuidade aos trabalhos, fui aos poucos me dando conta de que deveria retornar definitivamente”, conta.

Terceira geração da família dedicada à produção de café, Tatiele começou a enxergar na propriedade não apenas suas raízes, mas também o próximo passo profissional.

“Eu sabia que a pessoa para continuar seria eu. O amor pelo campo e pelo meu pai, e meu senso de responsabilidade de filha, que deveria dar continuidade ao que ele levou uma vida inteira para construir, pesaram na decisão”, conta.

No entanto, a volta não significou abandonar a profissão construída ao longo dos anos. Pelo contrário. Tatiele passou a levar para a lavoura conhecimentos que antes aplicava em ambientes de pesquisa e na indústria, e mudou processos como pós-colheita, secagem, controle de qualidade e organização dos processos.

“As aplicações mais óbvias estão no uso de fertilizantes e defensivos. Mas me encontro mesmo na parte de processamento pós-colheita, além da organização, gestão e otimização dos processos de uma forma geral. Quando trabalhava com P&D, acreditava que os resultados dependiam única e exclusivamente de mim. Hoje, vejo que os resultados da fazenda dependem de mim, do trabalho dos meus parceiros e principalmente de Deus. O campo é uma indústria a céu aberto”, afirma.

A busca por uma produção mais tecnificada levou Tatiele ao cooperativismo. A propriedade é cooperada da Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), maior cooperativa de café conilon do Brasil, e a assistência técnica e o acesso à tecnologia estiveram entre os motivos que levaram a família a se associar.

“No cooperativismo encontro apoio, suporte e segurança para o negócio. Ele se traduz num sentimento de que não caminho sozinha. No meu caso, que não tenho formação técnica na área agrícola, é essencial ter quem me dê as mãos e me ajude no direcionamento do negócio.”

Carlos André Santos de Oliveira, diretor-executivo do Sistema OCB/ES, analisa que, além de assistência técnica e capacitações, as cooperativas facilitam o acesso a novos mercados, tecnologias e soluções que contribuem para aumentar a produtividade e a renda.


          Imagem ilustrativa da imagem Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
Carlos André Santos de Oliveira, diretor-executivo do Sistema OCB/ES |  Foto: Foto: Sistema OCB/ES

“Ao fortalecer os produtores e gerar melhores condições para permanência na atividade rural, as cooperativas também contribuem para que as novas gerações vejam o campo como um espaço de oportunidades e de construção de futuro”.

De acordo com o Censo Cooperativista 2026, levantamento que deu origem ao Anuário do Cooperativismo Capixaba, o Ramo Agropecuário possui um total de 2.846 cooperados jovens (pessoas com até 29 anos). Desse total, 2.273 são homens e 573 mulheres.

“É preciso diversidade nos espaços decisórios. A presença de mulheres e jovens na gestão das propriedades traz uma nova visão, com mais inovação, criatividade e abertura para novas formas de produzir e agir. Essa diversidade de perspectivas contribui para decisões mais amplas e estratégicas, especialmente diante das transformações tecnológicas, econômicas e sociais que chegam ao campo”, assinala André.

Além dos jovens, ano após ano, as mulheres têm ganhado mais espaço nas cooperativas agropecuárias do Espírito Santo. O Anuário do Cooperativismo Capixaba 2026 aponta um crescimento da participação feminina no quadro social das 25 coops do agro. Considerando apenas os cooperados Pessoas Físicas (PFs), em 2025 as mulheres representaram 16% dos cooperados, um crescimento de 2,3% em relação a 2024.

Inovação no campo

Quem também ajudou a família a inovar na produção de café foi Larissa Diirr Bertoli, de 27 anos. Formada em Engenharia de Alimentos, ela levou para a propriedade dos pais, Odair José Bertoli, de 53 anos e Alcione Patrícia Diirr Bertoli, de 48, conhecimentos adquiridos na universidade, e passou a enxergar potencial no café Conilon que, até então, era comercializado sem um trabalho voltado à bebida especial.

Criada acompanhando o pai na produção de café, Larissa notava o zelo do homem pela produção, e percebia, com insatisfação, que, ao vender, a produção se juntava às demais, sem um real reconhecimento da qualidade. “Ele achava que não existia conilon de qualidade. E eu acreditei”, conta.

Larissa cresceu, estudou e sonhou alçar voos longe dali. No entanto, o destino reservava algo diferente. Na faculdade, ela participou de um projeto de pesquisa sobre a qualidade do café Conilon produzido no Espírito Santo. Até então, a possibilidade de valorizar o Conilon ainda era pouco explorada.

“Eu gostava muito da área de café. Intuitivamente, era uma área que eu achava muito interessante pela bebida, mas eu não sabia nada, assim, zero, de qualidade”, conta.

O estudo mudou sua percepção sobre a produção da família. Ao conhecer pesquisas que investigavam a qualidade do Conilon capixaba, Larissa passou a acreditar que o café cultivado pelo pai também poderia conquistar espaço entre as bebidas especiais. O desafio era convencê-lo a apostar nessa possibilidade.

Depois de muita insistência, e com o apoio da mãe, ela conseguiu convencê-lo a fazer um teste. Em 2021, a família produziu o primeiro lote experimental, e começou a investir em novas formas de secagem e processamento.

A Engenharia de Alimentos Larissa Diirr Bertoli conta um pouco sobre o percurso da família
A Engenharia de Alimentos Larissa Diirr Bertoli conta um pouco sobre o percurso da família 2 min

No ano seguinte, a família participou de um concurso municipal e conquistou o quinto lugar com a produção.

  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café

Embora o resultado ainda não correspondesse ao potencial que a família buscava, a experiência ajudou a abrir caminho para a comercialização com torra e venda direta ao consumidor. Assim, se estabeleceu Odair cuidar da lavoura e Alcione do pós-colheita. Em 2023, a família começou a participar de feiras, onde apresentou o produto e recebeu avaliações que reforçaram a aposta na qualidade.

  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café

O nome Sítio Doce Grão surgiu justamente das características percebidas na bebida, marcada pelo perfil adocicado. A família continuou participando de concursos e enviando amostras para provadores especializados. Aos poucos, ampliou a produção e investiu na estrutura para aprimorar o resultado.

“No começo, era tudo muito manual. A gente foi aprendendo, testando e entendendo que era sério, que tinha potencial”, relata.

A mudança também transformou a dinâmica familiar. O que começou como uma aposta de Larissa passou a envolver todos na propriedade, desde as decisões sobre o cultivo até o processamento e a comercialização.

“Agora, quando vai fazer o plantio, a família debate e decide sobre a variedade, o que fazer, como melhorar”, conta.

A busca por novos mercados e valorização do café produzido levou a família a se associar à Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo (Cafesul), cooperativa de Muqui, também no Sul do Estado, em 2025. “A ideia era entrar em uma cooperativa que, além do café, valorizasse a gente enquanto produtores familiares”, explica.

Além da comercialização, a cooperativa contribui para a estratégia de produção sustentável da família. A propriedade segue os critérios do comércio justo (Fairtrade), que trabalha os três eixos da sustentabilidade — social, ambiental e econômico — e incluem restrições a determinados produtos químicos. A família recebe acompanhamento de uma agrônoma e passou a utilizar alternativas, como bioinsumos.

Os investimentos também chegaram à estrutura da propriedade. A família adquiriu despolpador e lavador, e ampliou os espaços de secagem, com a construção de uma estufa e de terreiros maiores. Os equipamentos permitem processar o café de maneiras diferentes, acelerar a secagem e melhorar o controle sobre as etapas da pós-colheita.

  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
  • Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café

Sucessão familiar no agro

Sobre o cenário que se desenha, o secretário de Agricultura do Espírito Santo, Enio Bergoli, analisa que a sucessão familiar é um dos maiores desafios em todos os setores da economia, e no agro esse entrave está sendo superado.


          Imagem ilustrativa da imagem Engenheiras mudam a rota profissional e investem no café
Enio Bergoli, secretário de Agricultura do Espírito Santo |  Foto: Divulgação/Seag

“São jovens cada vez mais bem formados e capacitados, que voltam às origens animados para empreender, tendo em vista que o uso de ciência e tecnologia aplicada gera boa renda tanto na condução de atividades agrícolas de alto nível tecnológico quanto naquelas não agrícolas que são desenvolvidas no espaço rural, como agroturismo e agroindústria", afirma.

Na família Bertoli, a capacitação acompanha as mudanças. Além de Larissa, os pais passaram a fazer cursos de classificação física, análise sensorial, torra e preparo de café, entre outros. O conhecimento passou a orientar decisões, que vão do manejo à apresentação do produto ao consumidor.

Na propriedade da família de Tatiele, os planos também são de seguir avançando na produção. Entre os projetos estão a modernização do processamento pós-colheita, ampliação do uso de produtos biológicos e, no futuro, uma área de produção agroecológica.

SUGERIMOS PARA VOCÊ: