Novo guia de tratamento: 20 mil crianças e jovens estão obesos no ES
Documento da OMS orienta tratamento multifatorial para obesidade infantil; especialistas capixabas explicam como aplicar as recomendações.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o primeiro guia para a prevenção e tratamento da obesidade em crianças e adolescentes. Segundo a entidade, a prevalência da doença na faixa etária quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%.
Já no Espírito Santo, de acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), 20.319 crianças e adolescentes, de zero a 20 anos, têm diagnóstico de obesidade. Considerando ainda os que estão em nível de sobrepeso, o número chega a mais de 60 mil.
Para o tratamento, o guia reforça uma abordagem multifatorial. A nutricionista materno-infantil Carolina Duarte explica que o cuidado precisa começar pela rotina da criança, incluindo alimentação de qualidade e atividade física.
“À medida que a criança consome os alimentos, ela precisa ter um gasto. Se ficar só em telas, jogando e se alimentando, o corpo acaba armazenando essa energia”.
E é importante que a família participe desses ajustes. “Quem faz a compra dos alimentos são os responsáveis, então é essencial que eles também passem por esse processo de reeducação”.
Por isso, o guia não recomenda o tratamento farmacológico ou a cirurgia bariátrica até os 9 anos. A nutróloga pediátrica Bruna Tanure diz que a medicação pode ser considerada em faixas etárias maiores, principalmente quando há outras condições associadas.
“Com o avançar da idade, podemos pensar em medicamentos para tratar resistência insulínica ou compulsão alimentar. Já as canetas emagrecedoras viram opção para crianças mais velhas”.
Mesmo nos casos em que há indicação de medicamentos, o objetivo não deve ser apenas reduzir o peso, mas manter a saúde integral da criança, como alerta a pediatra nutróloga Tania Perini, membro do Departamento de Terapia Nutricional da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Para a pediatra e especialista em Nutrologia Pediátrica Fabíola Suano, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da SPB, o guia é um grande avanço, por reforçar que a doença precisa de um tratamento amplo, sem culpar o indivíduo, e com base em uma série de evidências científicas.
Qualidade de vida após tratamento
Aos 8 anos, Alice Costa Santos Serpa, hoje com 12, desenvolveu um quadro de obesidade após uma internação por problemas renais.
A partir disso, sua mãe, a empresária Priscila Vieira da Costa Santos Serpa, iniciou com ela uma jornada em busca de um tratamento com resultados eficazes.
“Passei por diversos médicos, até encontrar, há dois anos, um especialista em São Paulo que conseguiu nos dar um diagnóstico e traçar um plano de tratamento para ela”.
Alice começou, então, a tomar medicamentos, aliados à uma alimentação mais saudável e à prática de exercícios físicos, como a luta.
“Minha filha perdeu cerca de 15 quilos e tem outra qualidade de vida. Fico feliz de ter ido atrás disso”.
Cuidado também com a saúde mental
Guia da OMS
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou o primeiro guia global para enfrentar o aumento da obesidade entre crianças e adolescentes ao redor do mundo.
O documento surge em um momento em que a obesidade entre crianças e jovens entre 5 e 19 anos quadruplicou desde 1990, passando de 2% para 8%.
Tratamento indicado
Para crianças e adolescentes, o documento recomenda que o tratamento envolva dieta, atividade física e mudança de comportamento, com uma abordagem multifatorial.
Medicamentos e cirurgias
Até os 9 anos de idade, o guia não recomenda tratamentos farmacológicos, cirurgia bariátrica que altere o estômago ou o trato digestivo, ou dispositivos para perda de peso.
Na faixa de 10 a 19 anos, o tratamento com medicamentos aprovados pode ser considerado quando a abordagem de mudança de estilo de vida não tiver a resposta esperada.
Já a cirurgia bariátrica pode ser considerada sob condições rigorosas, para adolescentes com quadros de obesidade grave.
Saúde mental
As recomendações enfatizam ainda a importância de associar o cuidado com a saúde mental durante o tratamento de obesidade.
Ansiedade, depressão, baixa autoestima e desregulação emocional podem contribuir, segundo a OMS, para hábitos alimentares pouco saudáveis, sedentarismo e até mesmo isolamento social.
Além disso, crianças e adolescentes com obesidade podem sofrer estigma e bullying, o que prejudica seu bem-estar emocional.
Pais e cuidadores
As orientações consideram a participação dos pais e cuidadores no tratamento, inclusive mudando os próprios hábitos e adaptando as rotinas, e defendem um cuidado que seja centrado nas necessidades da criança e do adolescente.
Fonte: OMS e especialistas entrevistados.
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