Tecnologia vai além da sala de aula e ajuda a formar cidadãos
Projetos desenvolvidos por estudantes mostram como a tecnologia pode ser aplicada a problemas reais nas áreas de saúde, educação e meio ambiente
Mais do que aprender linguagens de programação, desenvolver aplicativos ou lidar com ferramentas tecnológicas, estudantes que se dedicam à área também são estimulados a entender como o conhecimento pode ser usado para transformar situações do cotidiano.
Para o especialista em Inteligência Artificial Leandro Furlan, esse exercício é importante porque ajuda a desenvolver nos jovens um olhar mais crítico sobre a realidade.
“Como são estudantes, eles estão em formação, e existe esse caráter social deles estarem formando e desenvolvendo o senso crítico sobre o mundo à volta deles e sobre o que estão fazendo”, afirma.
Na avaliação do especialista, a tecnologia ensinada nos cursos técnicos ganha outro significado quando os alunos conseguem relacioná-la a necessidades concretas.
Em vez de enxergar a programação apenas como uma ferramenta, eles passam a compreender como ela pode ser aplicada em diferentes áreas.
Esse contato entre conhecimento técnico e problemas reais também pode contribuir para a formação profissional. Segundo Furlan, experiências práticas permitem que os estudantes conheçam ferramentas que poderão ser exigidas posteriormente no mercado de trabalho.
“O mercado carece muito de pessoas boas de tecnologia e de pessoas que consigam, de fato, aplicar essa tecnologia e esse senso crítico sobre aquilo que estão fazendo”, destaca.
Soluções
O consultor em Inovação e Estratégia Evandro Milet destaca a importância disso. De acordo com ele, os projetos podem ser o embrião de soluções mais complexas à medida em que os estudantes ampliam seus conhecimentos e passam a conhecer diferentes setores da sociedade.
Segundo o consultor, uma das principais características de uma startup é justamente identificar uma necessidade e buscar uma maneira de solucioná-la.
Assim, mesmo quando o estudante trabalha com um problema simples e próximo de sua realidade, ele começa a desenvolver uma lógica que poderá ser aplicada posteriormente em situações mais complexas.
“As grandes startups que a gente conhece foram feitas a partir de dores desse tipo. A história do Uber é conhecida: dois caras tinham o problema de pegar táxi na chuva. No caso do Airbnb, alugaram um quarto que tinham e perceberam que existia um mercado para esse tipo de coisa, e assim por diante”.
Saúde dos olhos
Aplicativo de olho no excesso de telas
A equipe REST criou o Blink, aplicativo que busca reduzir os impactos do uso prolongado de telas sobre a visão e levou medalha de ouro da OBT.
Por meio da câmera do celular, a ferramenta analisa a frequência e a qualidade das piscadas, identifica sinais relacionados à fadiga ocular e sugere pausas e exercícios.
Fazem parte do grupo Lucas Chaves de Castro, Pedro Henrique Teodolino Andrade, Davi Nogueira de Bem, João Amaro Marins, Caio Rodrigues de Souza Aguiar, de 16 anos, e Malu Mariani Diaz Horta, de 17.
“Desenvolver o Blink foi uma experiência muito interessante, principalmente porque buscamos solucionar um problema que está tão presente no nosso dia a dia: passar muito tempo em frente às telas e não perceber o cansaço nos nossos olhos”, disse Pedro Henrique.
Monitoramento
Prevenção
A equipe Aquíferas desenvolveu o KnoWaters, aplicativo conectado a sensores que monitoram o nível da água e ajudam na prevenção de enchentes. A solução oferece alertas sobre riscos, mapa colaborativo de áreas vulneráveis e indicação de pontos seguros.
Fazem parte da equipe Sophia Morais, de 17 anos, Francisco Leal Alves, Juliana Brommonschenkel Corrêa, Eduardo Zardo Soares e Lorran Calazans Meneguelli, de 18 anos, e Murilo Gomes Carvalho Góes, de 19. “Todo o esforço e a dedicação da equipe compensaram”, disse Juliana.
Ajuda nas escolas
Matemática para crianças
A equipe Compilando Ideias desenvolveu um aplicativo educacional direcionado a crianças do ensino fundamental I.
A ferramenta ensina Matemática e educação financeira por meio de atividades interativas, gamificação, simulações de situações do cotidiano e videoaulas.
Professores e responsáveis também podem acompanhar o desenvolvimento dos estudantes.
Integram a equipe Ana Julia Santos Siqueira, Thainini Rodrigues Sabino e Lavinia Lima Rodrigues da Silva, de 17 anos, Kayla Wencionek Teixeira e Carlos Eduardo Ferrari Martins, de 18, e Ana Beatriz Borges Julião, de 19 anos
“Perceber que a educação e o Ifes podem abrir portas para experiências assim, por meio de projetos e trabalho em equipe, foi muito especial” disse Lavínia.
Análise
Crescimento da autonomia e do pensamento crítico
“A participação e a premiação desses estudantes na Olimpíada Brasileira de Tecnologia são uma experiência de aprendizagem bastante significativa, pois cria uma oportunidade de crescimento da autonomia e do pensamento crítico.
Esse tipo de ação valoriza a identificação de problemas reais da comunidade, a resolução de problemas, o trabalho cooperativo, o uso da tecnologia e o crescimento pessoal.
O aspecto mais importante dessa experiência está no processo cognitivo e socioemocional que esses estudantes adquirem.
Poder oportunizar a um adolescente a chance de observar uma dificuldade relacionada à saúde, à educação, ou qualquer outra abordagem da sua realidade social, é dar a ele a chance de transformar essa observação em uma proposta de solução. Toda aprendizagem construída a partir de problemas concretos se torna mais real e forte.
Assim, estudantes deixam de ser meros consumidores da tecnologia de forma rasa e passam a ser produtores de conhecimento”.
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