Desta vez será diferente
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Tem vezes em que aquilo em que acreditamos deixa de caber nas evidências que encontramos. Como abandonar uma crença pode custar mais, reorganizamos as evidências para reduzir a dissonância cognitiva.
Se um produto “lava mais branco”, qual lava menos branco?
A pergunta expõe o que o slogan omite. “Mais” exige uma referência que nunca foi apresentada. Ainda assim, basta que a roupa saia limpa para que uma promessa relativa pareça comprovada por um resultado absoluto.
Escolhemos o produto, observamos o resultado e usamos o próprio resultado para confirmar a escolha.
Quando a realidade contraria a escolha, corrigimos a interpretação antes de corrigir a escolha. Se o resultado não foi o esperado, pode ter sido a mancha, o tecido, a temperatura da água ou a quantidade utilizada. Cada explicação protege a escolha da evidência que poderia modificá-la.
Depois de escolher, exigimos mais das evidências que contrariam a decisão do que daquelas que a confirmam. Uma evidência contrária precisa vencer nossas justificativas.
Acreditamos com especial facilidade nas promessas que fazemos para nós mesmos. Conhecemos nossas intenções e as confundimos com a probabilidade de cumpri-las. Quando não cumprimos, atribuímos o resultado ao cansaço, à falta de tempo ou a alguma circunstância que não se repetirá. Então fazemos outra promessa. E, mais uma vez, nossa intenção pesa mais do que o nosso histórico.
Construímos mitos para organizar as contradições que nossa realidade não consegue resolver. Buscamos compatibilidade para o que é notavelmente incompatível: o herói e o antagonista podem habitar a mesma pessoa, e tudo bem.
Alguém pode continuar sendo responsável pelo problema e, ainda assim, ocupar o lugar de quem nos salvará dele.
Quem nos mantém dentro d’água lança a boia, e o resgate muda a forma como contamos o afogamento. Quem perpetua a pobreza entrega uma cesta básica e passa a ser visto como quem a combate. O auxílio não elimina sua causa, mas permite que o responsável apareça como salvador.
Às vésperas da eleição, acreditamos nas promessas de quem reaparece ao fim de cada quadriênio para pedir nosso voto. Mesmo com evidências suficientes de que teve anos, poder e oportunidade para cumpri-las e não as cumpriu, há quem acredite que, desta vez, será diferente. As mesmas promessas, feitas pela mesma pessoa, devolvem ao antagonista a aparência de herói.
Na campanha, um governante pode disputar a eleição contra o país que governou. O que não entregou reaparece como promessa. O problema que não resolveu retorna como prova de que sua presença continua necessária. O passado deixa de funcionar como evidência e passa a justificar mais tempo.
Quando acreditamos em nossas próprias promessas, ao menos conhecemos nossas intenções. Para acreditar novamente em quem teve poder para cumprir as suas e não o fez, dispensamos até isso.
Então idolatramos quem cria o problema do qual promete nos salvar e transforma o próprio fracasso em argumento para pedir um voto. E votamos.
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.