Prevenção da demência ainda é desafio para a medicina; entenda
Especialistas afirmam que isso depende de mudanças de hábitos e de mais políticas públicas para se ter um diagnóstico precoce
Mais de 2,7 milhões de brasileiros acima dos 60 anos vivem com demência, segundo estimativa. Em 2039, a previsão do Consenso Delphi é de que esse número ultrapasse 5,5 milhões.
A alta projeção vai ao encontro de um estudo publicado na revista Jama Neurology, em julho deste ano, apontando que a prevalência da demência na América Latina aumentou de 10,6% em 2003-2006 para 16,9% em 2016-2020.
A prevenção da doença, porém, continua sendo um desafio, já que depende de mudanças de hábitos da própria população e de mais políticas públicas para diagnóstico precoce.
Segundo especialistas, existe um conjunto de fatores modificáveis que pode aumentar ou reduzir, ao longo da vida, a vulnerabilidade de ter demência. Justamente por isso, hoje é o Dia Nacional de Conscientização da doença de Alzheimer, demência mais prevalente na população.
Entre esses fatores, aponta o neurologista Victor Saddeh, da MedSênior, estão hipertensão arterial, diabetes, colesterol elevado, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, perda auditiva e visual não tratadas, depressão, isolamento social e baixa estimulação cognitiva.
Também entram nessa equação fatores socioeconômicos, como menor escolaridade e dificuldade de acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao controle adequado das doenças crônicas.
“Na América Latina, muitos desses fatores acabam se sobrepondo. Uma pessoa pode chegar à terceira idade tendo convivido durante décadas com hipertensão ou diabetes mal controlados, pouca atividade física e menor acesso aos serviços de saúde. Por isso, quando falamos em prevenção das demências, precisamos pensar no cuidado com o cérebro ao longo de toda a vida, e não somente depois dos 60 ou 70 anos”, destaca.
A geriatra Fernanda Sperandio, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Espírito Santo (SBGG-ES), destaca que não há um único “vilão” para o desenvolvimento das demências e a prevenção precisa ser multifatorial.
“Aos 30 e 40 anos, por exemplo, é importante construir hábitos que protejam a saúde cardiovascular e cerebral: praticar atividade física regularmente, não fumar, evitar consumo excessivo de álcool, manter uma alimentação equilibrada, controlar peso, pressão arterial, glicemia e colesterol e manter uma vida intelectualmente e socialmente ativa”.
80% dos casos não têm diagnóstico
Um dado chama atenção: 80% dos casos de demência no Brasil permanecem sem diagnóstico, revela o Relatório Nacional sobre a Demência.
Para a geriatra Fernanda Sperandio, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Espírito Santo (SBGG-ES), o Brasil precisa deixar de enxergar a demência “apenas como uma doença da velhice e incorporá-la de forma mais estruturada às políticas de saúde ao longo do curso da vida”.
“Esquecimentos que começam a interferir nas atividades do cotidiano, dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos, perda de autonomia para tarefas anteriormente habituais, alterações de linguagem ou mudanças importantes de comportamento devem ser investigados e encaminhados para o especialista”.
Segundo a médica, o diagnóstico precoce não significa simplesmente “descobrir a doença mais cedo”. “Significa identificar a causa do comprometimento cognitivo, investigar condições potencialmente tratáveis, controlar fatores de risco, organizar o cuidado e orientar a família”.
Fernanda aponta ainda que a prevenção também depende de políticas públicas que facilitem hábitos saudáveis, controle de doenças crônicas e acesso à saúde.
Tratamento
Assim como o diagnóstico, o tratamento das demências também é desafio. De acordo com a neurocirurgiã Vanessa Milanese, diretora de comunicação da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, o tratamento das demências envolve uma abordagem multidisciplinar. Algumas medicações podem ajudar a controlar sintomas, assim como a reabilitação cognitiva, realizada pela neuropsicologia.
“Ela pode contribuir com exercícios específicos para as áreas que apresentam maior dificuldade, como atenção e linguagem”.
Já na neurocirurgia, segundo a médica, existem estudos que mostram resultados com a neuromodulação, principalmente a não invasiva, por meio da estimulação de regiões cerebrais relacionadas à cognição, como áreas frontais e temporais. “Em casos de comprometimento cognitivo leve, essa estratégia pode ajudar”.
Fique por dentro
Demência
- É um termo genérico para um conjunto de sintomas causados por distúrbios que afetam o cérebro e têm impacto na memória, pensamento, comportamento e emoção.
- A forma mais comum é a doença de Alzheimer, que afeta de 50% a 60% das pessoas com demência. Outros tipos de demência incluem demência vascular, demência de corpos de Lewy e demência fronto-temporal.
Subdiagnóstico
- 80% dos casos de demência no Brasil permanecem sem diagnóstico. Estima-se que mais de 2,7 milhões de pessoas acima dos 60 anos vivam com demência. Dessas, 1,7 milhão têm Alzheimer.
- Dois terços das pessoas diagnosticadas com Alzheimer são mulheres.
- Aos 65 anos, o risco estimado é de 1 em cada 5 mulheres, contra 1 em cada 10 homens.
- Além da maior expectativa de vida, fatores hormonais, como a redução dos níveis de estrogênio após a menopausa, podem contribuir para a suscetibilidade.
Fatores de risco
- Aproximadamente 50% dos casos de demência poderiam ser potencialmente evitados com o controle de alguns fatores de risco.
- Fatores que aumentam o risco: menor escolaridade, perda auditiva, altos níveis de colesterol (LDL), depressão, lesão cerebral traumática, inatividade física, tabagismo, diabetes, hipertensão (pressão alta), obesidade, consumo excessivo de álcool, isolamento social, poluição do ar e problemas de visão não tratados.
Custo
O custo médio mensal por pessoa com demência:
- Estágio inicial: R$ 2.082,30.
- Estágio moderado: R$ 3.255.
- Estágio avançado: R$ 3.893,10.
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