Novos medicamentos e cirurgias revolucionam tratamento de doenças do coração
Novos remédios, tratamentos e cirurgias mais rápidas ajudam a combater doenças que atingem cerca de 280 mil pessoas no Estado
Disnei Zanolini tinha apenas sete anos, em 1942, quando um estilhaço de ferro atingiu seu peito. O menino foi levado ao médico Euryclides de Jesus Zerbini, que abriu seu tórax para reparar o coração e reconstruir a artéria coronária atingida. Era a primeira sutura cardíaca de sucesso realizada no Brasil.
Oitenta e quatro anos depois, a cardiologia avançou e a ideia de que o coração era um órgão “intocável” ficou para trás. Hoje, novos medicamentos, tratamentos e cirurgias mais rápidas ampliam as possibilidades de combater doenças cardiovasculares, que atingem 6,9% da população do Espírito Santo — cerca de 280 mil pessoas.
Uma dessas novidades é o reparo da válvula mitral por clipe. Segundo o cardiologista Vitor Pazolini, responsável pelo setor da Hemodinâmica do Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV), a válvula mitral funciona como uma porta que deve ser bem fechada para o sangue seguir adiante.
“Quando ela não fecha direito, parte do sangue volta, e isso pode sobrecarregar o coração. O clipe é uma forma de aproximar as partes da válvula para diminuir esse refluxo. Ele é levado ao coração por um cateter introduzido pela virilha, sem abrir o tórax. Para muitos pacientes, isso significa recuperação mais rápida e uma opção de tratamento quando a cirurgia convencional oferece risco elevado”, destaca.
Ainda no campo cirúrgico, a ablação por campo pulsado (PFA) é outra técnica recente, usada para tratar arritmias (como a fibrilação atrial). Ela usa pulsos elétricos em vez de calor ou frio, conforme explicou Renato Serpa, cardiologista intervencionista e coordenador do Serviço de Hemodinâmica e de tratamento de doenças valvares e estruturais do Hospital Santa Rita. “É mais rápida, mais segura (menos risco de lesar estruturas vizinhas) e permite alta no mesmo dia”.
Outra novidade é aplicação da tecnologia de RNA na produção de medicamentos para o coração. A cardiologista Tatiane Emerich explica que esses medicamentos são os chamados silenciadores de RNA: eles interferem na mensagem utilizada pela célula para fabricar uma proteína.
“O inclisiran, remédio para redução do colesterol LDL, é um exemplo disso, assim como a vutrisirana para o tratamento da cardiomiopatia da amiloidose por transtirretina. E essa tecnologia está avançando para outros alvos. Temos silenciamento de RNA sendo estudado para reduzir triglicerídeos e até para tratar hipertensão”.
Novidades
Medicamentos
RNA
Os chamados silenciadores de RNA bloqueiam a mensagem que a célula usa para produzir determinadas proteínas. Um exemplo é o inclisiran, usado para reduzir o colesterol LDL. Ele utiliza interferência por RNA para reduzir a produção de PCSK9 pelo fígado e pode ser administrado apenas duas vezes ao ano após a fase inicial. Tem valor médio de R$ 8.900 a unidade.
A tecnologia também é estudada para triglicérides e hipertensão, conforme explicou a cardiologista Tatiane Emerich.
Na amiloidose cardíaca, doença que ocorre devido ao acúmulo de uma proteína específica no coração, a terapia de RNA (vutrisiran) demonstrou redução do conjunto de mortes e eventos cardiovasculares recorrentes, diz a cardiologista Daniella Motta.
Edição genética
Em estudo publicado em 2026 no New England Journal of Medicine, uma única infusão da terapia experimental VERVE-102 reduziu o LDL em até 62% na maior dose avaliada.
O tratamento modifica o gene PCSK9 diretamente nas células do fígado e ainda está em fase inicial de pesquisa, afirmou a cardiologista Tatiane Emerich.
GIP/GLP-1
Medicamentos usados contra obesidade, como semaglutida e tirzepatida (GIP/GLP-1), também passam a integrar estratégias de redução do risco cardiovascular em pacientes selecionados, segundo o cardiologista Diogo Barreto, coordenador do serviço de Cardiologia do HEVV.
As substâncias reduzem a ocorrência de eventos graves, como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e morte cardiovascular, segundo estudos.
Injetáveis
Novos medicamentos injetáveis, como pelacarsen, olpasiran, lepodisiran e zerlasiran, conseguem reduzir a Lp(a) - partícula de gordura determinada principalmente pela genética - em até 90% a 98% em estudos. Eles atuam no fígado, diminuindo a produção da partícula. Ainda não foi comprovada, porém, que essa redução diminua a ocorrência de infartos e outros eventos cardiovasculares, aponta o cardiologista intervencionista Renato Serpa.
Selatogrel: Injeção em estudo internacional ainda em andamento em que o próprio paciente aplica ao sentir os primeiros sintomas de infarto, para “afinar o sangue” enquanto espera socorro.
Exames
Hoje, aponta a cardiologista Daniella Motta, já é possível reunir informações como pressão, colesterol, diabetes e histórico familiar para estimar o risco de infarto. A dosagem da lipoproteína (a), partícula do sangue muito influenciada pela genética, acrescenta informação importante.
Em algumas pessoas, segundo a médica, o escore de cálcio — uma tomografia que identifica cálcio nas placas das artérias do coração — ajuda a decidir quando intensificar a prevenção.
Cirurgias
Mitraclip
procedimento minimamente invasivo usado para tratar a insuficiência mitral, quando a válvula mitral não se fecha completamente e permite o refluxo de sangue. Um pequeno clipe é posicionado para aproximar as bordas da válvula, reduzindo o vazamento, explica o cardiologista Diogo Barreto.
Ablação por campo pulsado
técnica para arritmias (como a fibrilação atrial) que usa pulsos elétricos em vez de calor ou frio. É mais rápida, mais segura (menos risco de lesar estruturas vizinhas) e permite alta no mesmo dia, explica o cardiologista intervencionista Renato Serpa.
Xenotransplante
O transplante entre diferentes espécies, chamado xenotransplante, tem avançado e já há pesquisas com porcos geneticamente modificados para serem doadores de órgãos, inclusive coração, para humanos. Para Assad Sassine, cirurgião cardiovascular do Apart Hospital, terapias como o coração artificial e o xenotransplante são caminhos promissores para pacientes com insuficiência cardíaca. “O primeiro já é realidade no cenário clínico, o outro será muito em breve”, afirma.
Fonte: Especialistas consultados.
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